"Quero que vejam em mim uma atleta e não a menina que salta da cadeira para o cavalo"

Nome: Rita. Idade: 22 anos. Incapacidade: Mobilidade reduzida, por paralisia cerebral. Habilitações: 2.º ano de Ciências da Comunicação. Metas: Jornalista de Desporto. Sonhos: Jogos Olímpicos.

A apresentação de Rita Lagartinho está feita. É simples e pequena. Mas há muito mais a dizer de Rita, jovem determinada, sorriso imenso, humor ainda maior e de paixão nos olhos pelos cavalos e desporto. Tem um sonho: Ir a uns jogos olímpicos. Precisa de patrocínios. Mas acredita que vai conseguir. Até porque "para mim não há meio-termo, quando faço é para fazer bem feito".

É atleta de competição, na modalidade de paradressage, e é assim que quer que a vejam. "Quero que olhem para mim como a atleta, que é o que sou, e não como a menina que salta da cadeira para o cavalo", esclarece logo, assim que conversamos sobre esta sua paixão, à hora de almoço no refeitório da Faculdade de Letras de Lisboa.

Rita é a segunda de trigémeas. A primeira, Inês, tem a mesma incapacidade, a terceira, Carolina, está bem. A mãe, Helena, recorda o tempo em que as três nasceram na maternidade do Hospital da Estefânia. "Foi mais uma situação durante o parto, tiraram o ventilador antes do tempo. A Carolina esteve sempre em risco de vida e nunca o tiraram, à Rita e à Inês, como era só para crescerem, tiraram-no ao fim de 48 horas."

Rita e Inês "ficaram com paralisia. Medidas economicistas dos nossos hospitais que resultam nisto. Hoje continua assim, a maior parte dos casos de paralisia ainda são durante os partos", argumenta, sem mágoa, mas com a tristeza e revolta de nada poder fazer em relação a algumas políticas que considera "não serem de uma sociedade evoluída".

Na altura, com mais duas filhas, uma de 16 anos e outra de 3, Helena viu-se a braços com três prematuras, duas com paralisia cerebral, e teve de deixar de trabalhar. Optou por ser cuidadora, por levar para a frente uma vida incessante de lutas pelos direitos de quem tem deficiência, sempre com a causa da inclusão, sempre com o sonho de qualquer mãe, um dia, elas próprias, haveriam de encontrar um sentido e um caminho para a vida. Hoje, com Rita e Inês na faculdade, esta última a tirar Estudos Portugueses, desabafa: "Tenho a plena convicção de que se estão aqui é porque não foram para uma instituição. Foi pelo que fiz."

Rita, mulher grande, assim podemos dizer, pela maturidade, pelo pensamento, pelos ideais, assiste à conversa, e reforça: "Tenho plena consciência de que era impossível estar aqui se tivesse sido institucionalizada. Se cheguei onde cheguei é porque desde sempre tenho tido todo o apoio e o estímulo da família e dos amigos." É pela força deles, que "nunca me fizeram sentir limitada, que me esqueço muitas vezes da cadeira onde estou sentada".

Com o corpo pequeno agarrado à cadeira, Rita fala do alto dos seus 22 anos, com a experiência de quem ouviu e sofreu o que não devia e o que não queria, mas fala, e sempre com um sorriso no rosto, com um entusiasmo contagiante, de quem ainda muito mais quer ter pela frente, apesar das barreiras.

"Se quiséssemos vir de transportes não podíamos. O metro da Cidade Universitária não é acessível, não tem elevador

Refeitório cheio. Autêntico cenário de uma aldeia global. A língua mais falada é o português, obviamente, mas também espanhol, italiano, alemão e até crioulo e mandarim. Não fosse uma faculdade de letras. À mesa, com a colega que lhe dá apoio à hora de almoço, Rita identifica-nos rapidamente, sorri para nós e estende-nos a mão: "Vou só almoçar, podem esperar um pouco?"

Quem a ajuda, afinal, é estagiária de um curso de serviço social. A faculdade tem um serviço de apoio a pessoas com deficiência só com voluntários. Aqui, diz, "sinto-me bem. Fazem menos perguntas e estão sempre prontos a ajudar-me. Há mais maturidade para estas situações. Eu própria já não tenho problema em pedir ajuda, monta-me o computador, passa-me o casaco, agora dá-me isto ou aquilo...", vai contando à medida que encolhe os ombros e nos tenta explicar tudo o que quer e com o que sonha para a vida.

