Pode dizer-se que a evolução da pandemia de covid-19 poupou o país não só no número de casos que necessitaram internamento, como no número dos que necessitaram dos cuidados diferenciados, nomeadamente de cuidados intensivos. Isto porque, e como responderam ao DN alguns hospitais da região de Lisboa e Vale do Tejo e o próprio presidente da Associação dos Administradores Hospitalares, "não houve nenhuma unidade que tivesse esgotado a sua capacidade"..Os dados enviados ao DN por várias unidades dão conta disso mesmo. No entanto, fontes hospitalares salientam, que se o pico que se vive agora na região de Lisboa e Vale do Tejo não está a exigir uma maior resposta da parte hospitalar, tal deve-se ao facto de a maioria dos novos casos estar a ser registada nas faixas etárias mais novas, tal como tem sido mencionado pela diretora-geral da Saúde, Graça Freitas. Ou seja, na faixa etária em que "a doença se manifesta de forma mais ligeira e sem necessidade de internamento ou de cuidados indiferenciados", a maioria pode e está a ser tratada e vigiada no seu domicílio..Até agora, uma das unidades mais afetadas foi o Hospital Fernando Fonseca, mais conhecido como Amadora-Sintra, que viu, na última semana, o número de doentes internados aumentar. Segundo fonte hospitalar, durante o pico da pandemia, a instituição chegou a ter hospitalizados 73 doentes, no entanto, na passada quinta-feira, este indicador subiu para 67. O DN sabe que, esta quarta-feira, a unidade teve inclusivamente de reabrir uma enfermaria dedicada a doentes covid, que tinha sido encerrada e que os profissionais de saúde diretamente envolvidos estão preocupados com a lotação das camas disponíveis..Fala-se ainda na possibilidade de adiar a marcação de férias dos profissionais, entretanto permitidas pelo Governo. Sintra e Amadora são dois dos municípios com mais casos registados na última semana. Têm agora, respetivamente, 1400 e 915 casos de infeção pelo novo coronavírus..Também o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, viu a lotação das suas camas a diminuir à medida que o número de infetados crescia no concelho (são agora 1114, no total) e chegou a ter de encerrar as urgentes a doentes transportados pelo INEM, no final do mês passado..Entre 24 de maio e dois de junho, o hospital teve, em média, 60 doentes internados, tendo atingido os 66 nos dias 25 e 26 de maio, indicou a Hospital ao DN. Nos cuidados intensivos (CI) estiveram entre sete e dez doentes, seis destes precisaram de ventilação. Isto quando há um mês (no período entre um e dez de maio), as hospitalizações rondavam os 45 infetados, seis em cuidados intensivos (e metade a precisar de ventilação)..No caso do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN), o maior do país, que integra os hospitais de Santa Maria e Pulido Valente, o número de doentes internados com covid-19 pouco se alterou no último mês..Em resposta ao DN, o CHULN indica que até ontem tinha internados 64 doentes em Santa Maria com covid-19, 13 dos quais em Unidades de Cuidados Intensivos. Apenas mais quatro infetados do que o hospital havia tido no início de maio, quando eram cerca de 60, os doentes internados com o novo coronavírus e 20 em CI..Esta unidade destaca ainda que, desde março, altura em que foi acionado o seu plano de assistência à covid-19, o número médio de internamentos manteve-se estável, o que fez também com que não houvesse necessidade de aumentar o número de enfermarias destinadas aos doentes não críticos - até agora têm estado quatro a funcionar, com um total de 80 camas. Mesmo assim, sublinha fonte hospitalar, "não estiveram lotadas, e não houve necessidade de acionar mais enfermarias também previstas no plano inicial"..Neste momento, há já a assinalar também algum regresso à atividade normal (apesar de condicionado na região da Grande Lisboa por causa do crescimento de novos casos), o que está a fazer com que, ao longo do mês de maio, se tenha assistido a um aumento de mais internamentos de doentes não covid, seja para doentes "cirúrgicos", seja para doentes "médicos". Uma tendência que surge também de maior afluência à urgência, colocando pressão assistencial adicional..Por tudo isto o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APHA) sublinhou ao DN ser urgente a definição de um plano nacional para a retoma de atividade, até para melhor se poder responder a estes picos regionais ou localizados, como o que está a acontecer na região da Grande Lisboa, e a possíveis segundas vagas. "Esta planificação é urgente para todo o