Premium O regresso ao desconhecido

O descalabro económico e a rutura da paz social na Venezuela - que nos impressiona ainda mais porque o carácter quase exemplar daquele país, sobretudo no quadro sempre adiado da América Latina, não vem da era dos nossos pais ou antepassados, antes se constitui como uma memória própria - ameaçam tocar-nos mais de perto do que parecia lógico e possível. O êxodo começou há algum tempo e a comunidade portuguesa, que inclui os lusodescendentes, não pode escapar-lhe. Começamos a ouvir falar em "planos de contingência" que alguns, em nome uma oportunidade (ou oportunismo?) para angariar dividendos políticos, reclamam ver revelada publicamente, sem se darem ao trabalho de pensar que, em matérias de salvação e de resgate, vale mais ser discreto e eficaz. De qualquer forma, e embora deva sempre falar mais alto o valor da vida (e, se possível, da qualidade de vida), os números impressionam: 400 mil cidadãos nacionais, estimativa que triplica se entrarem na estatística filhos e netos daqueles que decidiram emigrar. Por aquelas paragens, depois do Brasil, foi precisamente na Venezuela, com quase 32 milhões de habitantes até há dois anos, que mais portugueses se fiaram.

A dimensão do problema não tarda a remeter-nos para o que vivemos há pouco mais de quatro décadas, quando assistimos ao "regresso" de um milhão de pessoas que vivia por África, sobretudo em Angola e em Moçambique. Muitos deles eram mais refugiados do que "retornados", até porque, para um largo quinhão, poucas ou nenhumas memórias e vivências se guardavam do retângulo à beira-mar plantado onde, quase de repente, muita gente se viu forçada a um recomeço ingrato. Não se pretende aqui rediscutir a questão da descolonização, da sua forma e do seu alcance, até porque o tempo - muito sábio na prática da "medicina natural e curativa" - se encarregou de ir cicatrizando feridas e despeitos. Mas, fruto de uma juventude ativa, recordo-me bem de testemunhar a chegada de homens de olhar perdido, de mulheres e crianças assustadas ou desesperadas, de famílias em aflição, que se interrogavam quanto aos horizontes que, daí em diante, as aguardavam.

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É muito irónico Plácido Domingo já não cantar a 6 de setembro na Ópera de São Francisco. Nove mulheres, todas adultas, todas livres, acusaram-no agora de assédios antigos, quando já elas eram todas maiores e livres. Não houve nenhuma acusação, nem judicial nem policial, só uma afirmação em tom de denúncia. O tenor lançou-lhes o seu maior charme, a voz, acrescida de ter acontecido quando ele era mais magro e ter menos cãs na barba - só isso, e que já é muito (e digo de longe, ouvido e visto da plateia) -, lançou, foi aceite por umas senhoras, recusado por outras, mas agora com todas a revelar ter havido em cada caso uma pressão por parte dele. O âmago do assunto é no fundo uma das constantes, a maior delas, daquilo que as óperas falam: o amor (em todas as suas vertentes).

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