Volt. O partido federalista que nasceu do choque do Brexit

Novo partido português é o braço da formação política pan-europeia que defende uma Europa federal. E quer eleger um eurodeputado em 2024.

Um italiano, um alemão e uma francesa. Todos na casa dos 20 anos, a estudar/trabalhar nos Estados Unidos. Esta poderia ser só a história de uma amizade, mas acabou a ser a história de um partido político - o primeiro a atravessar as várias fronteiras da Europa.

O italiano Andrea Venzon (28 anos), a francesa Colombe Cahen-Salvador (26 anos) e o alemão Damian Boeselager (32 anos) são o trio fundador do Volt, assim nomeado por ser dito de igual forma nas várias línguas e para simbolizar a ideia de dar uma nova energia à Europa. O dia 24 de junho de 2016, a manhã que nasceu com a notícia de que o Reino Unido votou "sim" ao Brexit, foi o momento zero do partido, que viria a oficializar-se no mesmo dia em que os britânicos acionaram o agora famoso artigo 50.º do Tratado de Lisboa, a 29 de março de 2017. Três anos depois, durante os quais se formalizou como partido em 13 países europeus, o Volt chega também a Portugal - já aprovado pelo Tribunal Constitucional, é agora a mais recente formação partidária nacional.

Antes das europeias do ano passado, Andrea Venzon escreveu "nós não somos pró-europeus, nós somos Europa", e essa será a linha mais proeminente do Volt. Na Declaração de Amesterdão, programa com que se apresentou às europeias, o Volt defende uma Europa federal liderada por um governo europeu, com um primeiro-ministro saído das fileiras do partido mais votado ao Parlamento Europeu (que funcionaria como um parlamento nacional, com capacidade legislativa) e um presidente sufragado nas urnas pelos cidadãos da União Europeia. Uma solução política que, defende o Volt, criaria uma democracia parlamentar "mais forte, mais aberta e transparente". A esta estrutura política deve corresponder um orçamento comunitário, a união bancária e uma união económica e monetária total, sob a égide de um ministro das Finanças europeu. E uma harmonização fiscal que passe pela taxação das multinacionais de forma uniforme em toda a União Europeia. O Volt defende também um exército europeu e a transformação da Europol numa polícia federal. No plano social quer um salário mínimo europeu comum a todos os Estados.

E como se faz isto numa Europa desigual e onde os nacionalismos ganham um peso crescente? "Sabemos que não é para amanhã, nem para o ano, pode demorar décadas. É uma maratona" que vai ainda nos primeiros passos, diz Tiago Matos Gomes, presidente do Volt Portugal. Ex-jornalista, com 45 anos, há muito que se afirma como federalista, uma ideia que remonta praticamente aos bancos da escola.

Filho de um militar destacado em Bruxelas, fez parte do ensino secundário na capital belga. Ainda hoje recorda um episódio dessa altura: "Uma aula de História em que o professor escocês explicava a Segunda Guerra Mundial, e eu estava sentado ao lado de alunos franceses com avós que tinham pertencido à Resistência, que por sua vez estavam sentados ao lado de alunos alemães com avós que tinham pertencido ao exército nazi. Miúdos que eram amigos, que jogavam à bola no recreio e que tinham os mesmos problemas de adolescentes. Foi muito por aí que nasceu o bichinho do federalismo."

Nas eleições de 2019, o Volt apresentou candidatos em sete países e elegeu um eurodeputado na Alemanha, Damian Boeselager, que integra a bancada de Os Verdes/Aliança Livre Europeia. O objetivo, daqui a quatro anos, é chegar aos 25 eleitos por sete países - a condição para ter uma bancada parlamentar própria. Para isso, o Volt Portugal tem como ambição contribuir com a eleição de um eurodeputado. Mas, antes disso, o mais jovem partido português promete abalançar-se às autárquicas.

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