CDS joga tudo nas regionais dos Açores pressionado à direita

O partido encontra-se numa encruzilhada e só sairá dela se tiver bons resultados eleitorais. A nova direção tem os críticos internos à espreita.

"Tem de ser um momento de viragem." É assim que uma fonte da direção do CDS se refere às eleições regionais de 25 de outubro e depois de as sondagens mais recentes apontarem para um partido à beira do precipício com a percentagem mais baixa de sempre. De tal forma que fez tocar as sirenes, sobretudo entre os setores mais críticos do sucessor de Assunção Cristas, ou seja, os portistas (Paulo Portas) que estão em pousio, ou talvez não tanto, no partido.

O líder centrista tem tentado passar ao largo das críticas, mas ainda respondeu a António Pires de Lima, que num artigo publicado no Expresso dizia que "o partido estava reduzido "a um homem só". "Tentativas públicas para desestabilizar o CDS", ripostou Francisco Rodrigues dos Santos.

O seu foco está precisamente nas eleições na região autónoma. Em setembro, andou a bater o terreno, ao lado do cabeça-de-lista Artur Lima, líder regional nos Açores e vice-presidente do CDS. E nestas semanas irá intensificar a presença no terreno. Fonte da direção garante ao DN que há confiança de que será possível reforçar a votação nas ilhas ou pelo menos manter a das últimas de 2016, em que o CDS conseguiu 7,16% e quatro mandatos na Assembleia Legislativa Regional. "Estou convencido de que vamos consolidar", diz um dirigente centrista.

Um bom resultado nas eleições regionais é muito importante para dar fôlego às autárquicas de 2021 e servirem de alavanca para a negociação que já começou com o PSD ao nível das estruturas locais dos dois partidos. As cúpulas só começarão a negociar no final deste mês e tudo indica, segundo uma fonte centrista, que venha ser estabelecido um "acordo-chapéu" que permita ampliar as 19 coligações que PSD e CDS já tiveram nas anteriores autárquicas de 2017.

Tal como o DN escreveu, o PSD de Rui Rio preferia um acordo em que os dois partidos fossem coligados em Lisboa e no Porto, o que implicava que os centristas não renovassem o apoio a Rui Moreira. "Isso é impossível porque já temos muitas pessoas nas estruturas da autarquia", garante a mesma fonte. Ou seja, o Porto deverá sair do baralho de um futuro acordo autárquico.

"Eles [PSD] sabem que também precisam de nós, o CDS faz diferença nalgumas câmaras", insiste a fonte da direção centrista.

Mensagem não passa

Os resultados eleitorais vão ser determinantes para apaziguar o CDS ou para o agitar, sendo certo que o partido já saiu das legislativas de 2019 maltratado, com apenas 4% dos votos e cinco mandatos. O passivo do partido também ascende a um milhão e duzentos mil euros. Mas isso não impede os críticos de Francisco Rodrigues dos Santos de pedirem resultados e sinais de que o partido consegue dar o salto.

No artigo publicado no Expresso, o antigo ministro da Economia António Pires de Lima tornou público o que algumas figuras de proa do partido dizem nos bastidores. Após ter dado conta de que deixou o Grupo para a Recuperação Económica e Social de Portugal, para o qual foi convidado pelo líder do CDS (que disse nunca ter-se reunido), o antigo ministro da Economia afirmou estar "muito preocupado" com o partido, que considerava reduzido "à dimensão de um homem só", e dizia esperar que "acorde e que a direção assuma um estilo de liderança mais plural e uma intervenção menos proclamatória e mais substancial". "O CDS faz muita falta à democracia portuguesa e não devia acabar assim", escreveu.

Os críticos não querem apontar de viva voz neste momento as "fragilidades que detetam na direção". "O Francisco não terá argumentos para se escudar se tiver um mau resultado eleitoral", argumentam. Mas vão dizendo que a gestão do partido e a mensagem que quer transmitir não está a ser ouvida.
Há quem refira ainda uma "falta de modernização no discurso do partido", num momento em que surgem dois partidos à direita e que já obtiveram resultados eleitorais: Iniciativa Liberal (IL) e Chega.

"O CDS faz muita falta à democracia portuguesa e não devia acabar assim."

"Continuamos com o mesmo discurso da direita tradicional, quando devíamos apostar nos assuntos que preocupam as pessoas, como o direito do ambiente, a proteção informática, os direitos dos consumidores e da segurança, claro", afirma ao DN um dos críticos, que entende que o atual discurso do "CDS se dilui no do PSD" e não marca a diferença. "O CDS está no meio da ponte, no pior dos mundos", acrescenta - uma imagem que o antigo líder centrista Ribeiro e Castro chama de "triângulo das Bermudas", com o CDS a ser pressionado pelo IL e pelo Chega.

