Eslováquia. Um chão português

Mala de viagem (58). Um retrato muito pessoal da Eslováquia

Da capital da Áustria é simples ir à capital da Eslováquia. A distância é curta, 80 quilómetros, o que permite ir e voltar no mesmo dia. A 4 de julho de 2015, em Viena, tomei o comboio. Ao chegar, reparei que a estação de Bratislava parecia a de uma cidade de província em Portugal. Logo percebi que estava num outro mundo distinto do de Viena. Na plataforma da estação, pedi para me fotografarem, tendo como fundo o nome da cidade. Há quem diga que fiquei com um olhar triste. Apesar de já estar há alguns dias na esplendorosa Viena, os olhos não se afastavam do acontecimento de semanas antes da partida. Esse dia em Bratislava foi essencialmente percorrido no exterior. Calcorreando-a, verifiquei que a cidade é diversificada, própria da influência de diferentes culturas ao longo dos séculos. A hora propiciava o almoço num dos restaurantes típicos. Depois do almoço, subi ao castelo branco, de onde se tem a melhor vista. Senti que estava numa cidade amigável. Ao passar pelo Teatro Nacional, pisei um extenso tapete de empedrado artístico português. Fazia crer que esta arte se tivesse espalhado pelo mundo e merecesse o reconhecimento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Foi uma surpresa, pois este empedrado não estava sinalizado na lista de exemplares fora de Portugal. O que tem sido inventariado está no Brasil, Cabo Verde, Angola, Moçambique, Índia e Timor, ou mesmo em Espanha e nos Estados Unidos da América. Na parte mais velha da cidade, o Portão de São Miguel é a entrada para os bairros antigos. Na época medieval, a cidade era fortificada e tinha quatro portões que permitiam o acesso. O Portão de São Miguel é o único remanescente e inclui uma grande torre. Junto a essa entrada, um rosto eslavo fotografava pormenores. Acerquei-me e meti conversa. Ela era dali, nascida e criada na cidade, e ao final da tarde dedicava-se a recolher esses pequenos apontamentos. Eu diria que o pormenor do improvável é o acaso. Aquele encontro fortuito permitiu-me confirmar que há quem queira conhecer a sua cidade, infinitamente. Para bem conhecer, será necessário descer ao pormenor com os olhos; afinal, talvez estivessem neles as águas inspiradoras do rio: "Bratislava/ Correm as águas entre cada margem,/ correm balsas, turistas com paragem,/ no rio. - Oh, és sonho de te encontrar!/ Correm os azuis da cor dos teus olhos,/ correm vidas no corpo dos teus folhos,/ no rio. - Oh, és desejo do teu mar!/ Correm perfeitos amores platónicos,/ correm musas de poemas sinfónicos,/ no rio. - Oh, és cidade que nos lava!/ Correm espantos pelo alvo castelo,/ correm olhos pelo rosto mais belo,/ no rio. - Oh, és poema, Bratislava!"

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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