Premium Nobel de Saramago: comemorações tardam mas parece que não falham

O editor de José Saramago acha que os 20 anos do Nobel da Literatura estão a ser mal comemorados. O Ministério da Cultura não pensa o mesmo, nem a APEL. Entretanto, os leitores vão poder ler um inédito, o 6º Caderno de Lanzarote.

A polémica em torno da ausência de comemorações oficiais e significativas nos 20 anos sobre o anúncio do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago está a subir de tom desde que ontem, durante a revelação do inédito do escritor a ser publicado a 8 de outubro - data em que se soube da decisão da Academia Sueca - o atual editor da obra, Manuel Alberto Valente, questionou as autoridades oficiais portuguesas para o descaso que considera estar a verificar-se.

Para Valente em causa está principalmente o Ministério da Cultura, contrapondo que "ironicamente estamos num ano em que não vai haver Nobel e é a melhor razão para se comemorar José Saramago". Acrescentou: "Não tenho conhecimento de que esteja preparada uma celebração nacional... Pode ser que sim, mas a existir está em segredo."

Até 2020, garante o ministro da Cultura, "estão programadas diversas iniciativas de homenagem ao escritor José Saramago, dinamizadas pelo Ministério da Cultura, não só em Portugal, mas também no palco internacional"

Manuel Alberto Valente recordou que esse esquecimento já se verificou na Feira do Livro de Lisboa, responsabilizando a APEL, e parece que se "irá repetir na Feira do Livro de Frankfurt", apesar de referir desde já que a Porto Editora pretende assinalar a data na feira alemã no seu espaço e que em data próxima será divulgado o programa com que a atual editora de José Saramago irá celebrar os 20 anos sobre o Nobel da Literatura.

Quanto a Pilar del Río, ao ser questionada pela ausência de eventos oficiais nestas celebrações, a presidenta da Fundação José Saramago optou por elencar vários eventos promovidos pela Fundação a nível nacional e internacional.

Sobre o alegado esquecimento oficial, o responsável da APEL, João Amaral, confirmou ao DN que tal não acontecerá em Frankfurt: "A APEL vai ter o pavilhão dos editores portugueses dominado por grandes imagens de José Saramago em três paredes e exposições fotográficas e, mais do que isso, tem apoiado quase todas as iniciativas da atual editora em torno desta data". Quanto à crise que aconteceu na Feira do Livro de Lisboa preferiu não comentar, dando a entender que não cabe à APEL substituir-se a outras associações responsáveis por essa iniciativa.

A resposta do Ministério da Cultura é a de que até 2020 "estão programadas diversas iniciativas de homenagem ao escritor José Saramago, dinamizadas pelo Ministério da Cultura, não só em Portugal, mas também no palco internacional". O Ministério, no entanto, admite ao DN que esteja a "ser preparada uma grande homenagem nacional", mas nada mais acrescenta.

Esclarece o Ministério que "um dos objetivos estratégicos prioritários do Ministério para a área do livro em 2018 é a Feira Internacional do Livro de Guadalajara, na qual Portugal se apresenta como país convidado de honra" e que nesse âmbito "serão realizadas na programação prevista homenagens ao escritor", tal como garante que José Saramago será "igualmente homenageado na Feira do Livro de Frankfurt" pois, acrescenta, é "o nosso único Nobel da Literatura".

Entre as iniciativas que o Ministério da Cultura destaca é a que se vai realizar na Biblioteca Nacional de Portugal, que tem programada uma mostra que estará entre dezembro de 2018 a janeiro 2020 de originais autógrafos existentes no espólio que Saramago depositou na instituição, bem como em outras bibliotecas públicas.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.