Pôr fim ao Chega não faz desaparecer quem vota Ventura

Proibir raramente é boa solução para mudar hábitos e convicções numa sociedade. Na maioria das vezes, fazê-lo à revelia da realidade tem um de dois efeitos: ou, apesar da regra, fica tudo na mesma (quantos fumadores conhece que tenham deixado de atirar a beata para o chão, não por consciência ou até vergonha social, mas pela ameaça de multa?), ou dá-se mais gás e mais vigor àqueles que se quer mudar à força.

Quando há dois meses Fernando Medina se lembrou de proclamar que o Chega devia ser ilegalizado, André Ventura respondeu: "Se o Chega for ilegalizado, os seus apoiantes, militantes e dirigentes continuarão a fazer a sua luta na clandestinidade." Com melhor memória e conhecimento da história e do papel do então ilegal PCP no fim do salazarismo, António Costa foi claro na defesa de que uma vitória na secretaria não é a solução mais eficaz. "Devemos é procurar entender quais são os fenómenos e as causas sociais que têm gerado um clima que leva muitas pessoas a entender que é no Chega que têm a resposta aos seus problemas", sublinhou há dias o primeiro-ministro.

O diagnóstico não é difícil de se fazer, quando vivemos uma pandemia que tanto tem roubado aos portugueses, sendo particularmente cruel para com aqueles que pior vivem - do salário à possibilidade de ir beber um café à esquina, do emprego à educação dos filhos, da saúde à própria liberdade. E se a emergência do momento não é simples de explicar a quem vê desaparecer o pouco que foi conquistando, bem mais difícil será quando a covid sair de cena, deixando atrás de si um rasto de destruição de que levaremos muitos anos a recuperar.

Menos de 45 mil votos separam o resultado de Ana Gomes daquele que foi conquistado por André Ventura nas presidenciais. É praticamente meio milhão de portugueses a votar no candidato que lidera o Chega. À semelhança do que outros tentaram antes - aparentemente apenas conseguindo reforçar o número de apoiantes de Ventura -, a ex-diplomata pretende que se acabe com o partido na secretaria. O que recomendará Ana Gomes que se faça aos eleitores que votam Ventura?

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