O barulho ensurdecedor à volta não a incomoda. Está habituada. É naquele espaço que passa muitas horas à espera da irmã Inês. Os horários não são compatíveis e as duas têm de ir e vir da faculdade com a mãe. "Se quiséssemos vir de transportes não podíamos. O metro da Cidade Universitária não é acessível, não tem elevador", justifica. Uma situação detetada há anos, explicou ao DN a Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, "e que muito temos pressionado para que seja alterada. O Metro já teve a obra várias vezes em orçamento, mas não avançou". É uma empresa privada, é certo. Mas quem precisa, reclama: "O Estado não pode fiscalizar? Assim continuam a fazer o que querem", diz a jovem. E brinca: "Um dia ainda me ponho a vir pela IC19 a cavalo, porque assim não tenho medo. Quero ver se me multam."

"É uma enorme liberdade, aquela que não tenho no meu dia- a-dia. Sou eu que comando o meu próprio destino e isso vale por tudo."

Di-lo a rir, mas assume que é em cima de um cavalo que se sente totalmente livre. "É uma enorme liberdade, aquela que não tenho no meu dia-a-dia. Sou eu quem comanda o meu próprio destino e isso vale por tudo." Desde muito pequenas que ela e a irmã fazem terapias. Rita gostou sempre de hipoterapia, começou aos 3 anos no picadeiro do Campo Grande, exigiu sempre muito dela, quer do ponto de vista cognitivo, pela concentração que impõe, pelo equilíbrio, quer do ponto de vista físico, a exigência que faz do corpo, dos músculos, que tantas vezes teimam em não responder.

Dedicou-se de corpo e alma à atividade. Há oito anos foi surpreendida pelos próprios terapeutas, que a aconselharam a mudar de picadeiro e a avançar para um nível mais elevado, o da competição. A mãe achou que "era uma grande loucura, ela tão frágil em cima de um cavalo a competir? Achava que estávamos a dar um passo maior do que a perna", conta. Mas Rita foi avaliada por um treinador e pelo centro equestre onde poderia fazer a modalidade e "eles disseram-nos que devíamos ir para a frente com este objetivo, que iam apostar nela. A partir daí a Rita teve um estímulo incrível na vida dela", admite a mãe.

Rita sempre teve boas notas, a mais baixa que permitia a si própria era um 13, mas naquela altura tudo melhorou. Há oito anos na Academia João Cardiga treina uma vez por semana com o treinador de sempre, João Monteiro, 34 anos, a ensinar há 12 anos, mas desde os 8 na equitação.

A partir daí, como diz a mãe, o trabalho e as despesas nunca mais pararam, "se ela não gostasse tanto e ela não tivesse este sonho, já tinha desistido", confessa. Houve que escolher um cavalo apropriado para ela, "manso, com cabeça, bom passo e que não se assustasse", e investir nele, apadrinhando-o, "o cavalo não é nosso, mas as despesas são todas por nossa conta", explica a mãe. Houve que adaptar uma sela, outro investimento, mas "acreditei nos treinadores e cá estamos".

"É uma enorme liberdade, aquela que não tenho no meu dia- a-dia. Sou eu que comando o meu próprio destino e isso vale por tudo."

É em cima da Oposta, a égua com que treina agora que Rita diz com o seu sentido de humor: "Olhem para isto, tudo pode passar por ela que não se mexe. É uma morta viva", ri-se. O treinador tira-a da cadeira para a sela. Precisa sempre de ajuda, mas o seu rosto não se altera, sabe que tudo há de correr bem. Tem confiança de sobra na pessoa que lhe pega. "É o João na terra e Deus no céu", comenta a mãe.

Rita está preparada para mais um treino no picadeiro da academia de Queluz. Ali vai uma vez por semana, "deveria ser mais, pelo menos duas, mas as despesas já são muitas", explica Helena, embora diga que em alturas de provas "a Rita treina mais, tem de treinar, e, nesse aspeto, estou agradecida à academia por toda a ajuda que nos tem dado".

Entra a passo com a Oposta, endireita-se, o treinador vai-lhe dando indicações. "Ó Rita estás a olhar para onde? Endireita." Ela tenta, ajeita-se, concentra-se, ali não há espaço para olhar à volta. Passo a passo, letra a letra ela tem de se concentrar para fazer o percurso correto e sem faltas. Durante uma hora, como diz, não pensa em mais nada. No final, remata, "é isto que me dá pica".

