Desconfinar a Igreja (2)

1. Quem está interessado na Igreja, seja por razões de fé, religiosas ou simplesmente históricas, é com certeza assaltado pela pergunta: o que se passa? De facto, os dados estão aí, clamorosos.

Concretamente na Europa e em países como a França, a Espanha, os Países Baixos, a própria Irlanda, para não falar na República Checa, onde 80% dos habitantes se confessam ateus, a prática religiosa cai vertiginosamente, sobretudo entre os jovens, sendo dramática de ano para ano a diminuição do número de baptismos, de casamentos, os seminários esvaziam-se, o clero envelhece...

O que se passa? Há razões exteriores à Igreja e outras de que ela própria é responsável. Vivemos numa sociedade que vive da imediatidade e do prazer, num consumismo devorador, que afastou do seu horizonte as perguntas essenciais, metafísico-religiosas, menosprezando a questão do sentido, do sentido último, esperando fundamentalmente respostas da tecnociência e das novas tecnologias. Mergulhados no mundo da imanência, a transcendência desaparece.

Mas as responsabilidades da própria Igreja não podem ser ignoradas, como é patente a quem não queira fugir à verdade e à lucidez. A fé viva começa sempre com uma experiência de encontro. Jesus fez uma experiência avassaladora de Deus como Pai-Mãe, amor incondicional. A partir dela, anunciou o Reino de Deus, que é o reino da fraternidade, da alegria, da esperança, da liberdade, o reino das bem-aventuranças. Os camponeses pobres, todos os explorados, as mulheres oprimidas, os que lutavam pela vida contra a fome, a opressão, a doença, os pecadores públicos, os perdidos, escutaram a sua proclamação de libertação salvadora. Porque, lá no mais fundo, os seres humanos vivem da experiência negativa de contraste: há o que não pode ser, porque anula a vida, e o que deve ser, para que a vida ganhe sentido. Jesus anunciava o que deve ser: quem acreditava nele encontrava a salvação. Evidentemente, essa mensagem incomodou muitos que viviam de oprimir os outros, a começar pelos sacerdotes do Templo, que exploravam em nome da religião. Ameaçados pelo perigo que o Deus salvador de Jesus constituía, condenaram-no à morte, fazendo coligação com os interesses imperiais de Roma. E Jesus foi crucificado.

Aparentemente, era o fim. O enigma histórico do cristianismo é precisamente este: o que é que aconteceu para que os discípulos, que, desiludidos, se tinham dispersado, voltando aos seus ofícios, se reunissem outra vez e fossem anunciar, expondo a própria vida, pois morreram por isso? Reflectindo sobre tudo o que tinha acontecido, sobre a vida de Jesus e também a sua morte, o que o movia, o modo como se relacionava com Deus, foram fazendo a experiência avassaladora de fé, de que aquele Jesus, o crucificado, está vivo em Deus para sempre, como esperança e promessa para todos: Deus não o deixou abandonado à morte. Ele é o Vivente.

Também Paulo fez essa mesma experiência e, de perseguidor, tornou-se apóstolo. Fez milhares e milhares de quilómetros (vinte mil?) para levar o Evangelho a todos. E trabalhava para não ficar pesado a ninguém e para não pensarem que vivia disso. Foi perseguido e morto. Mas a sua experiência marcou a história. O que vale um morto crucificado? Nada. Pelo contrário, pertence à lixeira do mundo. Então, se Deus não abandonou Jesus à morte, mas o ressuscitou, é porque está com ele e com a sua causa, a causa dos seres humanos, é ele que tem razão. Se Deus está com ele, o crucificado, ele vale, e se ele vale, todos valem. Por isso, "já não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher, todos são um só em Cristo." Já ninguém se lembra de que é aqui que fermenta a dignidade da pessoa humana e os direitos humanos? Esta foi a mensagem mais libertadora da história, para esta vida e para a eternidade. Agora, a existência ergue-se com sentido final, nesta proclamação de Jesus, como sublinhou o filósofo Ernst Bloch: "Eu sou a Ressurreição e a Vida." E: "Sois todos irmãos." Pela primeira vez na história, quando um senhor se convertia, participava na eucaristia, sentando-se na mesma mesa que o seu escravo. Para Deus, todos têm valor, valor infinito, de filhos e filhas.

Esta é a Igreja dos começos, quando os cristãos o eram verdadeiramente, a partir desta experiência. Comunidades cristãs fraternas.

Depois, lentamente, foi o que se sabe. A Igreja tornou-se uma instituição de poder, cada vez mais poderosa e centralizada, imperial. Lá está o famoso Dictatus papae, de Gregório VII: "Só o Romano Pontífice é digno de usar insígnias imperiais." Daí, seguiu-se a corte, o fausto, vestimentas de luxo, títulos e dignidades: Eminência, Excelência Reverendíssima, Monsenhor... Nas celebrações da eucaristia, com os chamados pontificais, ninguém minimamente atento poderia já reconhecer a memória da Última Ceia. Numa Igreja que discrimina as mulheres, não é possível reconhecer Jesus, que as incluiu em igualdade e ternura. E não é Jesus que está na base de uma Igreja com duas classes: o clero que manda e os leigos que apenas obedecem.

2. O Papa Francisco vem chamando a atenção para o "desafio" de "compreender o que Deus nos está a dizer nesta pandemia". "Porque pior do que esta crise é o drama de desaproveitá-la, enclausurando-nos dentro de nós próprios." Urge a abertura a "uma Igreja em saída", desconfinada de dogmas estéreis, clericalismos, tradições fossilizadas, ritualismos mortos, que não transmitem vida. Para isso, só há um caminho: cada cristão voltar a fazer uma experiência pessoal de encontro com Cristo e o seu Evangelho.

(Continua)

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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