Cálculo em excesso, estratégia por defeito

A morte de Qassam Suleimani tem tudo para ser o fator de viragem para pior no Médio Oriente. E o que pode ter tido origem no cálculo vantajoso para Trump pode tornar-se um calvário com efeitos incontroláveis.

Eliminar Qassem Suleimani foi sem dúvida o ato mais arriscado cometido pelo presidente Trump. Mais do que a gestão na escalada de tensão comercial com a China, danosa para a economia americana, mais do que pôr a cabeça no cepo com a Coreia do Norte, falhando totalmente na desnuclearização do regime, mais do que rasgar acordos internacionais, não assinando nada de novo em benefício dos EUA, a morte do líder carismático dos Qods e do número dois do Hezzbolah pode ser o fator de viragem no Médio Oriente. Para pior.

Suleimani foi nada mais nada menos do que o grande responsável pela ascensão regional do Irão depois da fatídica guerra do Iraque, em 2003. É, dentro do xiismo militante e militar, o homem mais carismático do Médio Oriente. É, como já se está a ver em Teerão, o agregador-mor dos vários patamares que compõem a complexa arquitetura de poder iraniana. Foi decisivo na recuperação de Assad na Síria, no controlo militar e político do Iraque, garante a força necessária para que o Hezzbolah permaneça estrutural a qualquer futuro no Líbano, além dos laços que alimentam o Hamas e a Jihad Islâmica palestiniana. Não admira que seja o homem mais odiado em Israel e, como se vê, na Casa Branca. A sua força tentacular, expressão quase imperial do Irão no atual xadrez do Médio Oriente, foi tão conquistada a ferros como permitida por terceiros, inclusive Washington, que viu no controlo da guerra civil iraquiana um meio indispensável aos danos causados pela invasão de 2003 e, a partir de 2006, pela ascensão do ISIS. Mas, como em tudo na região, hoje meu aliado de circunstância, amanhã meu inimigo figadal.

Num certo sentido, a eliminação de Bin Laden esteve para Obama como a de Suleimani está para Trump: ambos foram instrumentais numas coisas, mortíferos noutras. O fim foi o mesmo. A grande diferença é que Bin Laden não tinha qualquer pátria de acolhimento, um Estado a que obedecesse ou que respondesse em sua defesa. Como se viu, nem a "desatenção" paquistanesa à sua longa presença no país levou Islamabad a defender a sua honra depois do raide em Abbottabad. A sua idolatria era fragmentada territorialmente. Ao contrário, Suleimani é um símbolo da força imperial do regime iraniano, um mestre da guerra e da guerrilha, símbolo máximo da unidade de elite dos Guardas da Revolução, também eles senhores tentaculares do regime. Esperar que o Irão se contenha na resposta à sua morte é olhar com o mesmo ângulo para o Paquistão de Bin Laden. Não vai acontecer.

Trump tem argumentos exploráveis do seu lado. Um contexto de diabolização permanente sobre o Irão, desde que tomou conta da campanha para as presidenciais de 2016. A intenção foi sempre rasgar o que Obama tinha alcançado, isolar o Irão e manter firme a frente evangélica interna, cada vez mais entrincheirada na defesa da linha dura de Netanyahu. Matar Suleimani cumpre o objetivo de a galvanizar para o ciclo eleitoral que se avizinha. Além disso, confrontou-se com uma repetição de Benghazi em 2012, quando há dias a embaixada americana foi atacada em Bagdad. Como seria de esperar, a resposta teria de ser diferente da que então Obama e Clinton deram: pouca atenção aos alertas de insegurança na Líbia que terminaram na morte do embaixador Stevens.

A morte de Suleimani, vendida como retaliação por crimes contra a América e prevenção de futuros ataques, sinaliza o músculo indispensável a uma narrativa de recuperação de grandeza. Tendo em conta tudo isto - escalada propositada com o Irão, mobilização de bases eleitorais, diferenciação com democratas - o que aconteceu não deve surpreender ninguém. Era uma questão de oportunidade. Devo dizer, também, que o Irão tem procurado responder à altura a essa escalada. Os seus líderes têm correspondido inteiramente à agressividade política da Casa Branca, novas frentes de conflitualidade propositada foram surgindo de Ormuz aos campos de petróleo sauditas e, sem surpreender, com uma economia acossada por sanções americanas, acabou por consolidar a união da linha dura do regime. A morte de Suleimani vai esmagar qualquer tentativa interna de emergência de renovadores, numa sociedade muito jovem e com um potencial de inserção internacional enorme.

O ataque com drones a Suleimani tem também o efeito de desviar as atenções do impeachment, de obrigar os candidatos democratas a tomar posições contraditórias, imediatamente exploradas por Trump para remobilizar eleitores independentes que não estão satisfeitos com a oferta à esquerda, além de condicionar algumas vozes militares de peso potencialmente dissonantes, que não podem correr o risco de condescender com o histórico de Suleimani. Este é o cálculo objetivo e mais relevante feito por Trump. Tal como Bill Clinton em dezembro de 1998, quando bombardeou por quatro dias seguidos as tropas de Saddam Hussein, precisamente com um impeachment a decorrer, Trump pensa que a investida em Bagdad vai garantir a coesão dos republicanos no Senado e alargar a base de apoio até novembro. O problema, contudo, não está no imediatismo do cálculo tático feito pelo presidente, mas no que não foi pensado.

Primeiro, o Iraque de Saddam não é o Irão de Suleimani, de Rouhani e de Khamenei. Se aquele era um resistente confinado às fronteiras com pulso forte, o Irão atual construiu uma rede regional de apoios leais com acesso a meios militares que tornam qualquer ideia de guerra numa escalada apocalíptica. Neste momento, todo o pessoal diplomático e militar norte-americano tem a cabeça a prémio na região. Duvido que Washington a conheça melhor do que Teerão.

Além disso, se as baixas forem incomportáveis para Trump, este vê a sua aparente vantagem política interna transformar-se num calvário, potencialmente desagregador dessa tão sonhada base eleitoral alargada. Não há, na Casa Branca, ninguém com experiência na região que tenha acautelado planos alargados de contingência em função da resposta maciça iraniana? Provavelmente, não. As assessorias foram esvaziadas de conhecimento em detrimento de lealdades pueris e a articulação entre os vários órgãos que, em acesa concorrência, formulam a política externa americana, tem exposto a sua prolongada fragilidade. Trump pode ter dado o tiro certeiro mais arriscado do seu mandato, mas com efeitos tão erráticos como incontroláveis. Também será avaliado por isso.

Investigador universitário

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