Os coveiros da democracia americana

O que se retira do pior debate da história americana? Quais as principais dinâmicas em curso na campanha? Que efeitos pode ter a quarentena de Trump? Estas eleições têm condimentos perigosos, bizarros e irresponsáveis, coveiros, abutres e salvadores. Não são por isto mais uma eleição hollywoodesca, mas a linha que separa a democracia americana entre uma convalescença decente e a falência contínua dos seus órgão vitais.

Ter sido o pior debate da história política americana não retira importância ao que ali foi dito. Apesar da cacofonia, do caos e dos insultos, houve duas respostas dadas por Trump que, mais uma vez, definiram a personagem e marcarão as cenas dos próximos capítulos. As duas estão relacionadas. A primeira provou novamente que Trump é incapaz de condenar e demarcar-se de grupos supremacistas brancos, o mesmo é dizer que, além de os promover e enlamear a democracia americana com o pior dos seus fantasmas históricos, oficializa a morte do partido de Lincoln. Basta referir que poucas ou nenhumas vozes de congressistas republicanos tiveram a dignidade de se afastar daquela ignóbil colagem, o que diz tudo sobre o estado vegetativo do partido.

Uma das grandes questões destes anos de trumpismo está exatamente em saber o que restará de uma instituição como o GOP, historicamente fundamental ao equilíbrio do sistema, à robustez das reformas, à eficácia do combate a crises, ao papel da América no mundo. O que se vê é uma falência moral a todos os níveis, um culto do chefe ao melhor estilo dos regimes autoritários, um promotor aberto de bloqueios legislativos e, já nesta fase de campanha, uma ameaça clara à integridade eleitoral, criando todas as condições para boicotar a logística do voto por correio. Veja-se a ordem recente dada pelo governador republicano do Texas, Greg Abbott, para serem reduzidos drasticamente os postos de recolha do voto por correspondência, de forma a limitar a participação eleitoral cuja adesão tende a favorecer os democratas. A direita americana (bem como a direita noutras paragens ocidentais) é hoje uma ameaça à democracia, à Constituição e à segurança nacional dos EUA.

A segunda resposta ligou a repetida acusação de fraude eleitoral antecipada ao não reconhecimento de uma eventual derrota, alterando a prática constitucional que assegura a normalidade nos períodos de transição entre administrações. Pior: atiçou o "seu povo", parte dele composto por milícias totalmente militarizadas para monitorizarem de perto locais de voto pelo país, assumindo uma postura em que esvazia o primado da lei, a capacidade organizativa eleitoral do seu país, e promove um clima de guerrilha nacional tão perigosa como irresponsável. Talvez muitos não se recordem, mas, mesmo depois de ser eleito em 2016, Trump acusou Hillary Clinton de ter beneficiado de três milhões de votos de imigrantes ilegais, exatamente para tentar esvaziar o argumento da vitória da democrata no voto popular por pouco mais de dois milhões e 800 mil votos. A lama na ventoinha da democracia não é um coelho tirado da cartola de Trump, é uma estratégia consolidada de desprezo pelos adversários, pelas regras da democracia e pelos americanos.

Se o debate provou que Trump nunca quis respeitar a regra acordada entre as duas campanhas e que impedia interrupções quando o adversário falava, a sua postura desde a convenção de agosto confirma-o como um cavalo de Troia na democracia americana. Na altura disse que a única forma de os democratas lhe ganharem seria por fraude, fazendo disso o seu lema de campanha. É assim que as democracias entram em decomposição acelerada, corroendo os seus alicerces até ao tiro fatal na Constituição e na paz social: através dos seus próprios coveiros. Trump é um deles. Esta eleição não é por isso apenas mais uma, nem sequer um mero referendo à administração. É a linha que separa uma convalescença com o mínimo de dignidade na tentativa de retomar um dia-a-dia com renovada decência e normalidade, e a acelerada decomposição dos seus órgãos vitais até que a sua falência obrigue a desligar a máquina.

Aos dias de hoje, a campanha vive essencialmente sob três dinâmicas. A primeira é o momentum democrata nos estados que decidirão as presidenciais (Pensilvânia, Wisconsin, Michigan, Minnesota, Ohio, Florida, Carolina do Norte e Arizona). Longe de ser um ascendente seguro, é pelo menos constante em sondagens locais, muitas deles melhoradas na metodologia face a 2016, à partida sem que a máquina do partido volte a desvalorizar os seus eleitores como então ali fez. Não tendo sido positiva a prestação de Biden no debate, pelo menos não inverteu a tendência democrata, mais uma vez a ver pelas sondagens.

A segunda está precisamente no caldo anárquico promovido por Trump, que não só levanta a suspeição sistémica de fraude eleitoral, atiçando todos contra todos, como revela um estado de espírito pouco confiante na vitória, dramatizando já um luto preventivo sobre "o seu povo", instigando-o a brigar pela sua permanência numa frente popular paralela à penosa batalha jurídica a iniciar na manhã de 4 de novembro.

A terceira dinâmica resulta do confinamento de Trump depois de testar positivo à covid. A ironia do destino é que está a gerar um misto de compaixão que o põe no plano de outros tantos milhares de americanos infetados pelo vírus, mas também de sarcasmo, sobretudo por aqueles que não resistem a desfrutar do momento, depois das tristes tiradas de Trump sobre a saúde de adversários, o uso da máscara ou a fraca atuação do vírus (apesar dos mais de 200 mil mortos). Ninguém sabe dizer qual das duas posturas terá mais impacto eleitoral, mas inclino-me para a primeira. Isto não significa que a quarentena na Casa Branca seja capaz de inverter a primeira das dinâmicas que aqui tento explorar, mas pode alimentar a segunda, dando ainda mais coesão e motivos de mobilização à sua falange. Até porque a proliferação de tuítes está garantida. Certo é que terá de cancelar comícios, contacto físico com apoiantes e a presença sempre magnética em círculos eleitorais muito específicos nalguns estados decisivos. Isto dá alguma folga a Biden para ali marcar presença (cumprindo regras mínimas de saúde pública) sem grande concorrência nas próximas duas semanas.

É esta uma garantia de fecho de contas eleitorais? Longe disso. Quanto muito são variáveis resultantes da sempre esperada "surpresa de outubro", suscitando mais dúvidas do que certezas. As definições desta corrida estarão sempre umbilicalmente ligadas à capacidade de mobilização das duas plataformas e da integridade que afetará a logística do voto por correspondência, que nestas eleições baterá todos os recordes. Se a primeira retomar os índices de 2008 e 2012, a vantagem é democrata. Se a segunda cair no abismo que antecipamos, a vantagem é republicana. O mesmo é dizer que a desvantagem é toda da democracia americana.

Investigador universitário

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