país. Agora, surgiu um pico na área de Lisboa, mas não quer dizer que não surjam picos noutros locais. Por isso, temos vindo a alertar para a necessidade de uma planificação geral e em rede". Ideia também defendida pelo bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães.."Atenção especial" para a região de Lisboa e Vale do Tejo.Alexandre Lourenço refere que a situação que está a ser vivida na área de Lisboa, e que está afetar sobretudo os concelhos de Loures, Amadora, Sintra e Almada, "é uma preocupação e deverá ser objeto de uma atenção especial. Apesar de na primeira fase da doença não termos tido instituições que tivessem atingido a totalidade da sua capacidade, a situação de agora deveria estar a envolver já uma resposta organizada entre todos os hospitais da região. Daí, sublinha mais uma vez, a necessidade de uma planificação em rede, de forma a haver até respostas fora da região, sobretudo para as áreas em que temos mais limitações, como cuidados intensivos"..O representante dos administradores hospitalares salienta que até agora não chegámos nem de longe nem de perto à totalidade da capacidade de resposta nas unidades de intensivos. "Estamos longe disso, mas parece-me que uma resposta concertada nesta matéria deve estar sempre em cima da mesa, ou, por exemplo, a hipótese de os hospitais da região de Lisboa, que é agora a mais afetada, em caso de necessidade poderem vir a ser equipados com material de outros hospitais, onde não estejam a ser necessários". Acrescentando: "O que quero dizer é que estas matérias devem ser objeto de planificação, e antes de as coisas acontecerem. Não podem ser decididas quase dia a dia. Se forem planeadas dá mais confiança aos serviços de saúde e aos profissionais.".A nível nacional, o indicador dos internamentos revela uma "trajetória decrescente", como descreveu o secretário de estado da Saúde, António Lacerda Sales, em conferência de imprensa, nesta quarta-feira. Segundo o boletim da Direção-Geral da Saúde, há agora 428 doentes hospitalizados, o número mais baixo desde o dia 28 de março, quando estavam internadas 418 pessoas. Nos cuidados intensivos, encontram-se atualmente 56 infetados com o novo coronavírus..Mas os recordes, como já referido, não se sustentam com os valores da área da Grande Lisboa. No caso do Centro Hospitalar Lisboa Central, que inclui o Hospital Curry Cabral, São José, Santo António dos Capuchos, Santa Marta, Dona Estefânia (hospital pediátrico) e a Maternidade Alfredo da Costa, também o número de internamentos é agora superior ao de há um mês. .Se a dois de maio, estas unidades tinham 54 doentes hospitalizados (11 em CI), a dois de junho passaram a ser 71 (oito em CI). Em sentido contrário, está o número apresentado ao DN para os doentes acompanhados em domicílio, menos 119. São agora 149, os cidadãos seguidos em casa..Também a quantidade de crianças hospitalizadas no Dona Estefânia é menor. Passaram de sete, no inicio do mês de maio, para cinco, no primeiros dias de junho..Para além destas instituições, o DN contactou ainda o Hospital Garcia de Orta, em Almada, que disse não poder divulgar os números dos internamentos, remetendo explicações para a DGS..Bastonário dos médicos: o número de consultas e cirurgias não covid "ainda está por determinar".Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, acredita que a evolução epidemiológica na região de Lisboa e Vale do Tejo "está controlada", mas não descansa e diz-se "preocupado" com os novos internamentos. A situação "tem repercussões na vida do sistema, porque quanto mais pessoas infetadas, há sempre pessoas que têm doença mais grave e têm de ser internadas", aponta ao DN.."Por outro lado, numa altura em que estamos a pensar no regresso [da atividade programada], isto significa um atraso na retoma do tratamento dos doentes não covid", continua o médico do Hospital de São João..Para Miguel Guimarães, o número de consultas adiadas é muito superior às 540 mil mencionadas pela ministra da Saúde. Tal como as 51 mil cirurgias oficiais que ficaram por fazer estarão aquém da realidade, porque "nestes três meses, o número de doentes inscritos para ser operados foi extraordinariamente baixo e ainda está por determinar. Devemos fazê-lo por comparação com os mesmos meses do ano anterior", defende.."A dimensão do problema ainda não está completamente avaliada", acredita, mas pede confiança aos portugueses. O bastonário garante que os hospitais têm circuitos devidamente identificados para os doentes covid e para os restantes, evitando-se o risco de contágio.