O populismo, o socialismo das causas e o das soluções

Portugal tem, neste momento, no Parlamento, dois partidos populistas com um deputado cada, um terceiro, o CDS, com alguma probabilidade de o vir a ser, e um quarto, o PSD, a lutar com algum sucesso para o não ser. Não estamos, portanto, num patamar preocupante.

As coisas podem alterar-se num futuro mais ou menos próximo, se não houver a devida atenção daqueles que se preocupam com o populismo, sobretudo no centro-esquerda. O que fazer? A resposta passa por uma melhor definição do enquadramento político, por uma maior união entre as forças que se opõem ao populismo, e pela continuação da melhoria da justiça social por via da tributação e da distribuição do rendimento. Dar o populismo como algo de estranho ao país, algo contra o qual o país está vacinado, é um grande erro. Assim como dá-lo como inevitável. Na verdade, sabemos que ele já atingiu o cume em vários países que, entretanto, conseguiram contê-lo, como os Países Baixos, a Dinamarca ou a Áustria. Mas sabemos também que ele tem voltado sob outras formas, tal como aconteceu recentemente, de modo estrondoso, no Reino Unido.

Comecemos pelo início, pelo enquadramento político, que nos diz que é preciso reintroduzir o termo socialismo no debate político. No mundo ocidental, o termo foi há muito demonizado com sucesso - e, confessemos, com alguma razão, dados alguns excessos sindicais, entretanto ultrapassados. Mas está na altura de superar o trauma e dizer com clareza que as vias alternativas que de algum modo dominaram os últimos 40 anos falharam ou estão esgotadas. Recordemos que o "socialismo" foi posto de lado pela ideia de que a política orçamental e fiscal deve favorecer o topo financeiro da sociedade, de onde sairiam o investimento e o crescimento. Isso não aconteceu ou aconteceu muito abaixo do esperado. O novo socialismo é aquele que preserva os mercados, que sabe que eles não regulam tudo, e que não equilibram nem a economia nem a sociedade. O número crescente de muito ricos, pelo mundo ocidental fora, o excesso de liquidez financeira das grandes companhias multinacionais e o défice de investimento em infraestruturas sociais e outras são a prova disso mesmo.

A mais forte união entre as forças que podem recuperar o que se perdeu implica uma nova união, entre o socialismo das causas, o daqueles que defendem os interesses de minorias, de classes ou do clima, e o socialismo das soluções, o daqueles que sabem governar num mundo aberto e necessariamente complexo. Os primeiros não sabem - ou não querem saber - como lidar com os problemas da União Europeia, do euro ou negociar com as empresas necessárias aos grandes empreendimentos; e os segundos não sabem - ou não querem saber - como lidar com as causas emergentes, impensadas nos momentos em que aprenderam a governar. Em Portugal, essa união durou quatro anos, com resultados palpáveis a todos os níveis, mas está muito enfraquecida, desde as últimas eleições legislativas. Os dirigentes políticos envolvidos nestas frentes têm de se sentir responsáveis pela sua recuperação. É um pouco brincar com o fogo termos neste momento um governo minoritário sem acordo de apoio parlamentar e a culpa de isso acontecer está dos dois lados. Os cálculos eleitorais que levaram a esse resultado são compreensíveis e é deles que vivem as democracias. Mas são cálculos de curto e não de médio prazo.

Finalmente, sigamos o trilho da justa tributação e da justa distribuição do rendimento. Sabemos que as causas da ascensão do populismo são várias, mas há uma que prevalece em muito lado, sobretudo mais perto de nós. Trata-se do simples facto de que não há populismo sem dinheiro. Trump, nos EUA, comprou serviços milionários para as suas campanhas eleitorais, particularmente no Facebook. Johnson, no Reino Unido, fez o mesmo na sua campanha para o Brexit. E o dinheiro veio de financiadores diretamente beneficiados pelo injusto sistema fiscal instaurado nesses países desde a derrota do "socialismo" de há 40 anos. Em Portugal, ainda é pouco o dinheiro que está a ir para os partidos populistas e isso pode ser uma das razões da respetiva pequenez. Os dois que contamos agora têm fundos vindos de privados e a ajuda de um par de meios de comunicação social, mas são ainda apoios pobres. O risco em Portugal não é extremo, pois não há grande hábito de filantropia de qualquer tipo, incluindo o político.

Mas é melhor não adormecer na forma. A justiça fiscal e de distribuição de rendimento tem de ser preservada. Para tal, nada como a recuperação do termo há anos perdido e o reagrupamento dos socialismos das causas e das soluções. Todas as décadas são diferentes e esperemos que a que se segue não seja pelas piores razões. Um desiderato que está nas mãos dos inteligentes dos partidos antipopulistas ajudar a que aconteça. Investigador da Universidade de Lisboa.

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