"Não tenho de convencer ninguém de que a matemática é cool. Isso é obviamente um facto"

Quer adivinhar o número do cartão de crédito do amigo? Ficar a saber o que significa o fator de um protetor solar? De uma forma divertida, Inês Guimarães, ou melhor, a youtuber MathGurl, explica tudo com teorias numéricas no livro Desafios Matemáticos Que Te Vão Enlouquecer, da Manuscrito, que agora chega às bancas.

De uma forma divertida, Inês Guimarães, ou melhor, a youtuber MathGurl, explica tudo com teorias numéricas no livro Desafios Matemáticos Que Te Vão Enlouquecer, da Manuscrito, que agora chega às bancas.

A youtuber, que tem 50 mil seguidores e 1,5 milhões de visualizações, fala-nos, a propósito deste livro, da sua paixão pela matemática e da forma descontraída e jovial com que apresenta os problemas. Aos 20 anos, Inês frequenta a licenciatura em Matemática na Universidade do Porto, foi medalha de prata nas Olimpíadas Portuguesas da Matemática e obteve a bolsa de iniciação científica Novos Desafios em Matemática da Gulbenkian... mas recusa ser uma croma da matemática. Com o canal - foi nomeada a melhor youtuber de ciência e tecnologia no YouFest Awards em 2018 - e com o livro quer que quem a vê e a lê fique com uma nova perspetiva da matemática. Nisso emprega humor, jovialidade e até alguns palavrões. Tudo com pronúncia do norte...

És uma croma da matemática? Na escola não te chamavam isso?

Para mim um cromo é só aquela cena que se cola nas cadernetas... Se sou entusiasta da matemática e é uma área que me interessa? Sim! Agora "croma"?! Acho que nunca me chamaram isso, a não ser uma vez ou outra na brincadeira. Até porque sempre fui bastante "normal".

Que notas tinhas no secundário. Sempre vintes ou alguma vez tiveste uma nega?

Tinha notas altas, sim, mas não era sempre 20. A disciplina de que menos gostava e em que mais dificuldades tinha era Biologia. Aquelas perguntas eram horríveis... Mas, apesar de na altura ter estudado para os testes e exames, obviamente, tenho a noção de que as notas não dizem tudo sobre uma pessoa e interessava-me mais realmente aprender coisas de que gostava, independentemente de serem dadas na escola ou não. E não, acho que nunca tive uma nega.

E nas disciplinas mais ligadas à parte de letras, como o Português ou a História?

Também tinha notas altas. Às vezes achava História um bocado seca, mas ainda assim lembro-me de que houve algumas épocas que até me deram gosto estudar e apanhei bons professores. Acho que, no final de contas, fiquei com uma opinião positiva da disciplina. De Português também gostava imenso, especialmente no secundário, com Fernando Pessoa, e poesia em geral. De facto, as disciplinas no secundário de que mais gostei foram provavelmente Filosofia, Português e Inglês (não incluo aqui a Matemática porque a partir de certa altura não ligava muito às aulas).

A Matemática sempre foi a tua disciplina preferida ou houve algum momento de viragem?

Sim, acho que sempre foi a minha disciplina preferida, juntamente com Ciências Naturais até ao 7.º ano, mas a partir daí dediquei-me muito mais à matemática e comecei mesmo a "investir" na área. Foi como se tivesse descoberto um mundo novo, um propósito.

Há mesmo quem nasça sem jeitinho nenhum para os números?

É assim, eu acredito profundamente que há quem tenha mais jeito para a matemática, mais aptidão, mais talento. Mas, a partir de certo ponto, acho que o trabalho é mais preponderante no sucesso de uma pessoa. Por exemplo, no meu caso, eu não tenho nenhuma aptidão especial, não tenho mesmo, simplesmente comecei a trabalhar, a resolver muitos problemas e a ler sobre a área. Fui gostando e aprendendo pelo caminho. Às vezes é frustrante vermos pessoas que com pouco esforço alcançam certas coisas que a nós nos custaram imenso, mas o que importa é gostarmos do que fazemos. E, indubitavelmente, o empenho, a determinação e perseverança são fundamentais para sermos bem-sucedidos numa área. Portanto, não acho que haja propriamente gente "sem jeitinho nenhum", a não ser que sofram mesmo de alguma deficiência mental, mas isso não é para aqui chamado...

"Não acho que haja propriamente gente 'sem jeitinho nenhum', a não ser que sofram mesmo de alguma deficiência mental"

Convence-me a mim e a quem não percebe nada de números, teoremas e equações de que a matemática é cool...

Começo por dizer que não tenho de convencer ninguém de que a matemática é cool. Isso é obviamente um facto [risos]. Vá, falando mais a sério, cada um tem os seus gostos, uns gostam de futebol, outros de culinária, outros de... matemática. Não estou à espera de que toda a gente aprecie a área nem tenho de andar por aí a espalhar a "palavra do Senhor" para converter as pessoas para a matemática. Mas a verdade é que é uma disciplina tão vasta, com tantas características distintas, abordagens diferentes e argumentos tão criativos, que quase de certeza que existe alguma maneira de encarar a matemática e alguma área (tipo geometria, álgebra, aritmética...) que seja ao gosto de cada um. Acima de tudo, é uma ótima fonte para exercitarmos o nosso cérebro e aprimorarmos o raciocínio lógico, que são características fundamentais para pensar e argumentar com clareza e não sermos enganados facilmente, porque aprendemos a analisar de forma crítica as situações com que nos cruzamos.