"Continuamos com o mesmo discurso da direita tradicional, quando devíamos apostar nos assuntos que preocupam as pessoas, como o direito do ambiente, a proteção informática, os direitos dos consumidores e da segurança, claro."

Há quem garanta que as tropas de Paulo Portas continuam organizadas e a postos para, das duas uma, reconquistarem a liderança caso Francisco Rodrigues dos Santos não tenha sucesso - a maioria apoiou João Almeida na luta pela liderança - ou tentarem organizar um bloco de centro-direita como tem defendido o antigo assessor político de Pedro Passos Coelho, Miguel Morgado. E neste cenário o próprio ex-primeiro-ministro teria um papel determinante.

Confinamento no arranque

Da direção do CDS vem a defesa do líder. Além das péssimas condições em que herdou o partido em janeiro, recorda-se de que "há neste momento dois novos partido s a concorrer pelo mesmo eleitorado", o que "implicará capacidade de resistência e de resiliência".

Fonte da direção insiste que o partido não se faz de "barões" e que é preciso lançar novas caras que "obviamente não têm o peso político dos que estão há 30 anos no CDS, e por isso precisam de tempo para ser conhecidos". Recorda também que, à exceção do líder e do secretário-geral, Francisco Tavares, não há mais nenhum vice-presidente remunerado, o que os impede, por motivos profissionais, de se deslocarem muitas vezes com o presidente centrista. Acresce, diz, que Francisco Rodrigues dos Santos "teve o azar de ganhar a liderança e ter logo três meses de paragem com o confinamento".

"Teve o azar de ganhar a liderança e ter logo três meses de paragem com o confinamento."

Esta fonte argumenta que Francisco Rodrigues dos Santos, "ainda pouco conhecido", com a "notoriedade" de alguns militantes, que facilmente chegam à comunicação social e tecem as críticas públicas à nova direção do partido. "São pessoas com muita influência e não aceitaram o resultado do congresso", diz, sem nomear, mas sempre com a mira nos que estiveram ao lado de Portas e de Assunção Cristas nos últimos anos, como Pires de Lima, Adolfo Mesquita Nunes, Pedro Mota Soares, entre outros.

O "triângulo das Bermudas"

O antigo líder centrista José Ribeiro e Castro não manda recados por ninguém. Manifesta-se preocupado com o estado do CDS, porque "é um partido que tem um histórico muito importante na democracia portuguesa". Admite que não é com "grande surpresa" que vê os resultados do partido nas sondagens, mas entende que "é injusto projetar esta situação na atual direção, independentemente das fragilidades que lhe possam apontar".

José Ribeiro e Castro recorda que no último congresso do CDS, em Aveiro, disse que o partido estava numa encruzilhada difícil, a que chamou "triângulo das Bermudas", com os dois novos partidos, o IL e o Chega e a competição com o PSD, com o qual disputa o voto útil. Tanto é assim, diz, que durante as duas maiorias absolutas de Cavaco Silva o CDS foi reduzido ao que ficou conhecido pelo táxi, uma bandada de quatro deputados em 1987 e de cinco em 1991. "Só quando terminou a pressão cavaquista é que regressou aos 9%, 10% e 11%."

Afirma que Francisco Rodrigues dos Santos herda uma situação pior do que quando liderou o CDS, sem resultados eleitorais expressivos, sem meios financeiros e também com "falência ideológica".

"As correntes são um fator de tensão."

José Ribeiro e Castro continua a manifestar-se contra a divisão do CDS em correntes democratas-cristãs, conservadores e liberais. "Todas sempre existiram dentro do CDS, mas o partido era doutrinário, foi fundado com uma declaração de princípios."O que, na sua opinião, faz a diferença em relação às outras forças e dá a identidade que o eleitorado procura. "As correntes são um fator de tensão", insiste.

E apesar da pressão que os novos partidos à direita exercem sobre o CDS, diz que há "um excesso de discurso sobre o Chega", partido que classifica de "oportunista", que aproveita a fragilidade dos centristas para crescer. "O que temos de fazer é responder aos problemas do país, com a nossa identidade, e o eleitorado volta", assegura o antigo deputado.

"O que temos de fazer é responder aos problemas do país, com a nossa identidade, e o eleitorado volta."

No debate do Orçamento do Estado para 2021, que entra no dia 12 na Assembleia da República, o CDS de Francisco Rodrigues dos Santos vai apostar em três setores: apoio às famílias, ajuda às empresas, com mais competitividade fiscal, e um Estado mais forte a nível social, na saúde e na transparência.

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