Premium Verão confirma recorde de doentes enviados para o privado

Em julho e agosto bateram-se recordes na emissão de vales-cirurgia, adianta a Associação de Hospitalização Privada. Dados de duas unidades privadas, de Lisboa e Porto, servem de exemplo: até ao final de julho realizaram mais operações ao abrigo do Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia do que em todo o ano passado.

Os hospitais do Serviço Nacional de Saúde nunca enviaram tantos doentes para ser operados no privado como em 2018. Se os primeiros meses do ano já tinham mostrado um aumento dos vales-cirurgia em relação a 2017, ano em que esse número já tinha crescido muito, a Associação Portuguesa de Hospitalização Privada garante que o verão não fez travar a tendência, bem pelo contrário: em julho e agosto bateram-se recordes nesta área, adianta ao DN o presidente da APHP. Ideia confirmada pelos dados de duas unidades privadas, de Lisboa e Porto, que até ao final de julho realizaram mais operações ao abrigo do Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia do que em todo o ano passado.

Num dos casos, essa parcela quase que duplicou - passou de 252 em todo o ano de 2017, para 487 em apenas sete meses. No outro, passou de 414 nos doze meses do ano passado, para 654 até ao fim de julho deste ano. "São dois exemplos que mostram esse grande crescimento, que começou a notar-se já no final de 2017 e que se manteve nos meses de verão." Óscar Gaspar, que já foi secretário de Estado da Saúde e agora lidera a Associação de Hospitalização Privada, acredita que estes pedidos recebidos em unidades das duas principais cidades portuguesas possam servir de referência para o que se passa no resto do país, embora não tenha dados dos vales-cirurgia emitidos nos primeiros sete meses do ano para todas as regiões. Mas ainda ontem o Jornal de Notícias relatou que o número de cheques-cirurgia no Hospital de Braga disparou 793%, com 1438 vales emitidos no primeiro semestre, sinal de que esta é uma tendência que estará longe de se centrar apenas em Lisboa e Porto.

Desde o início do ano, os tempos de espera para uma cirurgia considerada normal passaram de nove para seis meses.

Isso mesmo é admitido por Ricardo Mestre, vogal do conselho diretivo da Administração Central do Sistema de Saúde, que lembra que com a publicação, no ano passado, do despacho que aperta os prazos para realização de cirurgias "é natural que haja de facto, nesta primeira fase, um aumento dos vales emitidos, em especial para as pessoas que já estavam há mais tempo nas listas". Desde o início do ano, os tempos de espera para uma cirurgia considerada normal passaram de nove para seis meses, e quando 75% do prazo é atingido o sistema emite automaticamente um vale para que o doente possa ser operado numa unidade com protocolo com o Serviço Nacional de Saúde.

É natural que haja de facto, nesta primeira fase, um aumento dos vales emitidos, em especial para as pessoas que já estavam há mais tempo nas listas.

Óscar Gaspar também não tem dúvidas de que essa é a principal razão para esta subida exponencial, afastando um cenário de falta de resposta dos hospitais públicos provocada por escassez de especialistas e pela saída de enfermeiros para os centros de saúde, a que se juntou em julho a entrada em vigor da lei das 35 horas para todos contratos individuais de trabalho. "Poderíamos pensar isso se fosse um fenómeno notado a partir de abril/maio, mas não, sentimos desde o início do ano, não me parece que haja falta de resposta."

Pressão nas contas? "Têm de ajustar a resposta"

A redução dos tempos de espera e a emissão de mais vales traduzem-se em boas notícias para os utentes em termos de acesso à saúde, mas aos hospitais públicos colocam também uma maior pressão em termos de produção, caso não queiram ver a sua despesa agravada. Isto porque são as unidades que emitem os cheques-cirurgia que têm de assegurar os custos do processo. "O objetivo é que os hospitais consigam ajustar a sua resposta", responde Ricardo Mestre, quando confrontado com a hipótese de a grande subida de envios para o privado colocar em causa as contas dos hospitais neste ano. "Além disso, a experiência mostra que só cerca de 20% dos utentes optam de facto por usar os vales."

O número de vales de cirurgia emitidos pelo SNS aumentou 76% em 2017, segundo dados divulgados em junho no Relatório sobre o Acesso a Cuidados de Saúde. No ano passado, os hospitais públicos, incluindo PPP, aumentaram o número de cirurgias realizadas em 2%, enquanto nos hospitais convencionados elas cresceram 52%. Passaram de pouco mais de 16 mil cirurgias para perto de 25 mil.

Como usar um vale-cirurgia

O que é um vale-cirurgia?
O vale-cirurgia permite ao doente fazer a operação noutro hospital, que pode escolher entre os que lhe forem indicados nesses impressos.

Quando são emitidos esses vales?
A lei define o tempo máximo que o hospital tem para operar o utente. Quando esse prazo está a terminar o doente tem direito a ir fazer a sua operação noutro hospital, e caso tenha recebido um vale-cirurgia pode escolher entre hospitais públicos, privados e sociais incluídos na lista.

O doente tem de pagar mais por fazer a operação noutro hospital?
A cirurgia terá os mesmos custos como se fosse feita no hospital onde o doente foi inscrito para ser operado. O hospital de destino só vai cobrar as taxas moderadoras, isto no caso de não ser um utente isento.

E quem paga as deslocações?
O utente só tem de assegurar o transporte se escolher um hospital privado que não esteja na lista do vale-cirurgia e, ainda, se nessa lista existirem hospitais adequados na sua área de residência e escolher um hospital fora dessa zona. De resto, o hospital onde o utente foi inicialmente inscrito para cirurgia é responsável pelo seu transporte ao hospital de destino e respetivo retorno durante o processo de preparação da cirurgia, até três deslocações. Já o hospital onde vai fazer a operação é responsável por transportar o doente, de acordo com a sua condição clínica, depois da cirurgia, e se for preciso.

O que acontece se recusar o vale?
Quando o utente justifica a recusa, volta para a lista de espera, na mesma posição.

Ler mais

Premium

Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.