Quem quer mudar Santos-o-Velho?

Os moradores de Santos acabaram de descobrir que vivem numa zona de bares e que, imagine-se, há quem passe ali horas nos copos e nem tenha a decência de conversar em tom moderado e de assuntos sérios. Há quem queira então impor que bares e discotecas encerrem às 23h00, porque tamanha pouca-vergonha nunca se viu. Há quem ali more há 15 anos e diga que em momento algum se viu Santos como hoje.

O que é curioso, dado que quem passou os últimos 30 anos em Lisboa não pode deixar de recordar as corridas noturnas do Xafarix ao D&D, na D. Carlos I, da Kapital à Última Ceia, em quase toda a extensão da 24 de Julho. As passagens pelo Kremlin e pelo Plateau, nas Escadinhas da Praia, as paragens em todos os ex-bares que ladeavam A Barraca - quem não bebeu jelly shots sob o toldo vermelho do Porão? -, muitos deles agora feitos restaurantes numa rua que passou do caos de corpos, carros e copos para uma zona pedonal bastante civilizada. E ainda menos esquece a fiada de portas sucessivas em que música e clientes se misturavam, dos Marretas à Viúva, quase sem permitir passagem aos corajosos que tentavam conduzir pela Rua das Janelas Verdes depois do pôr-do-sol.

A coisa não é nova, não. Santos é um histórico bairro de copos. Até os roteiros da cidade o descrevem como tal! Acontece que a reabilitação das construções em precário estado de conservação que ali se iam aguentando há décadas trouxe novos proprietários e inquilinos, além das bonitas e sólidas fachadas. E, tal como aconteceu no Cais do Sodré, os moradores das novas casas acham uma maçada que ali subsistam negócios que lhes tiram o sono e o estacionamento. Mesmo que já lá estivessem muito antes de eles chegarem. Bons tempos eram aqueles em que os miúdos ficavam por casa e o bairro estava anestesiado por uma pandemia que destruiu dois anos de atividade neste setor...

Quando o Cais do Sodré se renovou e a Rua Cor-de-Rosa foi inaugurada, reabilitadas e recheadas de novo as construções da Rua Nova do Carvalho, a associação de (novos) moradores também se insurgiu contra as discotecas e bares que ali juntavam - como sempre - milhares de pessoas. Eram sobretudo universitários e estrangeiros "ruidosos", fazedores de má vizinhança, queixavam-se os que ali habitavam e que juravam que sentiam mesmo falta era dos marinheiros e das prostitutas que antes dominavam os arredores. Ao menos essas zaragatas eram familiares... e ainda que transpirassem, de facada e gritos, para a rua, muitas delas estavam mais ou menos confinadas aos quartos das pensões que encimavam os bares onde se faziam os engates.

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