Famílias, como (não) sobreviver com elas

Todas as mudanças que possam transformar o bom senso em lei podem ter efeitos multiplicadores. Até porque, nestes tempos, a erosão democrática é um perigo real.

Quem se surpreendeu com o escândalo da endogamia no governo? Não essa pseudoindignação que está a fazer o seu caminho pondo em lume brando o partido de um governo na pré-campanha permanente que seria sempre um ano de duas eleições. Falo de uma indignação verídica. Sim, para quem, nestes meandros entre a política, o poder económico, o mediático, a administração pública, ou a elite que lê os jornais, para quem, entre esses, é novidade a endogamia, o nepotismo, o amiguismo ou outros critérios que não a meritocracia e a competência?

Na resposta a esta pergunta está a gravidade da situação. Porque se ela for honesta terá de ser negativa. E não acreditem na ingenuidade da classe jornalística sobre o assunto. Ingenuidade é o que não podem ter - não podemos ter - os jornalistas, anos e anos de contratações feitas através de conhecimentos e sem processos formais de seleção, apenas com a convicção (mais uma vez informal) da meritocracia, na melhor das hipóteses.

Este mea culpa é também sintoma do problema. No jornalismo, havemos de o avaliar, também, como parte da crise dos media. No caso dos políticos, tem causas específicas, como o fechamento e a profissionalização, a transformação dos partidos de máquinas ideológicas em máquinas eleitorais, da captura de um sistema que gere recursos escassos, da mudança de agulha, dos interesses individuais a sobreporem-se aos coletivos. No caso das empresas, embora a questão esteja mitigada nos processos seletivos, todos sabemos como o fator C, o jeitinho, o desenrascanço, é ainda tanto a regra.
E qual é o problema? É que a endogamia não é um problema apenas em si. É a consequência óbvia de uma sociedade pequena, periférica e sobretudo pobre. E por isso é endémica e resistente. Em Portugal, os vários estudos sobre a questão chegam sempre à mesma conclusão: os poderes estão na mão de uma elite reduzida e fraca e há pouca mobilidade social. "Portugal sempre teve uma elite política mais elitista do que as outras", dizia o politólogo António Costa Pinto num trabalho do DN em que se falava do assunto. Porque tem mais a perder. E esta endogamia causa também uma sociedade mais pequena e pobre.

A utilidade de ter relações e conexões úteis não é um assunto português, nem um tema que conduza inevitavelmente à corrupção dos "fins". Em países maiores, meios mais modernos, democracias mais desenvolvidas, economias poderosas, em todos eles existe o networking e o lobbying. O que vem depois é o que marca a diferença - a regulação dos "meios". O escrutínio sobre quem chegou onde e porquê.

Por isso, todas as mudanças que possam transformar o bom senso em lei - como li algures nestes dias - serão bem-vindas, e podem mesmo ter efeitos multiplicadores. Até podemos deixar-nos enredar em pormenores - os tais, repercutidos nas 16 perguntas com que o primeiro-ministro respondeu ao PSD na Assembleia da República quando Fernando Negrão pôs a questão da presença de familiares no governo.

De uma coisa temos de ter a certeza: nestes tempos, sobretudo, perigosos - vejam o texto sobre as redes sociais nesta edição -, tudo será aproveitado pelos que têm interesse em degradar a política como a conhecemos. E a degradação da confiança das instituições democráticas será, a médio prazo, a degradação da democracia.

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