O último meias-solas da Rua dos Correeiros e o fogo que o deixou sem trabalho

35 anos num vão de escada da Baixa a consertar sapatos e agora o quê? Vítor Teles não tem como pagar os preços que se pedem na zona nem outro modo de vida agora que o prédio onde trabalhava ardeu. Fábula da perda de uma cidade e das suas profissões em extinção.

Telefonam-me a perguntar o que é feito de mim, onde estou a trabalhar. Há muita gente à minha procura." Vítor Manuel Sequeira Teles, 58 anos, mantém a voz serena, paciente, com que durante décadas aceitava o trabalho na sua oficina de sapateiro numa entrada de prédio da Baixa, os olhos escuros, sérios, a tomar nota das características e pedidos - "Não se vai esquecer, veja lá"; "Não, não me esqueço" -, a memória, sem talões nem agendas, a determinar, sem perguntas, quais os sapatos de cada cliente. Desde que, devido ao fogo que lavrou no edifício, se viu obrigado a fechar, está "de férias forçadas mas a cabeça não descansa. Já fui à câmara ver se arranjam um sítio para trabalhar, porque com as lojas para turistas as rendas são astronómicas, milhares de euros, não tenho hipótese. Tinha uma renda barata ali na Rua dos Correeiros, mesmo não ganhando muito dava para viver".

Rua dos Correeiros. O nome diz da vocação: era a dos comerciantes e artesãos de correias, couros. O último armazém da especialidade, o Riobom, com os seus perfumados rolos de peles de todas as cores e mil ferragens para malas e cintos, fechou no ano passado quando o prédio entrou em obras totais. Desapareceu como os ateliês de cintos, carteiras e luvas que, até há uns quinze ou vinte anos, se encontravam nos prédios desta e outras ruas da Baixa.

Como foram desaparecendo os sapateiros (ou sapateiras) que ocupavam as entradas dos prédios, ferramentas, materiais e os sapatos para arranjo espalhados no chão, os dedos sujos de cola, graxa, tinta, a bata ou o avental um Pollock. Um dia passávamos e já não estavam: o da Rua da Prata, o da Rua da Conceição, o da Rua da Vitória, o da Rua da Assunção.

Pela idade, pela falta de clientes, pela procura crescente desses espaços para venda de souvenirs a turistas, pela reabilitação dos edifícios - tantos motivos. Demasiado novo para a reforma e sempre com muito trabalho, mesmo se afiança que nos últimos dois ou três anos estava em queda, Vítor foi ficando. E descobriu-se o último, exposto, na penumbra de um rés-do-chão pombalino, bata azul em pandã com as cores do chão de mosaico hidráulico, ao interesse e à necessidade dos passantes, a fotos de turistas encantados com o típico.

"Despejo imediato e temporário"

Estava longe de ser um postal, porém. Os e as clientes - não tem ideia de quantos são - partilhavam-no como um segredo precioso: ali, entre as esplanadas dos restaurantes O Tripeiro e O Portas, havia um artífice para o qual nenhuma reparação ou alteração era demasiado complicada. Não se limitava a pôr capas em saltos, ou poupa-solas (o revestimento de borracha que se apõe na sola de cabedal, para que não se gaste e para o calçado ser menos escorregadio), ou meias-solas; forrava sapatos, colocava palmilhas, cosia presilhas, pintava. Um artesão sério, empenhado e que nunca dizia não a ideias mirabolantes.

Foi para fresador mecânico que fez formação, mas à saída da tropa, ante a morte do pai sapateiro, acabou por tomar-lhe conta da oficina.

Ninguém suspeitaria o seu sonho de profissão ter sido a metalurgia. Foi para fresador mecânico, espécie de torneiro, que fez formação, mas à saída da tropa, ante a morte do pai sapateiro, acabou por tomar-lhe conta da oficina, e entregar-se ao ofício que aprendera desde os 13 e que já fora do avô. "Vim para aqui provisoriamente e acabei por ficar." Se gosto? Repete a pergunta, como se não fizesse sentido. "Já não há gostos. É um modo de vida. Mas uma pessoa tem de fazer as coisas com gosto, senão não sai nada de jeito."

E fez, e ficou. 35 anos até ao dia 20 de julho, quando a dona do restaurante O Portas, Helena Gonçalves, lhe ligou com a notícia de que parte do 68 da Rua dos Correeiros tinha ardido durante a noite. Morreram duas pessoas, dois ocupantes do sexto andar, no qual, diz Vítor, se arrendavam quartos. "Um deles conhecia há muito tempo, vendia cautelas na rua. O outro estava cá há 15 dias." Não sabe os nomes. Com os motivos do incêndio sob investigação da Policia Judiciária, o prédio foi selado pela Proteção Civil: ninguém pode entrar sem autorização. Vítor já lá foi buscar calçado para entregar aos donos, tem ainda lá "200 ou 300 euros em material, não se estragou nada", mas não vê que possa voltar a trabalhar ali tão cedo - talvez nunca.

