A América e a guerra fria civil

Thomas Friedman, no The New York Times, acerca do espetáculo de miséria moral que Donald Trump pela enésima vez encenou, escrevia que os dois pilares da democracia, a verdade e a confiança, estavam em causa. Citando o filósofo Moshe Halbertal, acrescentava que se não partilharmos verdades e não tivermos confiança em que os nossos adversários também desejam o bem comum é impossível a uma comunidade prosperar.

Começa a ser uma quimera vermos aceites por toda a comunidade verdades básicas, quotidianas; até a ciência está em causa. As teorias da conspiração sobre factos que há décadas estão estabelecidos são o pão nosso de cada dia. A opinião berrada numa qualquer página de Facebook, bem financiada e com a promoção certa, passa a valer tanto como centenas de anos de investigação e outros tantos de conhecimento acumulado.

A confiança - e pensemos só na política para não nos deprimirmos ainda mais - em que o nosso adversário político quer tanto o bem comum como nós, tem apenas uma visão diferente de como lá chegar, acabou ou está próximo disso. Já não há adversários, há inimigos. O outro é um marginal, um tipo que só pensa no seu próprio bem e que temos de destruir de qualquer forma. Se mostrarmos que o homem ou a mulher do outro lado é um bandido sem moral não precisamos de contestar as suas ideias ou os seus projetos. Aliás, o insulto, a intriga, a insídia faz parte de uma estratégia, não é algo gratuito. Se se conseguir fazer passar a imagem de que o outro é um mau carácter cumpre-se o objetivo essencial: fazer que a base de apoio não pense. O que vier do outro lado será sempre mau.

Num ambiente em que a verdade é uma questão de opinião e não existe a mínima confiança entre as pessoas, está em causa muito mais do que a prosperidade e a democracia. Não há verdade, não há ciência, não há uma base mínima de entendimento comum, tudo serve para afastar os vários membros da comunidade. Fica estabelecido o nós contra eles. É a própria comunidade que se desagrega e fica em causa a sua própria existência. Uma comunidade só existe com pluralidade, aceitação da diferença, mas sempre com chão comum.

O debate Trump-Biden foi só mais uma exibição dos riscos que a democracia americana e a sua comunidade correm - não o debate, mas sim o desempenho de Trump, Biden é um homem decente e, mal ou bem, quem nos pode salvar por enquanto da barbárie. Mas mais do que isso. Perante nós, esteve a visão clara e transparente de que a democracia americana está por um fio e a comunidade numa desagregação aceleradíssima.

Alguém que conseguiu impor e exportar um modelo para destruir o nosso modo de vida e as bases fundamentais de convivência em democracia; e que o que está a acontecer nos Estados Unidos está com grande pujança a acontecer noutras democracias - pouco importa onde começou, com Trump o conceito foi apurado.

Há quem mantenha a fé na força das instituições americanas. Estas são feitas para sobreviver aos homens, serão tão sólidas quanto maior for a sua capacidade de sobrevivência a homens incompetentes, incapazes ou até corruptos. Mas não há instituições à prova de Trumps.

A destruição de várias instituições, o bloqueio na nomeação de juízes (patrocinado pelos senadores republicanos na fase final do mandato de Obama), a manipulação despudorada da Procuradoria-Geral tem agora o seu apogeu no questionar do sistema eleitoral, no anúncio claro de recusa de aceitar outro resultado que não seja a vitória. Será preciso maior prova dos riscos que a civilização ocidental corre?

Mas se Trump aceitar deixar o poder (imagine-se onde se chegou para se conseguir escrever esta frase), teremos o homem instalado numa qualquer torre a emitir a Trump TV 24 horas sobre 24 horas, com um exército a poluir as redes sociais, com os evangelistas a promover o ódio nos púlpitos e centenas de milícias de fanáticos nas ruas. Será a nova oposição.

Trump inventou a guerra fria civil. Que as ententes estão formadas e que o diálogo parece impossível não me parece que existam dúvidas. Mas como se aguenta uma guerra fria num país com gente armada até aos dentes e que olha o outro como inimigo?

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