Um Verão mesmo à mão (1)

Larry e Nancy começaram a fazer planos para irem para o paraíso. A mãe, Louisa Durrell, quando soube, anunciou que toda a família iria para Corfu, obviamente.

"Em Kalami, os dias passavam como uma canção." Foi esta a suave lembrança que Henry Miller deixou num dos seus mais belos e mais amados livros, O Colosso de Maroussi. O autor de Trópico de Câncer fora até Kalami, na ilha grega de Corfu, a convite de outro escritor, mais jovem, que lhe venerava a obra com devoção quase insana. Que Lawrence Durrell viveu em Corfu com a sua família, com a sua família e outros animais, para usar o título da famosa obra do seu irmão mais novo, Gerald, que a família Durrell viveu em Corfu, que lá passou dias felizes como uma canção, é algo que todos sabem (agora até há uma série televisiva sobre eles).

A estada dos Durrells em Corfu, hoje convertida em curiosidade turística ou lugar-comum cultural, tem sido tratada de várias maneiras, quase sempre em tons luminosos e romantizados, pois foram de facto felizes, felizes como uma canção, aqueles dias passados ao sol de Corfu, junto à inocência das gentes. Felicidade tanto maior quanto lá longe - e, por vezes, não tão ao longe - o espectro da guerra nunca deixou de pairar sobre aquela tribo excêntrica. Da guerra que acabara de findar, e cujos efeitos ainda se faziam sentir por toda a Europa, mas também da guerra prestes a começar, e cujos sinais se acastelavam a cada dia no horizonte, como a nuvem negra e ameaçadora que se perfila no céu, pronta a abater-se sobre um piquenique em campo aberto.

No princípio de Agosto de 1937, Lawrence Durrell e a mulher apearam-se do comboio que os trouxera do sul de França até Paris e dirigiram-se à Villa Seurat, no 14.º bairro, morada de Henry Miller e seu palco de boémia e sexo. Lawrence e Nancy, que iam desafiar o americano para grandes aventuras literárias que nunca chegariam a concretizar-se, não poderiam ser mais diferentes entre si: ele, baixo e atarracado, uma figura grotesca que parecia um gnomo de jardim ou um anão maléfico; ela, uma loira alta e esguia que muitos comparavam a Greta Garbo, outros a um leopardo, a um flamingo ou a uma corça selvagem. "A mais bela mulher que alguma vez vi", dirá dela um bom amigo.

O contraste ia muito para além da aparência física, estendendo-se ao essencial da personalidade de cada qual: Lawrence, vulcânico e trepidante, falava incessantemente, contava histórias atrás de histórias, entre risos e gritos, dominava todos os ambientes de forma tirânica, atraindo os presentes pela sua energia vital e pelo seu amor ao mundo; Nancy sóbria e discreta, sereníssima, sempre calada, era admirada pela sua beleza, mas, de igual modo, pela sua maturidade, muito maior do que a dele.

Viviam então em Corfu, no norte da ilha, a dois passos de uma povoação chamada Kalami. A Casa Branca, que o clã Durrell partilhava com o seu proprietário e família, um pescador, era espartana, quase primitiva, sem água canalizada nem luz eléctrica. Mas o lugar era assombroso; a casa erguia-se sobre as águas, fundindo-se com elas, como um navio naufragado, e o mar até onde a vista alcança, com a costa da Albânia recortada ao fundo. Em redor, enseadas secretas e baías desérticas, pinhais a descerem até à água, o odor da resina mesclado com cheiros de mil e uma plantas silvestres. Não longe, num cume orlado de oliveiras, um santuário ao abandono, quase inacessível, só visitado em alturas de festa. Os habitantes da ilha eram afáveis e hospitaleiros e, mesmo com a incomodidade do escândalo, já se tinham habituado às originalidades daquela família inglesa, cujos membros mais novos andavam nus pelas praias e gostavam de tomar banho ao luar.

Larry adorava tudo aquilo, nos antípodas da odiada Inglaterra, a que chamava com desprezo "Pudding Island". Nancy encontrou no clã Durrell uma família adoptiva, que lhe dava tudo em que os seus pais falharam: o pai era um homem frágil e amedrontado, que se arruinara pelo vício do jogo, a ponto de não ter hesitado sequer em usurpar e desbaratar as magras poupanças da sua filha; a mãe, dominadora e tirânica, incapaz da menor demonstração de afecto, era uma vítima patética, mas cruel, do sistema de castas britânico, vivendo permanentemente angustiada com receio de que os outros percebessem que, devido ao vício do marido, tinham sofrido um dramático déclassement social e económico.

