Atrês semanas das eleições para o Parlamento Europeu continuamos, um pouco por todos os Estado membros, a discutir tudo menos a Europa. Os entendidos dirão que "toda a política é local". Os iluminados acrescentarão que "as pessoas não querem saber disso". E os espertalhões farão campanha com a visão de caserna do costume: vale tudo para conter danos partidários e obter umas conquistas de curto prazo. Além de frustrante, é cansativo..Como ficou provado pelas grandes crises europeias que marcaram os últimos cinco anos de legislatura do Parlamento Europeu (financeira, económica, migratória, coesão, nacionalista), talvez nunca como hoje fomos tão interdependentes na União. Todos esses problemas e respetivas gestões políticas expuseram a necessidade imperiosa de uma concertação mais sofisticada entre Estados membros e entre estes e as instituições comunitárias. O que falhou, e muito falhou, foi exatamente a não existência de mecanismos de ação rápida ao nível europeu, capazes de conter, gerir e corrigir falhas nacionais mais ou menos expostas por fatores de pressão externa. Um dos problemas da União Europeia é que quem a lidera nem sequer a sabe defender. A tecnocracia das respostas oficiais, o cinzentismo da maioria dos porta-vozes e a falta de carisma de uma imensa geração de cabeças-de-cartaz são bónus para qualquer político em ascensão nacional com as cordas vocais afinadas contra "o sistema". Não é possível fazer vingar os lados positivos da integração europeia sem soldados prontos para o combate argumentativo, pondo imediatamente cobro ao chorrilho de mentiras que saltam da trincheira populista, desarmando o basismo das suas ideias e motivando novas gerações a baterem-se pelos valores da liberdade que dizem não querer abdicar. Há, portanto, uma autoavaliação a fazer sobre a cultura política que tem caracterizado a defesa da UE neste último ciclo político. Só a partir daqui é possível enfrentar o que começa a 27 de maio..À partida, os próximos cinco anos serão marcados por um Parlamento Europeu com uma bancada nacionalista mais numerosa, ruidosa, que claramente o detesta mas não pode passar sem ele. Aliás, que seria destes partidos nacionalistas à volta de Salvini, Le Pen e Farage se a União Europeia não estivesse em funções, com o reconhecido sucesso que obteve na construção da paz, no desenvolvimento económico, científico e educativo, ou no alargamento de direitos e liberdades a cada vez mais democracias? Que outro demónio iriam eles apontar como responsável por todos os males que supostamente assolam as suas sociedades e que manifestamente não conseguem resolver sozinhos? Se os benefícios obtidos do Parlamento Europeu são o primeiro dos paradoxos da sua ação política, a constituição de uma aliança pan-europeia é outra contradição entre partidos nacionalistas..O que os move para abraçarem desta forma os bons ventos da livre circulação de ideias, pessoas e capitais, que dizem desprezar? Será por reconhecerem méritos à integração comunitária, beneficiando das suas redes às claras e de outros canais bem menos transparentes, desfazendo assim o mito da moralidade cristalina que apregoam para limpar de vez um sistema que dizem estar podre? Que moral têm partidos destes que falsificam assinaturas para se oficializarem (como em Portugal) ou outros que vão crescendo de eleição em eleição apenas com base em mentiras descaradas em várias campanhas (como na Holanda ou no Reino Unido)? Será assim tão difícil pôr isto a nu no modo e no tempo certos? Haverá assim tão pouca coragem na política atual para derrotar com argumentos sólidos este tipo de embustes? Faltam políticos na atual política que se faz na Europa..Neste tempo-fronteira que atravessamos no Ocidente, começamos a perceber que o fatalismo não tem de monopolizar as páginas da história. Nem a moderação está condenada ao fracasso. Nem o nacionalismo tem de subir em flecha. Mais ou menos em simultâneo, os espanhóis deram uma hipotética maioria parlamentar a partidos de centro-esquerda (PSOE) e centro-direita (Ciudadanos) alinhados com a UE. Na Suécia, os sociais-democratas venceram as eleições e um apoio parlamentar que excluiu a extrema-direita. O mesmo se passou na Finlândia, que, mesmo assistindo a uma subida da extrema-direita, parece conseguir nas próximas semanas uma maioria parlamentar sem ter de recorrer aos nacionalistas. Na Polónia, que terá legislativas no outono, a oposição pró-europeia e cosmopolita toda junta está hoje à frente nas sondagens dos nacionalistas do PiS. E na Itália, o Partido Democrático, agora liderado por Nicola Zingaretti, está colado ao Movimento 5 Estrelas, em segundo lugar nas sondagens..Ao mesmo tempo, na Estónia, um dos poucos Estados membros com uma verdadeira estratégia nacional de sucesso (plena digitalização), um partido de extrema-direita abertamente racista (EKRE) acabou de integrar a coligação com pastas importantes. Com que mensagem amedrontaram os eleitores? Claro: a da invasão migratória que iria destruir a "Estónia branca". Querem saber quantos refugiados recebeu a Estónia no último ano? Nada mais, nada menos do que 208, dos quais 80 já saíram do país. Não é só com construção de muros que os nacionalistas incendeiam os seus eleitorados, é com a difusão de medos fictícios ajudados por autênticas baterias de desinformação..Há dias, Salvini foi à Hungria visitar Orbán. Não quis saber de fotografias institucionais ou apertos de mão. Ambos fizeram a sua propaganda junto ao arame farpado que percorre 500 km na fronteira balcânica. Do alto de uma torre de controlo e munidos de binóculos, Salvini e Orbán davam a entender que sozinhos dão conta de um tema que, da causa ao efeito, é tudo menos nacional. Exatamente por não ser é que as entradas de imigrantes em Itália tinham já diminuído 80% antes da tomada de posse de Salvini..Os demagogos deviam ter derrota fácil em política. Só não têm porque a coragem parece hoje órfã e a defesa das democracias liberais está mergulhada numa letargia conivente. Nunca é tarde para travar o fatalismo. Investigador universitário.Investigador universitário