Ricciardi: "Vou reatar relações com o Benfica, estou farto de insultos"

Banqueiro critica Frederico Varandas e João Benedito, identifica a pista angolana para o Sporting não perder o comboio da globalização, revela que nunca foi ao Pavilhão João Rocha e diz que está na hora de haver civismo no futebol português. A caça, os canários, a jardinagem e a leitura podem esperar.

Não foi fácil o encontro do DN com José Maria Ricciardi. Após inúmeras marcações e desmarcações, durante duas semanas, o cara-a-cara lá se fez. "Desculpem o atraso", diz-nos quando nos vê no seu escritório situado num nono andar da Avenida da Liberdade. Afinal estava em falta por escassos dez minutos. Prontifica-se a tudo, pergunta onde se senta. De rosto cansado mas com um olhar apaixonado vai-nos falando e debitando ideias, umas atrás das outras.

Confessa-nos, questionado pelo DN, onde se deu o clique para se submeter ao sufrágio dos sócios. "Foi no Guincho, estava com o José Eduardo [vice-presidente para o futebol e antigo jogador do clube]", começa por dizer. Mas a sua vontade não era a de encabeçar qualquer lista. "Já tinha discutido várias vezes a situação do Sporting com o José Eduardo, tínhamos tentado encontrar uma pessoa que reunisse uma série de características - confiança, maturidade, experiência, traquejo, capacidade de gestão e liderança - para assumir uma candidatura. Falámos com algumas pessoas, que reuniam esses requisitos e que ficaram de pensar, mas não quiseram. Perante isto, virámo-nos um para o outro e dissemos que se o Sporting ficasse na mão dos candidatos que se perfilavam ia ser um descalabro. Resolvemos avançar nós. Eu não queria...", diz, enquanto mede as palavras. E depois conclui o raciocínio. "Não queria, mas depois pensei que ia ficar o resto da minha vida, que não sei se será muito ou pouco, a censurar-me por não ter tido a coragem, de, no fundo, me ter acobardado. Porque quem entra nisto... não é fácil, você é jornalista e percebe. Há os insultos, o escrutínio, os golpes baixos, tudo isso."

A história do BES e o escrutínio

Depois de tomar aquela decisão junto ao mar chegou a casa e comunicou a decisão à família. "Ninguém me tentou demover, isso também teve muita influência na minha decisão, houve compreensão mas com a consciência de que ia ser uma coisa dura. Quando se passou a história do BES, a partir de certa altura já me estavam a tentar confundir com práticas e atos a que eu era alheio, mas não quero entrar por aí... houve a consciência de que era altura de mostrar que não tinha receio nenhum de me submeter, porque quando nos metemos nisto temos de nos sujeitar a um escrutínio completo e total. Esta era a prova de que não tenho nada a temer", sublinha.

"Frederico Varandas e João Benedito não têm qualquer capacidade. Isto é um aviso que eu quero fazer aos sócios. Não me interpretem mal nem me achem arrogante, mas depois não se queixem."

José Maria Ricciardi diz que decidiu avançar por não reconhecer "qualquer capacidade aos dois candidatos, além de nós, que podem ganhar". Não há dúvidas de quais são os alvos do gestor. "Refiro-me a Frederico Varandas e a João Benedito. Não têm qualquer capacidade, de certeza. Isto é um aviso que eu quero fazer aos sócios. Não me interpretem mal nem me achem arrogante, mas depois não se queixem", afirma em tom de lamento. Em seguida pormenoriza o "problema grave financeiro" de défice de tesouraria que não reconhece a nenhum dos dois candidatos capacidade para resolver: "Existe um défice de tesouraria de 122 milhões de euros que é preciso resolver. São 30 do empréstimo obrigacionista, mais 30 que têm de ser pagos aos bancos, mais 60 de receitas que foram antecipadas, e ainda há a conta reserva das VMOC que vencem em 2026 para que o Sporting não perca a maioria da SAD." Perante estes factos atira-se às soluções propostas pelos dois rivais nas urnas: "A ideia de alienar mais direitos televisivos é um erro porque estaria a pagar-se tesouraria de curto prazo com receitas futuras que vão fazer muita falta. Nem se está a pagar dívida bancária, como fizeram FC Porto e Benfica. É para pagar ordenados, fornecedores, necessidades de curto prazo. A situação do Sporting é complicadíssima, não está para principiantes", sintetiza com uma expressão que tem usado amiúde nesta campanha eleitoral.

