Premium Os fantasmas da avenida

Comecei a acreditar em fantasmas quando me mudei para Lisboa, até esse momento só os tinha encontrado em livros e na televisão, agora vejo-os todos os dias e até já conversei com alguns.

Os meus fantasmas habitam a Avenida Almirante Reis, dormem em caixas de cartão ou embrulhados em cobertores sujos, alguns pedem, alguns bebem ou drogam-se, alguns recebem o rendimento social de inserção. Há fantasmas portugueses e estrangeiros, homens e mulheres, velhos e novos. Alguns tiraram licenciaturas e tinham casa e trabalho estável; foi a crise, foi o álcool, foi uma desgraça que aconteceu. Os fantasmas estão lá todos os dias e é preciso muito esforço para não acreditar neles - olhar para o lado, olhar para o chão, e, sobretudo, evitar a todo o custo fixar-lhes os olhos que parecem mesmo de gente como nós.

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Ferreira Fernandes

"Corta!", dizem os Diáconos Remédios da vida

É muito irónico Plácido Domingo já não cantar a 6 de setembro na Ópera de São Francisco. Nove mulheres, todas adultas, todas livres, acusaram-no agora de assédios antigos, quando já elas eram todas maiores e livres. Não houve nenhuma acusação, nem judicial nem policial, só uma afirmação em tom de denúncia. O tenor lançou-lhes o seu maior charme, a voz, acrescida de ter acontecido quando ele era mais magro e ter menos cãs na barba - só isso, e que já é muito (e digo de longe, ouvido e visto da plateia) -, lançou, foi aceite por umas senhoras, recusado por outras, mas agora com todas a revelar ter havido em cada caso uma pressão por parte dele. O âmago do assunto é no fundo uma das constantes, a maior delas, daquilo que as óperas falam: o amor (em todas as suas vertentes).

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Crónica de Televisão

Os índices dos níveis da cadência da normalidade

À medida que o primeiro dia da crise energética se aproximava, várias dúvidas assaltavam o espírito de todos os portugueses. Os canais de notícias continuariam a ter meios para fazer directos em estações de serviço semidesertas? Os circuitos de distribuição de vox pop seriam afectados? A língua portuguesa resistiria ao ataque concertado de dezenas de repórteres exaustos - a misturar metáforas, mutilar lugares-comuns ou a começar cada frase com a palavra "efectivamente"?