O ex-primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu está à beira de regressar ao poder, menos de dois anos depois de ter saído e apesar de estar a ser julgado por corrupção. Quando estavam contados 87,6% dos votos das quintas eleições em quatro anos em Israel, o bloco da direita - onde a extrema-direita ganhou força - conquistava 65 dos 120 lugares no Knesset. O bloco dos partidos que fazem parte do atual governo, do primeiro-ministro Yair Lapid, não ia além dos 50 deputados. Faltavam contar os votos das forças de segurança, presos ou idosos em lares, entre outros, mas Netanyahu deveria manter a maioria..Os apoiantes de Bibi, como é conhecido o líder do Likud que foi primeiro-ministro entre 1996 e 1999 e depois entre 2009 e 2021, festejaram a vitória. Netanyahu, de 73 anos, congratulou-se com o "enorme voto de confiança". Acusado de corrupção, os críticos dizem que no regresso ao governo poderá efetuar uma reforma radical do poder judiciário para se livrar da eventual condenação - um deputado do Likud disse que seria a primeira coisa a fazer, mas o partido distanciou-se da declaração..O Likud terá eleito 32 dos 120 deputados no Knesset. Mas, para ter a maioria para governar, Netanyahu precisa dos aliados ultraortodoxos, o Shas (11 deputados) e o Judaísmo Unido da Torá (oito), que aumentaram a sua representação no Parlamento. A participação eleitoral foi de 71,3%, a mais elevada desde 2015, com o aumento a sentir-se nos bastiões da direita..Netanyahu depende também da extrema-direita do Partido Sionista Religioso, de Bezalel Smotrich, que inclui a fação mais extremista do Poder Judaico, de Itamar Ben-Gvir. Uma aliança que Bibi promoveu. Serão a terceira força política no Knesset ao eleger 14 deputados, duplicando a representação que tinham. Em conjunto, a coligação de Netanyahu tem 65 deputados, acima dos 61 necessários para ter a maioria (estando ainda dependente dos resultados finais)..Mas a extrema-direita pode revelar-se problemática. Ben-Gvir, de 46 anos, esteve ligado ao Kach, um grupo ultranacionalista ortodoxo que foi banido da política e que foi considerado organização terrorista em Israel e nos EUA. Tanto ele como Smotrich já foram condenados por incitar ao racismo contra os árabes, com o líder do Poder Judaico a defender no passado (ele diz que já não defende) a expulsão dos árabes israelitas desleais..Smotrich quer alegadamente a pasta da Defesa, já Ben-Gvir a da Segurança Interna. Isso significava que o primeiro ficaria responsável pela política na ocupada Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Já o segundo assumiria o controlo da polícia que patrulha em redor dos locais sagrados em Jerusalém, incluindo a mesquita de Al-Aqsa - onde têm havido vários confrontos com palestinianos. Ben-Gvir defende alargar os direitos de orações aos judeus no local (é o Monte do Templo para os israelitas)..Sem comentar diretamente os resultados, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, disse que a Administração de Joe Biden espera "que todos os oficiais do governo israelita continuem a partilhar os valores de uma sociedade aberta, democrática, incluindo a tolerância e o respeito por toda a sociedade civil, particularmente os grupos minoritários"..A contagem dos votos restantes só deverá terminar hoje. Em causa estão os chamados "votos de duplo envelope", de quem vota à distância. Isso inclui as forças de segurança, os presos, os doentes e funcionários dos hospitais, os diplomatas no estrangeiro, os idosos em lares ou as pessoas com deficiência que votam em mesas adaptadas. Nas eleições de abril de 2019, representavam apenas 5,5% do total de votos, mas nestas são mais de 12,5%..Estes votos são essenciais para o partido Meretz, de esquerda, e o árabe Balad, que estavam ontem abaixo do mínimo de 3,25% necessário para entrar no Knesset. O Meretz tinha 3,19% e o Balad tinha 3,04%. Segundo o The Times of Israel, nas eleições de março de 2021 a direita beneficiou com estes votos e o Meretz fez melhor do que no voto normal. Os partidos árabes fizeram pior. Daí que este jornal alegasse que o Meretz ainda tinha hipótese de passar a barreira para entrar no Parlamento, não o Balad. Só se os dois passarem é que a maioria do bloco de Netanyahu corre risco..O Meretz, tal como o Labor (que durante décadas foi o partido dominante mas agora só elege quatro deputados), perderam votos para o partido do primeiro-ministro. O Yesh Atid terá eleito 24 representantes (tinha 17), enquanto o Partido da Unidade Nacional (que inclui a aliança Azul e Branca, de Benny Gantz, e o Nova Esperança, de Gideon Sa"ar) elegeu 14. O Yisrael Beiteinu, de Avigdor Lieberman, elegeu cinco. A Lista Árabe Unida (ou Ra"am), que entrou no governo, elege outros cinco, os mesmos dos árabes do Hadash-Ta"al, que não pertencem a nenhuma das fações..susana.f.salvador@dn.pt