Premium O regresso ao desconhecido

O descalabro económico e a rutura da paz social na Venezuela - que nos impressiona ainda mais porque o carácter quase exemplar daquele país, sobretudo no quadro sempre adiado da América Latina, não vem da era dos nossos pais ou antepassados, antes se constitui como uma memória própria - ameaçam tocar-nos mais de perto do que parecia lógico e possível. O êxodo começou há algum tempo e a comunidade portuguesa, que inclui os lusodescendentes, não pode escapar-lhe. Começamos a ouvir falar em "planos de contingência" que alguns, em nome uma oportunidade (ou oportunismo?) para angariar dividendos políticos, reclamam ver revelada publicamente, sem se darem ao trabalho de pensar que, em matérias de salvação e de resgate, vale mais ser discreto e eficaz. De qualquer forma, e embora deva sempre falar mais alto o valor da vida (e, se possível, da qualidade de vida), os números impressionam: 400 mil cidadãos nacionais, estimativa que triplica se entrarem na estatística filhos e netos daqueles que decidiram emigrar. Por aquelas paragens, depois do Brasil, foi precisamente na Venezuela, com quase 32 milhões de habitantes até há dois anos, que mais portugueses se fiaram.

A dimensão do problema não tarda a remeter-nos para o que vivemos há pouco mais de quatro décadas, quando assistimos ao "regresso" de um milhão de pessoas que vivia por África, sobretudo em Angola e em Moçambique. Muitos deles eram mais refugiados do que "retornados", até porque, para um largo quinhão, poucas ou nenhumas memórias e vivências se guardavam do retângulo à beira-mar plantado onde, quase de repente, muita gente se viu forçada a um recomeço ingrato. Não se pretende aqui rediscutir a questão da descolonização, da sua forma e do seu alcance, até porque o tempo - muito sábio na prática da "medicina natural e curativa" - se encarregou de ir cicatrizando feridas e despeitos. Mas, fruto de uma juventude ativa, recordo-me bem de testemunhar a chegada de homens de olhar perdido, de mulheres e crianças assustadas ou desesperadas, de famílias em aflição, que se interrogavam quanto aos horizontes que, daí em diante, as aguardavam.

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Patrícia Viegas

Espanha e os fantasmas da Guerra Civil

Em 2011, fazendo a cobertura das legislativas que deram ao PP de Mariano Rajoy uma maioria absoluta histórica, notei que quando perguntava a algumas pessoas do PP o que achavam do PSOE, e vice-versa, elas respondiam, referindo-se aos outros, não como socialistas ou populares, não como de esquerda ou de direita, mas como los rojos e los franquistas. E o ressentimento com que o diziam mostrava que havia algo mais em causa do que as questões quentes da atualidade (a crise económica e financeira estava no seu auge e a explosão da bolha imobiliária teve um impacto considerável). Uma questão de gerações mais velhas, com os fantasmas da Guerra Civil espanhola ainda presente, pensei.