Irão: o dia seguinte

Em 2018, Mohsen Fakhrizadeh tornou-se conhecido quando Benjamin Netanyahu o acusou de ser o cientista à cabeça do programa nuclear iraniano. Fakhrizadeh foi assassinado nos arredores de Teerão há uma semana. Existem narrativas contraditórias sobre o desenrolar do crime. O certo é que a emboscada foi executada por um número razoável de agentes, uma boa dezena pelo menos, e de um modo profissional - a esposa, que viajava com ele, saiu ilesa, não fazia parte do objetivo.

Não tenho dúvidas de que foi efetuada por forças especiais, com executantes perfeitamente treinados, que tinham à sua disposição as informações, a logística e os meios necessários para uma missão de alto risco. É pacífico concluir que não terá sido obra da oposição interna. Teve todas as características de uma operação planeada, organizada e levada a cabo por um Estado hostil ao Irão. E não posso deixar de pensar nos três principais inimigos do regime: a Arábia Saudita, Israel e os Estados Unidos de Donald Trump.

Quem sabe destas coisas aponta no sentido de Israel. É verdade que os serviços secretos desse país, nomeadamente a afamada Mossad, já demonstraram ter uma capacidade de penetração nos círculos oficiais iranianos incomparavelmente superior às de qualquer outro Estado. Veja-se um exemplo dessa capacidade, com julgamento dos inculpados a decorrer atualmente em Antuérpia. Foi a Mossad que fez conhecer às autoridades belgas o atentado que o Governo iraniano estaria a maquinar em 2018 contra o Conselho Nacional da Resistência Iraniana no exílio. Os serviços de inteligência europeus onde a trama se preparava - os belgas, franceses e austríacos - não se haviam apercebido de nada.

Israel nunca poderá admitir uma mínima ponta de responsabilidade por assassinatos deste género. Essa admissão abriria a porta a um processo de acusação no Tribunal Internacional de Justiça da Haia ou numa jurisdição de um país membro das Nações Unidas. A lei internacional é clara. Uma execução extraterritorial, sumária e arbitrária, promovida por um Estado fora de uma situação de conflito armado e à revelia de uma decisão tomada por um tribunal competente, é um crime que viola a lei internacional sobre os direitos humanos e as Convenções de Genebra de 1949 e os Protocolos Adicionais de 1977. Mais ainda, a Carta das Nações Unidas proíbe expressamente o uso extraterritorial da força em tempos de paz.

Por tudo isso, a paternidade do que aconteceu agora a Fakhrizadeh ficará para já incógnita. Restar-nos-ão, apenas, as suspeitas.

O assassinato mostrou que o sistema iraniano de espionagem interna, que aterroriza a população, tem falhas muito sérias. O poderoso Ministério da Inteligência está mais preocupado com a repressão da crescente oposição interna do que preparado para identificar as ameaças mais sofisticadas vindas do exterior. Esta constatação não é nova. Em inícios de julho, por exemplo, os serviços de segurança não conseguiram impedir uma explosão, com origem externa, na central nuclear de Natanz, nem souberam evitar a sabotagem de programas de fabricação de mísseis.

Uma questão fundamental é a de tentar perceber o motivo central do assassinato. Aquele que parece mais óbvio, que seria o de desferir um golpe importante capaz de atrasar ainda mais o programa nuclear do regime, não faz sentido. O país já conta com várias equipas de cientistas capazes de proceder ao enriquecimento do urânio. O ataque contra Natanz e as sabotagens, esses, sim, atrasaram os planos. O verdadeiro motivo terá de ser outro.

Se olharmos para montante, veremos que o Governo de Israel está à beira do colapso e que Netanyahu vai precisar outra vez de argumentos de campanha convincentes. A presunção de uma mão forte contra os aiatolas dará certamente votos. Olhando mais longe, constatamos que a nova administração Biden é favorável à reabertura de um processo negocial com Teerão. Isso ficaria mais difícil se os clérigos respondessem ao que aconteceu a Fakhrizadeh de modo intempestivo. Os velhos dirigentes do Irão são fanáticos e retrógrados, mas são astutos em matéria de política internacional. Devem olhar para o assassinato como uma tentativa de provocação política. E saberão que a espera paciente pela entrada em funções de Joe Biden poderá ser a melhor resposta ao repto que lhes lançaram há dias.


Conselheiro em segurança internacional. Ex-representante especial da ONU

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