Eritreia.Quando Mussolini quis ser moderno

Mala de viagem (57). Um retrato muito pessoal da Eritreia.

O ditador italiano Benito Mussolini quis criar uma soberania colonial. Era a ambição de um segundo Império Romano, incluindo territórios da bacia do Mediterrâneo e a conseguida ocupação da Etiópia (1936-1941), mas neste caso quase esgotou as finanças italianas, levando ao enfraquecimento militar no conflito bélico mundial de 1939-1945 e, depois, ao fim do projeto imperialista da "Grande Itália". Neste âmbito, anteriormente, a colónia africana da Eritreia já fora fundada, em 1890, para dar continuidade a um processo de colonização que se iniciara, em 1869, logo após a abertura do Canal do Suez. Asmara passou a ser vista como a sede do poder italiano em África e o local ideal para dar continuidade à invasão da Itália no continente. Na viragem do século, Asmara era uma pequena aldeia. Porém, no censo de 1939, já havia no país cerca de 100 mil italianos, numa população total de um milhão de habitantes. A capital era o centro de um desenvolvimento arquitetónico e industrial de primeira ordem em África e conhecida como "Piccola Roma", mas que renegava as heranças estilísticas e o vernáculo, optando pela inovação arquitetónica, apropriada pelo movimento fascista. Só que este modernismo não era para os nativos desfrutarem, o que intensificou a segregação. Após 1935, Asmara passou por um grande programa de construção, aplicando o traço racionalista italiano da época em edifícios institucionais, residenciais e de equipamento, até 1941, no ano em que os colonizadores partiram. Por esse motivo, viajei com um grupo de alunos italianos de arquitetura em Portugal, de quem fui docente, que organizou uma visita de estudo. A preparação da viagem não foi fácil, pelo facto de o visto ser um dos mais difíceis, mas a intenção do grupo valeu-nos uma atenção e algumas ajudas essenciais para se conseguir a documentação e a estada apenas na capital, pois é necessária uma nova licença para ir para além dela. Foi na Estação de Serviço Fiat Tagliero que o grupo iniciou o périplo pelo conjunto mais concentrado e intacto da arquitetura modernista italiana, em qualquer parte do mundo. A Estação de Serviço foi desenhada pelo engenheiro civil Giuseppe Pettazzi, assemelhando-se a um avião, com asas de betão armado, sem pilares, apesar de estas terem sido criticadas pelas autoridades locais e pelo empreiteiro, com medo de colapso. O projetista chegou a ameaçar matar o empreiteiro se a obra não fosse como a tinha concebido; e mesmo no dia da inauguração, antes de se retirarem as estacas de madeira, ele subiu às asas com uma arma na mão. Tudo ficou intacto até aos dias de hoje. Embora com edifícios marcados pela idade, sente-se uma cultura enraizada pela arquitetura modernista e por outros sinais italianos relacionados com o comércio - casas de gelados, por exemplo, para o residente e o turista desfrutarem, para fazerem face ao calor intenso. Com um passado moderno, mas segregador, presentemente a Eritreia é chamada "Coreia do Norte da África", pelo facto de ter o regime mais fechado do continente e de ser considerada "a nação com mais censura no mundo". A arquitetura modernista testemunha, portanto, o auge e o declínio do que é "ser moderno", mas hoje como ontem esse estado de alma não existe necessariamente sob os auspícios do totalitarismo, em qualquer parte do mundo, antes pelo contrário. "Ser moderno" é regressar ao natural e à essência, livre das exigências e das expectativas de uma sociedade com valores cada vez mais questionáveis, tanto em regimes totalitários, como em regimes democráticos.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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