Nancy nascera num mundo de sonho, rodeada de criados e de luxo, mas, subitamente, tudo isso desaparecera, da noite para o dia, e a família Myers teve de despedir o mordomo e o cozinheiro e de se mudar às pressas para Gainsborough, uma cidadezinha industrial do Lincolnshire, morando agora num apartamento minúsculo, emparedado pelo muro alto de uma fábrica colossal e ruidosa. A marca dessa tragédia familiar e íntima fez-se sentir por longos anos e, de uma forma ou doutra, esteve sempre presente até à morte dela, em 1983, de cancro.

Como tantas vezes sucede, a mãe de Nancy descarregou sobre a filha as suas frustrações e angústias, a sua revolta ao ver que os vizinhos de Gainsborough, apesar de não terem a mesma educação e o mesmo estatuto social dos Myers, eram mais ricos (ou menos pobres) do que eles e viviam substancialmente melhor do ponto de vista material. Nancy cresceu sob a permanente acusação de ser uma falhada e um desastre em tudo, passando a infância e a juventude praticamente só, sem amigos, sendo alvo recorrente de escárnio e de bullying das suas colegas de escola. No final da adolescência, porém, começou a tornar-se uma mulher de extrema e rara beleza, mas ainda muito ingénua e incapaz de se mover com segurança num mundo dominado pelos homens. Por um golpe de sorte, conseguiu escapar das garras maternas e foi estudar Belas-Artes para Londres, onde foi admitida na exigente Slade School of Fine Art, à época dirigida pelo lendário Henry Tonks, professor nessa escola durante mais de quatro décadas.

A liberdade conquistada a ferros e a companhia de algumas colegas da Slade produziram a metamorfose e, aos poucos, Nancy Myers deixou de ser uma colegial tímida para se tornar uma boémia sexy, a que nunca faltavam pretendentes. Nem isso, contudo, lhe trouxe a autoconfiança a que aspirava e, como seria de esperar, os seus primeiros namoros tiveram desenlaces fatídicos: um deles, Vladimir Glass, um russo que estudava Medicina e nutria ambições artísticas, procurou iniciá-la nos prazeres da carne, chegando a emprestar-lhe o Kama Sutra como livro de estudo e a ministrar-lhe lições de anatomia com impecável rigor clínico. A coisa terminou porque Vladimir, nas aulas práticas sobre como se beijam os casais, repugnava-a com o seu mau hálito e com o péssimo hábito de lhe sussurrar ao ouvido "impregnada", logo que acabava de a oscular. Depois, houve outros, não muitos, mas para a sua educação sentimental as ávidas leituras de Aldous Huxley, D. H. Lawrence ou Evelyn Waugh foram muito mais importantes do que os casos episódicos que ia tendo aqui e ali.

Não são muito claras as circunstâncias em que Nancy conheceu Larry, e o facto de um acontecimento desses se ter esfumado da memória de ambos não deixa de ser significativo, como bem refere Joanna Hodgkin, filha de Nancy e do seu segundo marido, no melhor livro que existe sobre aquilo a que chama "um casamento boémio" Amateurs in Eden. The Story of a Bohemian Marriage: Nancy and Lawrence Durrell (Virago, 2012). Na altura, Nancy continuava a ser uma jovem inexperiente (a própria dirá, mais tarde, que não tinha percebido então o que era o sexo) e socialmente inepta, que acumulava gafes por onde passava, muito fruto de uma infância e uma adolescência vividas em solidão completa. Apesar disso, já tivera o seu primeiro e grande amor, Roger Pettiward, um Adónis formado em Oxford que frequentava a Slade por puro deleite.

Simplesmente, Roger decidira aceitar o convite do capitão Percy Fawcett para fazer parte da célebre expedição que partiu em busca de uma lendária "cidade perdida" nos confins de Mato Grosso. E quando regressou do Brasil remoto, não só Nancy já conhecera Larry como Roger, para piorar as coisas, tratara-a com inexplicável indiferença. Nunca mais se veriam e Roger morreria heroicamente em combate, em 1942, na batalha de Dieppe. De permeio, pretendentes que aspiravam a ser escritores, como John Gawsworth e George Wilkinson, acabando este último por ter um papel decisivo na ida dos Durrell para Corfu, como adiante veremos.