Hoje já consegue conciliar a tensão entre as competições e a faculdade. Aliás, ela gosta do espírito competitivo, radical, conta que tem ainda um outro sonho, "saltar um dia de paraquedas", mas este poderá ficar para mais tarde. Agora tem de se concentrar nos campeonatos que aí vêm e no sonho de ir a uns jogos olímpicos.

Gostava que fosse já em 2020, em Tóquio, mas tal só será possível se conseguir patrocínios para fazer todos os campeonatos nacionais e internacionais e pontuar. O treinador diz-lhe que não pode perder a esperança e tem sempre de pensar positivo: "Trabalhamos cada vez mais para que ela se torne mais perfeita. Os treinos são mais intensos e ela precisa de muita concentração, mas é muito cumpridora. Sabe que não pode estagnar", afirma João.

A mãe só há pouco tempo conseguiu assistir a uma prova. "Tenho medo", mas não o transmite. "Só não sou capaz de ver quando ela está no picadeiro." Para cada prova, Rita prepara-se, concentra-se, hoje já consegue gerir melhor a pressão e até a frustração de quando as coisas não correm tão bem. "Ela tem a perfeita noção do que faz, quando corre bem sai de lá com um sorriso de todo o tamanho, quando não corre... chora." Ela ri ao comentário de João, e confessa, antes ficava demasiado irritada e chateada, mas penso que fiz mal e tento gerir todos estes sentimentos para avançar."

Livro solidário para conseguir patrocínios

Rita sonha poder integrar a equipa que voe até 2020 ou 2024 para os Jogos Paralímpicos. Sabe que talvez só o consiga por convite e não por pontuação, porque é assim que muitas vezes funciona para quem está a iniciar a competição, já que "os apoios e patrocínios vão sobretudo para quem já faz a modalidade há mais tempo. Eu estou a começar, há muitos colegas que começaram comigo e que desistiram por não poder continuar os treinos", argumenta, admitindo que até agora tem sido possível levar para a frente esta sua paixão só porque tem tido a ajuda de familiares e amigos", mas já não chega.

Não é de ficar parada. E, na forja, tem um novo projeto, um livro sobre cavalos. "Um livro solidário, de coautores, e que irá reunir fotografia, pintura e poesia. O Hugo Tavares, o Vítor Melo, o Monteiro Mendes, a Inês Lagartinho e ela", explica a mãe. Os coautores oferecem o trabalho, o livro está a ser construído, falta a verba para a impressão, e o que gostaria "é que fosse eu própria a produzir este livro, ficaria até mais barato, mas vamos ver", diz Rita.

Estudante, aficionada de boa comida, de cavalos, de desporto, de futebol, "muito futebol e do Benfica", Rita confessa-se também fã dos Florence + The Machine, banda que viu em concerto neste ano. Tem sonhos, mas um objetivo muito grande. Sair da faculdade e entrar no mercado de trabalho como qualquer outra pessoa. O que gosta? De jornalismo de desporto. "Gosto de escrever, mas gosto também de comentar. Aprendi a admirar muitas pessoas através da televisão."

Trabalhar num jornal ou numa estação de televisão é a meta a seguir. Sabe que não é fácil, "não é para ninguém não será para mim também. Mas nunca me senti coitadinha, rejeito essa visão, nunca me senti limitada". À mobilidade reduzida, prefere responder com diversidade funcional, às limitações prefere responder com uma vida independente.

Ao longo da semana o DN vai publicar seis reportagens que integram o trabalho sobre Deficiência: Um Mundo sem Limites

Ler mais

Exclusivos

Premium

Daniel Deusdado

Começar pelas portagens no centro nas cidades

É fácil falar a favor dos "pobres", difícil é mudar os nossos hábitos. Os cidadãos das grandes cidades têm na mão ferramentas simples para mudar este sistema, mas não as usam. Vejamos a seguinte conta: cada euro que um português coloca num transporte público vale por dois. Esse euro diminui o astronómico défice das empresas de transporte público. Esse mesmo euro fica em Portugal e não vai direto para a Arábia Saudita, Rússia ou outro produtor de petróleo - quase todos eles cleptodemocracias.

Premium

Brexit

"Não penso que Theresa May seja uma mulher muito confiável"

O diretor do gabinete em Bruxelas do think tank Open Europe afirma ao DN que a União Europeia não deve fechar a porta das negociações com o Reino Unido, mas considera que, para tal, Theresa May precisa de ser "mais clara". Vê a possibilidade de travar o Brexit como algo muito remoto, de "hipóteses muito reduzidas", dependente de muitos fatores difíceis de conjugar.