Quinze segundos

Dois constitucionalistas já vieram decretar a falta de sentido do dia de reflexão e apontaram ainda a sua incoerência com o voto antecipado.

O dia de reflexão é a coisa mais estúpida e mais deliciosa da lei eleitoral.

A mais estúpida porque não serve para nada. Não protege ninguém de qualquer influência eleitoral, desde logo porque tem no seu bolso, no telemóvel, a maior pressão eleitoral de sempre, no WhatsApp, no Facebook, no Instagram, para não falar do Twitter essa ágora de inreflexão. As redes sociais não passam o dia de reflexão com música séria como antigamente a rádio na Páscoa. Depois a ideia de que alguém reflete alguma coisa, depois de ter estado os quinze dias da campanha - e apenas esses, nada antes da campanha - a reunir informação ponderada, a ler os programas, a meter para trás na box os pontos altos dos debates, tudo para no domingo, em reflexão orante, em mindfullness político, perceber onde botar a cruz. Querida, tenho estado aqui a refletir e aqueles sujeitos da Iniciativa Liberal até dizem coisas, sim senhora, mas gosto muito daquela moça gaga, acho que vou votar nela pelas ideias que apresenta para o país, os do costume, querida, estive a refletir e não me convenceram nada.

A ideia é originada no período pós-revolucionário, todos sabemos, e a campanha tem de acabar nalgum momento antes do voto, e não se queria chiqueiro nas urnas. Mas hoje o chiqueiro está nos bolsos, e a revolução já passou (algumas das mais jovens democracias europeias de noventa estão a deixar cair os períodos de reflexão). Jorge Miranda e Bacelar de Vasconcelos, dois constitucionalistas de reflexão cheia, já vieram decretar a falta de sentido do dia, e apontaram ainda a sua incoerência com o voto antecipado. Quero também aqui confessar que uma mistura de FOMO (fear of missing out), ansiedade, ser um apressadinho, gostar de experimentar tudo o que é novo, que tenho alguma inritação (inritação é a irritação invejosa) de nunca ter feito o voto antecipado. Por exemplo, se o tivesse feito já podia aqui dizer em quem tinha votado.

Nos EUA, o Supremo Tribunal no caso Burson vs. Freeman, 504 U.S. 191 (1992) não obstou a uma lei do Estado do Tennessee que proibia a campanha num raio de 30 metros dizendo que isso não violava a liberdade de expressão e que as pessoas tinham direito àqueles quinze segundos de descanso antes de votarem. Estes juízes viram bem a coisa, é delicioso decretar-se, por lei, reflexão. Que as famílias se amem, que as pessoas pensem, que ninguém chateie ninguém, que parem, até que se libertem do tempo, nem que seja por um dia, nem que seja por quinze segundos, uma vez por ano, mas se os governos caírem ou houver referendos. E há tanto tempo que não temos referendos, talvez um sobre se se deve acabar com o dia de reflexão.

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