Na época, Larry escrevia uns poemas, tocava jazz em clubes nocturnos do Soho, mas não tinha ainda a intenção declarada de se dedicar a tempo inteiro à escrita, ganhando a vida como agente imobiliário, após uma fracassada tentativa de estudar em Oxford. A morte repentina do seu pai, em 1928, dar-lhe-á uma parte da herança, a qual, não sendo uma fortuna, lhe permitiu largar a profissão de vendedor de imóveis e alimentar, doravante, o projecto de escrever um grande e retumbante romance. Também Nancy receberá uma herança de uma tia, pelo que, durante uns tempos, o casal não teve preocupações materiais urgentes. Investiram uma parte do dinheiro num estúdio de fotografia, alugaram a cave de um café, compraram material e contrataram assistentes, mas o seu amadorismo era tal que a Witch Photos, assim se chamava a empresa, praticamente morreu à nascença (não sem antes ter tido um único cliente, um homem que Nancy considerava "vulgar" e que os contactou para fazerem uma campanha publicitária de lingerie feminina).

Acabaram por arrendar um cottage em Loxwood, no Sussex, onde se fixaram na companhia de George Wilkinson. Os dois homens iriam tentar a sorte na escrita, e ela no desenho e na pintura, mas, desse trio, apenas Larry conseguiu concluir com êxito o seu projecto literário, aquele que viria a ser o seu romance de estreia, Pied Piper of Lovers, publicado em 1935. Nancy, ao invés, continuava a ser uma mulher insegura, que não acreditava no seu indiscutível talento para as belas-artes, e George, como escritor, não possuía mais do que boas intenções e uma incrível semelhança física com Lytton Strachey.

Apesar da modéstia do cottage, que nem sequer tinha casa de banho, Nancy recordará esses tempos como uma época feliz e tranquila, longe do bulício de Londres e da influência sufocante da sua família. Os Durrells não podiam ser mais diferentes dos Myers, eram ruidosos e alegres, indisciplinados, viviam numa anarquia completa em que cada qual fazia o que queria e não existiam horas para as refeições. O primeiro contacto, todavia, não fora auspicioso: na noite de estreia de Nancy em casa de Louisa Durrell, quando ainda não estavam casados, Larry metera-se e adormecera na cama da namorada, no quarto ao lado onde dormia a matriarca com Gerry, o filho mais novo, na altura uma criança (que dormirá com a mãe até aos 7 anos...). Na manhã seguinte, quando descobriu, Louise expulsou-os de casa, após uma discussão tremenda, na qual Larry não teve pudor em chamar-lhe "tonta" e outros mimos, algo que deixou Nancy boquiaberta. Mas, um par de semanas depois, acalmada a fúria materna, regressaram alegremente e ficaram a dormir juntos no mesmo quarto sem que a mãe Durrell tenha feito o mínimo comentário reprovador. Casaram-se em Janeiro de 1935, no registo civil de Bornemouth, sem terem dito nada a ninguém. Louisa ficou encantada com a notícia e adoptou a nora como filha sua.

Talvez a decisão de se casarem tenha sido precipitada pelas cartas que recebiam de Corfu, sedutoras como o canto das sereias. George Wilkinson e a namorada, Pam Black, tinham decidido fazer uma volta de bicicleta pela Europa, até à Grécia ou mais além. Estavam na ilha desde Agosto de 1934, e as cartas e os postais que daí enviavam eram cada vez mais entusiásticos. Falavam do sol brilhante e de águas cálidas, transparentes como cristal. No Natal, mandaram um mapa desenhado à mão com os pontos mais salientes da ilha encantada. A acompanhá-lo, um poema de George que terminava assim: "Surely such December heat/Must make the case for the novelty complete?"

Larry e Nancy começaram a fazer planos para o paraíso. A mãe, Louisa, quando soube, anunciou que iriam todos, obviamente. Em carta para George, Larry comunicou-lhe o projecto, mas acrescentou que, apesar de tudo, ele e Nancy pretendiam morar numa pequena casa só deles, ainda que não muito longe da residência da matriarca, dos seus três outros filhos - Margo, Leslie e Gerry - e do membro mais novo da família: Roger, o cão peludo.

Esta é a versão oficial da história, contada em tons luminosos e imortalizada por Gerry na sua Trilogia de Corfu, na qual se destaca A Minha Família e Outros Animais, de 1956, e também por Lawrence, no manifesto de amor que dedicou à ilha, Prospero's Cell, de 1945. É também essa, naturalmente, a versão relatada na série televisiva há pouco transmitida pela RTP 2 e noutros telefilmes feitos sobre os Durrells.

A realidade, contudo, é um pouco diversa - e não tão risonha. Se até a história oficial reconhece que a decisão de irem para Corfu foi motivada, em parte, por razões financeiras, pois Louisa, apesar de toda a loucura, estava consciente de que a herança do marido começava a escassear na dispendiosa Inglaterra, o que não se conta é que a matriarca Durrell enfrentava à época uma fase negra da sua vida.