Sem telhado, muito danificado pela água usada para apagar o incêndio e com a escada em risco de ruir, é considerado perigoso. Na quinta-feira 2 de agosto, os inquilinos, incluindo Vítor, receberam uma notificação de "despejo imediato e temporário", certificando que a proprietária do edifício terá de, nos cinco dias seguintes à receção, responder à ordem de obras urgentes - colocação de uma cobertura provisória, a reparação de janelas e a retirada de lixo e entulho - e proceder a elas no prazo de 45 dias.

"A Baixa é a minha aldeia"

A proprietária de O Portas, com 13 empregados "em casa à espera a receber ordenado" e a casa fechada naquela que é a época alta da restauração da Baixa, suspira. "Estou a perder bastante dinheiro, claro. Falei com a senhoria logo após o fogo. Vim para aqui mal soube, pelas duas e tal da manhã, e liguei-lhe seriam umas cinco, seis lá em Espanha. Ela sabe o que se passa e disse-nos que ia fazer obras, mas até agora nada." Não sabe se a senhoria, residente em Vigo, tem seguro - em princípio terá, já que é obrigatório - e se o acionou. "É uma senhora de uns 50 e muitos, 60, muito educada e bem-posta. A mãe, que é a dona, já é muito idosa. É a filha que tem tratado das coisas."

Vítor Teles só conheceu esta senhoria nos 35 anos que leva de inquilinato, e a locatária do terceiro andar, Maria Duarte Alvarez, hoje com 84 anos, que ali viveu com os pais e as quatro irmãs desde 1951, também só conheceu proprietários galegos. "O meu pai era chefe de mesa num hotel da Baixa, o Hotel das Nações, na Rua da Vitória, a minha mãe doméstica", conta Anabela Alvarez, um das irmãs da inquilina do terceiro. "Nasci ali, a Baixa é a minha aldeia. A minha irmã Maria, como nunca se casou, foi a única que não saiu de lá." Instalada em casa da irmã Isabel, na Amadora, a inquilina não chega a falar com o DN. "Está um bocado deprimida com isto", comenta Isabel. "Quer é voltar para a casa dela. Gostava de fazer a voltinha dela de manhã, ir às compras, passear." Quanto paga de renda, a irmã não sabe precisar. Mas tem a certeza de que "não é alta, nunca foi aumentada".

Ao telefone, a filha da dona também não fala de valores. Nem sequer quer dizer há quanto tempo o prédio está na família, ou se a família é ou não galega. Garante que não recebeu qualquer notificação e que deu conta das intenções aos inquilinos, sendo este, acha, um assunto para manter entre ela e eles. Se vai fazer obras num edifício cujas rendas talvez nem cubram os gastos com o imposto municipal sobre imóveis, quanto mais uma renovação - Vítor, por exemplo, paga vinte e tal euros por mês -, ou se tenciona vender agora que o metro quadrado na zona disparou para valores nunca imaginados e um prédio como o seu vale milhões, não diz. Mas o sapateiro tem poucas dúvidas: "Ela já tinha sido intimada pela câmara para fazer obras e não fez. Aquilo é tudo rendas baixas. Quer é ver-se livre de nós para vender."

Há uma semana ou duas, Miguel Guedes de Sousa, CEO da Amorim Luxury, asseverava que "não podemos ter classe média e média baixa a viver em prédios classificados de Lisboa". A maioria desconhece - e dir-se-ia que também os próprios poderes públicos, de tal modo têm permitido subvertê-la - mas toda a Baixa Pombalina é um conjunto classificado desde 1978. Concebida como zona comercial, artesanal e habitacional - como era suposto ser uma cidade -, manteve até hoje, apesar das profundas alterações, essa mistura. A de um bairro onde vivia gente, onde trabalhava gente e onde se comerciava; onde havia quase tudo o que se podia comprar e mandar fazer.

Mas talvez seja saudosismo e miserabilismo querer que haja lugar para os sapateiros nas ruas fechadas ao trânsito para se andar a pé. Ou que as profissões artesanais não sejam obrigadas a morrer porque um vão de escada se arrenda por 1500 euros. É o mercado, certo? Oferta e procura, etc.

"A minha mãe era costureira externa no Casão Militar, a minha irmã é empregada de balcão numa retrosaria, eu sou sapateiro. Tudo coisas que têm tendência a desaparecer."

No tom de quem olha para as coisas com a minúcia pacata, honesta, que permite perceber se vale a pena investir num arranjo ou deitar fora, o sapateiro Vítor Teles não parece muito esperançado. "A minha mãe era costureira externa no Casão Militar, a minha irmã é empregada de balcão numa retrosaria, eu sou sapateiro. Tudo coisas que têm tendência a desaparecer. Felizmente vivo na casa que era dos meus pais e não tenho ninguém a cargo. Tenho um pequeno pé-de-meia, a ver quanto tempo me aguento. Vou tentar inscrever-me no fundo de desemprego - e ver se arranjo alguma coisa, se não puder continuar a trabalhar no meu ofício. Mas com esta idade já não é fácil."

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