De onde te surgiu a ideia para criar o MathGurl?

Estava no 12.º ano e tinha muito tempo livre. Já tinha participado em vários concursos para fazer vídeos a explicar coisas de ciência, por exemplo, e adorava a experiência, comunicar. Então pareceu-me boa ideia unir as vertentes da comunicação, do espetáculo e da matemática. Achava que existiam imensos factos superinteressantes de matemática que as pessoas podiam gostar de saber e foi uma forma de fazer algo mais criativo, como e quando eu quisesse.

O que pretendes com este canal?

Acima de tudo, quero produzir conteúdo de que eu gosto, que me deixe orgulhosa, quero acabar um vídeo e pensar "eh pá, eu até transmiti isto de forma interessante". Quero fazer que as pessoas possivelmente adquiram uma perspetiva diferente sobre a matemática e, acima de tudo, que se entretenham e divirtam a ver os vídeos, sem sentirem a obrigação de que têm de aprender tudo o que digo.

Curiosamente, o teu canal é mais seguido no Brasil do que em Portugal. Porquê?

Há vários fatores que podem contribuir para isso. O principal motivo é o facto de eles serem para aí 20 vezes mais do que nós, diria. E creio que têm mais o hábito de ver videoaulas e levar um estudo mais independente, pelo menos há bastantes canais educacionais brasileiros. Para além disso, logo nos primórdios do canal, houve um professor do Brasil, o Rafael Procópio, do canal Matemática Rio, que divulgou o meu trabalho, dando logo aquele push inicial para o Brasil. Ah, acho que a malta de lá também acha piada ao meu sotaque do norte...

"Quero que as pessoas se entretenham e divirtam a ver os vídeos, sem sentirem a obrigação de que têm de aprender tudo o que digo"

De onde tem vêm as ideias para aqueles problemas?

Quando era mais nova li vários livros de divulgação científica, tendo contactado com muitas curiosidades e problemas de matemática interessantes. Depois também resolvi muitos problemas das Olimpíadas de Matemática, por exemplo. Atualmente, o Google, as aulas e as sugestões de amigos, professores ou seguidores são a minha fonte de inspiração. Os problemas do livro provêm de todas estas fontes.

Achas que têm aplicação na vida real? As pessoas aprendem matemática com eles ou divertem-se?

Quero acreditar que servem para as duas coisas. Espero que mesmo quem não entenda tudo aquilo que digo aprenda qualquer coisa de matemática com os vídeos ou fique com uma noção mais geral de como a matemática funciona. Os meus vídeos são muito diversificados, contemplando quer curiosidades de matemática, histórias de matemáticos, ou até assuntos um pouco mais técnicos, mas com vários níveis de dificuldade para ninguém ser excluído. Uns são mais de entretenimento, outros são mais educacionais.

"Normalmente os palavrões são encenados porque eu não digo palavrões (em português, porque em inglês saem-me com frequência)"

A forma como falas, os WTF, os palavrões... é tudo genuíno ou encenado para alcançar mais subscritores?

Normalmente os palavrões são encenados porque eu não digo palavrões (em português, porque em inglês saem-me com frequência), utilizo-os apenas para embelezar certas frases, dão aquele toquezinho especial, embora os censure sempre. Mas não é para "conseguir mais subscritores", é mesmo porque acho que tem a sua piada, é para fins artísticos.

O que queres transmitir com este livro?

Gostava simplesmente que as pessoas tivessem prazer a lê-lo e sentissem que ganharam alguma coisa ao fazê-lo. O livro, tal como os vídeos, pretende unir a componente do entretenimento, mais humorística, com a componente educativa, matemática. O ideal é levar uma leitura descontraída, mas, ao mesmo tempo, ir tentando resolver os problemas que vão aparecendo, sem ver logo a resposta. Se tudo correr bem, mesmo quem não sabe muito de matemática vai conseguir resolver alguns e aprender com outros, e quem já está por dentro da área provavelmente vai ser surpreendido pela forma como tudo é apresentado. Ou então se calhar está uma porcaria e vai acabar na lareira, a aquecer as casas no inverno. De qualquer modo, se com este livro conseguir motivar uma pessoa que seja para a matemática, já ficarei contente!

Já foste convidada a discursar na TEDx. Que mais desejas? A Web Summit?

A Web Summit é uma conferência direcionada para a tecnologia, portanto não tem muito que ver com aquilo que faço... Neste momento não tenho nenhum grande desejo, sinceramente. Quer dizer, gostava de eventualmente fazer alguma coisa de jeito em matemática mais "a sério", mas duvido que vá acontecer.

Achas que um dia ganharás uma Medalha Fields [espécie de Nobel da Matemática]?

Não. Não mesmo. Até porque provavelmente nem vou trabalhar para isso.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Bernardo Pires de Lima

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?