Continuamos

Por estar de férias, acompanhei à distância o que se passou na última semana com o meu partido. O Ricardo Robles errou e o Bloco errou também na sua análise. Errámos. Os nossos adversários são-no pelas escolhas políticas que fazem, e não pelas suas opções de vida privada.

A política de casos tem sido a política da direita. Neste caso concreto não podemos ignorar, contudo, que a crítica alastrou à esquerda, incluindo simpatizantes do Bloco, e isso só pode dar origem a uma reflexão profunda. Se a imagem de superioridade moral se colou ao Bloco, então algo tem de ser melhorado. Por que razão é que isto é relevante para o debate? Porque assistimos a um ataque baseado no moralismo e ancorado numa agenda política cheia de deturpações.

Da superioridade moral. A direita chama moralismo a qualquer tentativa de regular a atividade económica: defender a regulação da economia significaria ser contra a economia. Nada mais falso.

Um bom exemplo disso é a atividade turística. Regulação não é sinónimo de destruição, é sinónimo de serviços de qualidade e inseridos na economia real e que respeitem os direitos das pessoas - moradores, turistas, trabalhadores, empresários. A direita acusa o Bloco de superioridade moral, mas, paradoxalmente, exige-a.

Seguindo o mesmo raciocínio absurdo, seria como argumentar que, pelo facto de a direita defender um Estado mínimo e a privatização dos serviços públicos, as pessoas de direita não poderiam beneficiar do Serviço Nacional de Saúde ou da escola pública.

Da deturpação. Trazer a lume a questão do alojamento local da Catarina Martins no Sabugal é um bom exemplo. Neste caso, de dupla deturpação: nem o Bloco é contra o alojamento local e o seu papel no desenvolvimento, o que defende é a sua regulação, nem as questões de alojamento local no Sabugal ou em Lisboa podem ser tratadas da mesma maneira.

O Presidente da República poderia ter contribuído para evitar deturpações. Escolheu não o fazer, ao dizer no sábado que desconhecia a existência de um projeto sobre a lei de preferência dos inquilinos que anunciava vetar 48 horas depois. Fica mais claro o que está em causa: são os interesses afetados por qualquer tentativa de regulação - é a política, portanto.

A demissão de Ricardo Robles cria um precedente na vida política portuguesa. Nunca um eleito se demitiu por contradições entre a sua vida privada e o que defende publicamente, ainda que da sua atuação não tenha resultado qualquer despejo, nem qualquer ilegalidade ou benefício com o exercício do cargo.

O escrutínio dos detentores de cargos políticos é imprescindível em democracia e nenhum partido deve estar imune a ele. O jornalismo é precioso nesse trabalho e eu não questiono o que é feito sobre o desempenho das funções de Ricardo Robles, das minhas ou de qualquer outro eleito. É porque esse escrutínio é tão importante para a nossa vida coletiva que é particularmente grave ver o debate público instrumentalizado por interesses económicos e por agendas políticas particulares.

No fundo, esta enorme ofensiva contra o Bloco aproveita os nossos erros, mas não se deve a eles - deve-se às políticas que temos defendido. Continuamos.

Marisa Matias

Eurodeputada do BE

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