"O Sporting, se não conseguir ganhar competitividade para ficar na liderança do futebol português, arrisca-se a ficar a jogar com V. Guimarães, Sp. Braga e Rio Ave"

O problema, diz Ricciardi, tem que ver com o "futebol mundial que está em grande transformação" e "há muita gente a dormir sobre isto, e estes dois candidatos ainda mais". O candidato da lista B relembra que "Benfica e o FC Porto nesta época vão receber, qualquer um deles, perto de 50 milhões e se chegarem aos oitavos recebem 70 milhões", ao passo que o Sporting terá direito "na Liga Europa a cinco milhões, a sete milhões, 10% dos valores auferidos por Benfica e FC Porto". Sem problema em dramatizar, o banqueiro vaticina: "O fosso está-se a aprofundar. O Sporting, se não conseguir ganhar competitividade para ficar na liderança do futebol português, arrisca-se a ficar a jogar com V. Guimarães, Sp. Braga e Rio Ave."

Perguntamos, então, se se for eleito o Sporting vai conseguir ter competitividade. O candidato não se compromete, mas volta a sublinhar as competências da sua lista: "Certezas absolutas ninguém pode dar, mas somos de longe a candidatura que oferece mais garantias aos sócios."

Sondagens e Rogério Alves

Para se manter como um clube grande o Sporting, no entender de José Maria Ricciardi, tem de se "globalizar". Fala de clubes como Chelsea e Manchester City, que eram clubes de bairro e que hoje "têm adeptos no mundo inteiro". E pergunta: "Como fizeram isso? Com investimento, equipas muito fortes e torneios de pré-época começaram a ganhar adeptos."

Mas o Sporting tem, no seu entendimento, um elemento que pode ajudar. "Ou o Sporting percorre este caminho ou vamos desaparecer do mapa internacional. Ainda por cima temos características que nos diferenciam dos outros, temos um mercado que ninguém aproveita, que é o angolano, e que tem uma ligação emocional fantástica ao Sporting. Temos de explorar esse mercado... o Sporting Lobito, o Sporting Cabinda, Sporting de Luanda, Angola é um país fortíssimo em África e que amanhã nos pode vir a alargar o enormemente o número de adeptos e daqueles que seguem os nossos jogos."

"Estou aqui para ganhar e acho que vou ganhar porque há uma maioria silenciosa."

E continua, mantendo Varandas e Benedito sob fogo cerrado: "Queremos ser uma direção europeia, não reconheço a estas pessoas qualquer capacidade para empreender isto. Vivem numa inconsciência total, dizem que está tudo lindamente. Ou não foram ver, ou não percebem, ou não sabem fazer contas. Isso mostra impreparação e falta de experiência. Estou aqui para ganhar e acho que vou ganhar porque há uma maioria silenciosa que já percebe isso, façam as manipulações de sondagens que quiserem, isso é-me indiferente. Estou convencido de que vou ganhar, mas é preciso que os sócios tenham consciência do que lhes estou a dizer. Depois não venham dizer que não perceberam. Há muita gente que não quer falar de números, de dinheiro e de finanças, mas sem dinheiro não há futebol."

Não havia dúvidas, José Maria Ricciardi tinha definido para este encontro com o DN visar Frederico Varandas e João Benedito, muito embora tenha ficado a sensação nos debates de que nutria uma menor simpatia para com o médico. O economista confirma. "Sim, porque não levo desaforos para casa, porque não gosto de ser chamado de mentiroso e eu estarei sempre disposto a ajudar o Sporting, mas se for o Dr. Varandas a vencer a eleições não há ajuda que lhe possa valer."

Curiosamente, Rogério Alves, amigo e advogado de José Maria Ricciardi, é candidato a presidente da Mesa da Assembleia Geral na lista de Frederico Varandas. O economista baixa a cabeça e ri-se quando lhe perguntamos se a história podia ser outra se tem decidido avançar mais cedo. "Isso tem de perguntar ao Dr. Rogério Alves, por quem tenho enorme consideração pessoal. É um grande advogado. Fez essa opção, que eu respeito, e é uma pessoa por quem eu tenho grande admiração. Mesmo saindo derrotado irá dar uma grande contribuição ao Sporting Clube de Portugal.

