Álvaro Cunhal, o "gigante" da história do PCP e figura "única" no comunismo

É consensual que o líder histórico comunista teve um papel determinante naquilo que o partido ainda hoje é. A sua dimensão política e a intelectual fizeram de Cunhal uma figura impar nos movimentos comunistas internacionais. No PCP é venerado, e mesmo os que entraram em confronto com ele dizem-no "brilhante".

No momento em que o PCP celebra 100 anos, "uma relíquia política", como diz Francisco Louçã, que mais nenhum outra força política portuguesa pode reivindicar, Álvaro Cunhal confunde-se com a história do partido, que liderou durante 31 anos. A que se somam muitos outros na clandestinidade e combate à ditadura, e mesmo os que se seguiram à passagem de testemunho a Carlos Carvalhas e em que o seu pensamento e a sua palavra eram determinantes. "Eram?" Há quem defenda que Cunhal ainda hoje é muito da alma do PCP.

"Álvaro Cunhal é o gigante da história do PCP, no seu labor político e ideológico", afirma Carlos Brito, camarada que com ele combateu a ditadura e com o qual entrou em divergência no início dos anos de 1990, quando seguiu o rumo dos renovadores fora do partido.

Carlos Brito, no alto dos seus 88 anos, admite que, em largos períodos, a história do PCP e a do secretário-geral, que teve o mandato mais longo nestes 100 anos de história, "se confundiram". "Não admira que esteja nas páginas mais brilhantes, mais inovadoras e mais mobilizadoras do partido", afirma. Recorda a "liderança de irrequietude tática", do homem com "sete fôlegos"como o caracteriza no livro que escreveu sobre Cunhal, que "estava permanentemente atento à conjuntura e à procura de saídas para ela". Como em pleno Verão Quente de 75, em que se demarcou do gonçalvismo e das forças mais à esquerda, com a célebre frase, no Comité Central em Alhandra, "não nos deixemos encostar à parede" e que permitiram ao PCP integrar-se no processo de democratização do país e procurar um entendimento com o PS de Mário Soares. "Foi uma viragem na linha política do partido", sublinha Carlos Brito.

"Não admira que esteja nas páginas mais brilhantes, mais inovadoras e mais mobilizadoras do partido. Tinha uma liderança de irrequietude tática"

E embora as "páginas brilhantes" sejam mais, Carlos Brito também encontrou em Cunhal "um lado de conservador, tacanho e sectário". Quando deixou a liderança para Carlos Carvalhas, em 1992, recorda, pensou um "figurino de órgãos do partido, em que presidia a um conselho nacional para continuar a controlar as decisões", afirma. Entre as quais a de perseguição às correntes críticas e renovadoras do partido . E "ainda em vida definiu a identidade do PCP", garante, ao estabelecer os princípios que nunca poderiam ser postos em causa, numa clara reafirmação da identidade ideológica, como a do marxismo-leninismo e a do centralismo democrático.

Hegemonia e convergências

Francisco Louçã vê em Cunhal, com quem se cruzou apenas duas vezes, "uma figura única", que influenciou várias gerações à esquerda. "Combinava a visão estratégica da luta pela hegemonia do PCP, num contexto de convergências", diz o antigo líder do Bloco de Esquerda, que recorda as "alianças" que o PCP fez com o MUD - Movimento de Unidade Democrática, a própria campanha do general Humberto Delgado e a CDE - Comissão Democrática Eleitoral, organizada para concorrer às eleições de 1969. Esta capacidade de fazer alianças estratégicas, no caso para derrubar o regime do Estado Novo, "foi das heranças mais importantes que deixou ao PCP", afirma Louçã.

"Cunhal era uma figura única, combinava a visão estratégica da luta pela hegemonia do PCP, num contexto de convergências."

Uma herança que viu personificada em Luís Sá, deputado do PCP que morreu aos 47 anos, e que tentou abrir espaço no partido para "essas pontes". "Acho que Luís Sá era um cunhalista", diz o antigo dirigente bloquista, e estabelece o paralelo com a atual liderança de Jerónimo de Sousa. "Pode-se dizer que essa posição [de criar pontes políticas] tem sido limitada por uma posição mais ortodoxa ao longo dos anos. Mas foram esses que acabaram por assinar o acordo", o que deu origem à geringonça e ao governo socialista. Parece uma contradição, mas "só a corrente mais identitária do partido é que poderia fazer isso para não gerar contestação interna".

"Foi rasgo à Cunhal", garante Carlos Brito, quando Jerónimo de Sousa, na noite das eleições de 2015, foi o primeiro a dizer que o PS só não seria governo se não quisesse, no prenúncio de um apoio parlamentar para uma maioria de esquerda. Mas depois "não houve Cunhal para aguentar isto". E que faria diferente o líder carismático do PCP? "Jerónimo devia ter lançado logo de imediato um debate interno para demonstrar que não estava a fazer um favor ao PS, mas aos trabalhadores martirizados pela troika." Não fez. "O declínio eleitoral do PCP, que se tem acentuado, explica-se muito por isto", remata o antigo líder parlamentar comunista.

O legado e as Coca-Colas

"Há um legado político que é óbvio. Ainda hoje, o programa do partido - Uma Democracia Avançada para o Limiar do século XXI - foi criado na fase final da sua liderança e tem muito do que Cunhal expôs, sobretudo no seu livro O Partido com Paredes de Vidro, que é feito na fase da perestroika", diz Pedro Tadeu.

O antigo diretor-adjunto do DN e comunista, que chegou a trabalhar de perto com o líder histórico do PCP, afirma que Cunhal antecipou a necessidade de renovação, sem trair os princípios básicos do partido.