Louisa nunca recuperara da perda de uma filha, Margery, morta com difteria poucos dias depois de nascer, nem do desaparecimento do marido, após um doloroso calvário causado, ao que tudo indica, por um tumor no cérebro. Foi a morte do patriarca que motivara a vinda dos Durrells para Inglaterra, uma ruptura existencial que deixou irreversíveis marcas em todos eles, mas sobretudo em Louisa, que nunca tinha vivido noutro lugar que não a Índia. A sua família e a do marido tinham-se estabelecido aí há várias gerações, pertenciam não à elite dos colonos de nomes ilustres ou de grandes fortunas, mas a um tipo social muito peculiar, só compreensível no contexto colonial, o da média burguesia que, ao longo de décadas, criara raízes profundas no país exótico, sem nunca ter posto os pés na terra de origem. Esta era ainda o lugar de referência para muita coisa, para os hábitos de vida e para modo de vestir, para o idioma falado e para as leituras, para os ritos sociais. Mas tudo o mais pertencia já a outro mundo, ao novo mundo, ainda que este não fosse inteiramente seu, mas dos autênticos e puros nativos. Viviam, pois, estilhaçados entre dois universos, porventura absorvendo o melhor de cada qual, mas com uma incerteza constante, às vezes dilacerante, sobre a que mundo pertenciam - e quem verdadeiramente eram.

Se a família de Nancy, devorada pelas dívidas de jogo, sentia a eterna inquietação de ter de viver num meio social muito diverso - e mais baixo - do originário, a família de Larry fora tragada pelos dilemas dos impérios. Com 9 ou 10 anos, Larry fora internado num colégio interno em Inglaterra, a milhares de quilómetros de distância da mãe e do pai, cuja morte repentina lhe foi comunicada por telegrama.

Em ambos os casos - a falência ao jogo e a doença mortal -, tinham sido dois acontecimentos súbitos e imprevistos a motivar o destino daquelas duas famílias. Havia, pois, muito mais a irmanar Larry e Nancy do que aquilo que se poderia supor à primeira vista: ele, um gnomo atarracado cheio de energia e autoconfiança; ela, uma beldade nórdica e serena, em permanente dúvida sobre o seu talento.

Louisa acreditava em fantasmas, via-os por todo o lado. Nas casas que tivera na Índia (e foram muitas, pois o marido, engenheiro dos caminhos-de-ferro, vivia em errância contínua), na moradia em Bournemouth, junto ao mar, onde se estabeleceu quando veio para a Inglaterra. A par deles, um fantasma maior e mais perigoso, o da bebida. E, com a bebida, outros fantasmas ainda, que a faziam alhear-se do mundo por longos períodos. Esta faceta menos solar dos Durrells, tão ou mais importante do que aquela que é narrada na história oficial da Casa Branca de Kalami, foi desvendada não há muito, tendo por base um conjunto de notas autobiográficas de Gerald Durrell, as quais, apesar de ainda hoje permanecerem inéditas, puderam ser consultadas por Michael Haag, autor do livro The Durrells of Corfu, saído em 2017.

Os sinais de crise avolumavam-se a cada dia, maiores e mais ameaçadores, como nuvens negras prestes a abater-se sobre um piquenique em campo aberto. Por um pequeno incidente, Louisa retirara Gerry da escola para sempre, o que levou a que, desde os 9 anos, nunca mais tivesse tido uma educação formal (o que não o impediu de se tornar um notável zoólogo amador, mundialmente respeitado). Larry observava com inquietação crescente os hábitos da mãe com a bebida e já não encarava com a bonomia de outrora o facto de Louisa se ir deitar todas as noites na companhia de uma garrafa de gin. Leslie, por sua vez, só tinha um interesse na vida, disparar com a sua arma sobre tudo quanto mexesse, e Margo era terrivelmente infeliz no colégio interno, de onde se despediu mal soube do projecto familiar de mudança para Corfu.

Não era a Índia, mas quase. Poucos anos antes, em Outubro de 1932, e num gesto impensado, Louisa Durrell comprara dois bilhetes no SS City of Calcutta, rumo ao Oriente. Na lista dos passageiros, ainda hoje existente, constam dois nomes, o seu e o do pequeno Gerry, com um risco a assinalar que acabaram por não subir a bordo. Logo após esse incidente estranho, Louisa desapareceu de casa durante um par de semanas e acabou por ter de ser internada numa casa de repouso.

Agora, no advento de uma nova crise, porventura mais grave do que a anterior, havia que tentar a fuga, uma vez mais. Mas, desta vez, na companhia de todos: além de Louisa, Lawrence e Nancy, Leslie, Margo, Gerry e Roger, o cão peludo.

Larry e Nancy partiram à frente, rumo a Brindisi.

(Continua)

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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