Premium Apagando Woody Allen

Um amigo, o psiquiatra e professor Elie Cheniaux, mandou-me um cartão de feliz 2019 ilustrado por uma cena de Todos Dizem Eu Te Amo, a sublime comédia musical de Woody Allen, de 1996. Elie é coautor (com J. Landeira-Fernandez) de um livro surpreendente e terrível, Cinema e Loucura - Conhecendo os Transtornos Mentais através dos Filmes, de 2010. Woody é um de seus heróis, juntamente com, entre outros, Billy Wilder, Nelson Rodrigues, Freud, Van Gogh e Zico. Exceto, naturalmente, Freud, ninguém lhe deu tantos motivos para reflexão científica quanto os personagens de Woody.

Mas enviar, hoje, um cartão de boas-festas com uma imagem de Woody Allen passou a exigir certa coragem. Em 2018, a campanha nos Estados Unidos para destruí-lo como artista e como homem parece ter sido vitoriosa. Woody tem um filme pronto há um ano, A Rainy Day in New York, e sem previsão de lançamento porque a produtora, a Amazon, teme que um boicote decrete seu fracasso na bilheteria. A acusação de ter abusado de sua filha adotiva Dylan Farrow quando ela tinha 7 anos, iniciada meses depois do suposto facto por sua ex-mulher, Mia Farrow, e ultimamente martelada em todos os veículos pela própria Dylan, provocou um repúdio universal por ele. Essa acusação nunca foi provada, mas quem quer saber? Aos olhos de muita gente, Woody tornou-se um doente, um monstro, um criminoso.

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.