O Benfica e a bruxa má

A propósito de uma história sobre a sua filha - já lá vamos - José Maria Ricciardi faz uma revelação. "Fui muito bem recebido na Luz, tenho uma profunda e total rivalidade com o Benfica, mas tem de ser jogada nas quatro linhas e não nos insultos. Esta é uma indústria em que temos de nos dar todos civilizadamente uns com os outros. Isso acontece em todos os países, à exceção de Portugal. Se vou reatar relações? Vou reatar relações com Benfica e ter relações com todos. As pessoas estão fartas dos insultos e das agressões, e eu também estou. Isto é um negócio, é uma indústria. Não quer dizer que não defendam até à última gota os interesses do seu clube. Quando eu digo isto as pessoas olham para mim e acham que eu sou um marciano. Agora... tudo o que tem que ver com a justiça, seja de que clube for, doa a quem doer, tem de ser apurado, e se houver alguma coisa as consequências têm de vir. Mas não vou andar a explorar isso."

Agora, sim, a história de como conseguiu tornar a sua filha sportinguista com o rival de sempre na jogada. "Só tenho uma filha. Casei-me em segundas núpcias e fi-la sócia desde o dia em que ela nasceu. Tínhamos uma empregada benfiquista e um dia eu chego a casa e a minha filha diz 'Benfica'. Fiquei petrificado. Tive uma ideia luminosa. Ela estava naquela fase de 2, 3 anos e gostava muito de ver a Branca de Neve e os Sete Anões. Eu então virei-me para ela e disse: 'Minha filha, está a ver aquela bruxa com a maçã? Isso é o Benfica.' E o assunto ficou resolvido. A minha mulher achou que era lavagem ao cérebro, mas eu não resisti", confessa.

"Na época passada todos diziam que a equipa mais forte era a do Sporting e que o plantel mais fraco era o do FC Porto, e já se sabe quem foi campeão."

No que diz respeito à equipa de futebol, José Maria Ricciardi destaca "o trabalho notável de Sousa Cintra" e a "prova de competência fantástica" que José Peseiro está a fazer. Sobre o título já nesta época diz "que não é fácil mas é possível", e sustenta a sua ideia com o rival do norte. "Na época passada todos diziam que a equipa mais forte era a do Sporting e que o plantel mais fraco era o do FC Porto, e já se sabe quem foi campeão. É possível sermos campeões, não prometo, mas acredito", considera.

Pavilhão por visitar

Muitos adeptos nas redes sociais veem Ricciardi como um candidato que pode desinvestir nas modalidades. O economista diz que isso são "lugares-comuns" e mostra o seu currículo. "Fui um praticante razoável de andebol, fui campeão no Liceu Pedro Nunes, sempre adorei andebol."

Perguntamos-lhe se já foi ao Pavilhão João Rocha. "Não fui e vou dizer porquê, até há pouco tempo vivia duas semanas por mês fora de Portugal, entre Londres, Brasil e Estados Unidos. Quando vinha a Portugal tinha pouco tempo e não podia ir ao pavilhão. Não fui devido à vida que tinha, mas espero ir lá em breve, seja presidente ou não, agora que tenho mais tempo", justifica.

"Não fui [ainda ao Pavilhão João Rocha] devido à vida que tinha, mas espero ir lá em breve, seja presidente ou não, agora que tenho mais tempo."

Aos 63 anos, José Maria Ricciardi tem uma vida cheia, e alguns dos momentos de lazer terão de ser suprimidos caso se torne o 43.º presidente da história do Sporting. Então convidamos o banqueiro a dizer o que vai deixar de fazer se for eleito no próximo sábado: "Vou ter menos tempo... sou caçador e há muita gente que não percebe a função do caçador em Portugal. Gosto de ir para o campo. Sou ornitólogo, criador de canários, já fui vice-campeão do mundo e é um hobby que tenho e de que gosto imenso. Sou capaz de criar 400 a 500 pássaros por ano. Também gosto muito de jardinagem e de ler, tenho a sensação de que a minha vida vai mudar. Serei presidente a full time, terei de lá estar, mas estarei acompanhado de pessoas com capacidade técnica para executar o que for decidido. Teremos uma organização o mais enxuta possível mas profissionalizada."

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