O legado "emocional " também é muito importante na sua relação com o PCP, frisa Tadeu, em alusão à estatura intelectual e artística de Álvaro Cunhal, sobretudo na sua ligação ao movimento neorrealista. "A curiosidade intelectual deu-lhe estatura", ele que foi romancista e desenhador, entre outras facetas." "Ele criou uma relação muito emocional com o partido que faz que seja muito querido entre praticamente todos os militantes." Tadeu acrescenta que "o PCP pode orgulhar-se do líder que "pôs sempre o partido do lado da liberdade".

"Ele criou uma relação muito emocional com o partido que faz que seja muito querido entre todos os militantes. O PCP pode orgulhar-se do líder que pôs sempre o partido do lado da liberdade"

Pacheco Pereira, autor da mais pormenorizada biografia de Cunhal em vários volumes, disse em entrevista à Visão História: "Lia bastante e tinha interesses diversificados, artes, literatura, teatro, arquitetura, entre outros. Embora haja rigidez interpretativa , isso dá-lhe abertura ao mundo. É um erro considerá-lo um mero ortodoxo."

Este ponto Pedro Tadeu subscreve em pleno e conta dois episódios que "demonstram que não era sectário ao contrário do que muitos dizem". O primeiro foi quando o interpelou sobre o que pensava da série americana de animação Os Simpsons e obteve um "não gosto, são bonecos feios, representam a humanidade de uma forma tão feia". Tadeu argumentou e argumentou sobre a qualidade do guião e uma semana depois foi surpreendido: "Estive a ver e tens razão, aquilo é muito bom", atirou Cunhal.

Noutra ocasião, em que era jornalista do jornal oficial comunista O Avante!, apanhou o camarada funcionário do bar da Soeiro Pereira Gomes, sede do PCP, a encher um saco com seis latas de Coca-Cola e a entregá-lo ao secretário-geral. "Já estou mesmo a ver amanhã uma manchete a dizer: "Cunhal bebe a água suja do imperialismo." Não é para mim é para os meus netos", disse-lhe o líder comunista. "Tinha sentido de humor!", garante Pedro Tadeu.

Influência internacional

José Neves, historiador e investigador do Instituto de História contemporânea da Universidade Nova de Lisboa - coordenador e um dos autores da antologia de textos PCP 1921-2021, da Tinta da China, que sairá em breve para as bancas -, recorda a rutura de Cunhal com Júlio Fogaça, o dirigente comunista que em 1940 dirige um grupo que reorganiza o partido, e que durante a década de 50 defende a tese do derrube pacífico do regime ditatorial. Cunhal conseguiu impor-se, já depois da fuga da prisão de Peniche, e fazer vingar a ideia do derrube revolucionário do regime.

"Não podemos dizer que algo aconteceu agora por causa do legado de Cunhal, a liderança de Jerónimo de Sousa adquiriu uma autonomia surpreendente"

"A estratégia política do PCP até hoje é a ideia de que o país precisa de uma capacidade modernizadora económica e social que o Estado Novo, a burguesia portuguesa e a União Europeia não conseguiram". A missão do PCP é, diz o historiador, assegurar essa modernização e, simultaneamente, com um processo cada vez mais igualitário e socialista". Legado de Cunhal que, sublinha, ganhou também um peso determinante no movimento comunista internacional, fruto da sua ligação a Moscovo.

"Os soviéticos confiavam nele e davam-lhe informação sustentada e direta", corrobora Pacheco Pereira na Visão História.

Outro investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e especialista em história do PCP, João Madeira, também sublinha que Cunhal "foi um dirigente raro no movimento comunista internacional, porque reunia capacidades e sensibilidades que o tornavam único". Tal como a sua ligação a Moscovo lhe deu uma voz com muito peso junto dos outros partidos comunistas. O que o ajudou igualmente a ser um líder incontestado durante quase toda a sua longa liderança do PCP. "É um legado muito presente. Não direi que Cunhal está vivo, mas a sua presença sente-se muito no PCP", afirma João Madeira.

O historiador encontra essa presença, a uma grande distância da morte física do líder histórico do partido, nas próprias celebrações que o PCP faz da sua história, seja do centenário do nascimento do próprio Cunhal seja dos 100 anos de vida do partido. Há, diz, "uma densificação do património histórico", que o partido valoriza agora mais do que nunca.

João Madeira não tem dúvidas de que o PCP que emerge no pós-25 de Abril "é o partido de Cunhal", que tinha uma "superioridade intelectual" que o colocava a uma distancia enorme dos outros camaradas de partido. Basta ver que "ele dirige todo o processo de adequação, muito complexo, de um partido que sai da clandestinidade, pequeno e de quadros, muito formado na cultura do segredo, como não podia deixar de ser, e procede num curto prazo de tempo, a um partido de massas, sem perder o essencial do funcionamento anterior de um partido comunista".

"Foi um dirigente raro no movimento comunista internacional, porque reunia capacidades e sensibilidades que o tornavam único"

Sobre o peso que Cunhal ainda tem hoje na vida interna do PCP e até na liderança de Jerónimo de Sousa, José Neves diverge. "Não podemos dizer que algo aconteceu agora por causa do legado de Cunhal, a liderança de Jerónimo de Sousa adquiriu uma autonomia surpreendente e não há a figura de Cunhal a pairar", considera.

Esteja ou não a pairar na Soeiro Pereira Gomes, teve um papel determinante no PCP e na vida do país. Como disse Pacheco Pereira, "a melhor maneira de perceber o seu papel na sociedade é o funeral. Naquele tempo e na Europa, foi inédito. A crise do comunismo era evidente e, no entanto, centenas de milhares foram para a rua, e não só comunistas. Cunhal é visto como uma espécie de santo laico".

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