Dietmar Hopp. Porque é este milionário tão odiado no futebol alemão?

O proprietário do Hoffenheim foi insultado durante o jogo com o Bayern Munique. O jogo foi interrompido duas vezes e foi concluído em protesto. E tudo porque este milionário alemão é o mentor e financiador de um clube de uma pequena cidade do sudoeste da Alemanha.

Dietmar Hopp é o homem do momento no futebol alemão. E tudo porque no último sábado o jogo entre o Hoffenheim e o Bayern Munique parou por duas vezes, tendo os últimos 15 minutos sido jogados com os futebolistas das duas equipas a trocarem a bola entre si, à espera que se cumprisse o tempo do jogo. Foi a forma encontrada pelas duas equipas para protestar contra os insultos vindos da bancada onde estava a principal claque do Bayern, que tinham como alvo Hopp, multimilionário alemão que é o proprietário do Hoffenheim.

Hopp é uma das figuras mais odiadas no futebol alemão, algo que só tem paralelo com o sentimento progressivo de rejeição relativo ao RB Leipzig. E a razão é simples: o Hoffenheim e Dietmar Hopp beneficiaram de uma exceção à regra 50+1 imposta aos clubes profissionais da Bundesliga, que têm de deter 50% das ações mais uma, para que sejam os clubes os acionistas maioritários e, evitar desta forma, que haja uma empresa ou milionário a ser o dono, injetando dinheiro que esses clubes não conseguem gerir. No caso do ódio ao Leipzig, tem que ver com o facto de a empresa Red Bull estar por detrás da gestão, embora de forma minoritária.

A Federação Alemã de Futebol e a própria Bundesliga procuram assim proteger os clubes tradicionais, algo que criou uma espécie de movimento por parte dos adeptos mais tradicionalistas, que encaram esses novos fenómenos de clubes como uma forma de vender a alma do futebol ao Diabo.

Bayern vai punir adeptos

Dietmar Hopp já tinha sido alvo de insultos por parte dos adeptos do Borussia Dortmund, que foram punidos pela justiça desportiva com a interdição de entrada nos estádios onde joguem com o Hoffenheim. Na semana passada, tinham sido as claques do Borussia Mönchengladbach a insurgir-se contra o dono do Hoffenheim, estando agora a ser alvo de um processo disciplinar.

No sábado foi a vez dos adeptos mais radicais do Bayern Munique exibirem tarjas a insultarem Hopp. "Tudo como habitual - A DFB [federação alemã] não cumpre a sua palavra e Hopp continua a ser um filho da puta", podia ler-se. Além da tarja, os cânticos insultuosos contra o presidente do Hoffenheim foram cada vez mais audíveis até que, aos 67 minutos, o árbitro decidiu interromper o jogo.

Os insultos e ofensas públicas à honra de uma pessoa são considerados crime na Alemanha, pelo que o árbitro atuou em conformidade com as determinações que tinha recebido na última semana, na sequência de ações da extrema-direita alemã que estavam identificadas e que poderiam ocorrer nos estádios de futebol. O que aconteceu no Rhein Neckar Arena, numa altura em que o Bayern vencia por 6-0, indignou os jogadores e os mais altos responsáveis do clube de Munique, tendo o diretor executivo Karl-Heinz Rummenigge declarado que estava "profundamente envergonhado" com o sucedido e que tinha pedido "desculpas" a Dietmar Hopp, prometendo que o Bayern iria analisar as imagens para punir os autores dos insultos.

Infância sem comida e a promessa de ser rico

Mas quem é Dietmar Hopp? Nasceu a 26 de abril de 1940, no início da Segunda Guerra Mundial, sendo que o pai, Emil Hopp, era líder de um pelotão das forças paramilitares do Partido Nazi, liderado por Adolf Hitler. Em declarações proferidas no livro Gesellschaftsspielchen- Futebol entre a Boa Vontade e a Hipocrisia, de Ronny Blaschke, Hopp garantiu ter crescido "numa realidade modesta". "Éramos quatro irmãos, às vezes não tínhamos o que comer e tinha de carregar carvão para ter o meu dinheiro. Essa foi uma das razões pelas quais quis ser rico", explicou.

A paixão pelo futebol começou quando ainda era adolescente como jogador do então modesto Hoffenheim. Só que ser futebolista nunca esteve na forma como pensava enriquecer, razão pela qual deu prioridade aos estudos, acabando por se tornar engenheiro, o que lhe permitiu trabalhar durante alguns anos na área do desenvolvimento de software e consultadoria de sistemas da multinacional IBM.

O início da construção do seu império aconteceu em 1972 quando se associou a outros quatro empresários e fundou a empresa de software SAP, da qual foi presidente entre 1988 e 1998, tornando-a a terceira maior empresa informática do mundo, a seguir à Microsoft e à Oracle. Em 2003, deixou a SAP, mas manteve 5,52% do capital social.

Dietmar Hopp, várias vezes considerado o homem mais rico da Alemanha, foi muito além dos negócios informáticos, tendo em 1995 criado a sua própria fundação com a doação inicial de 600 milhões de euros, que serviram para atuar no incremento do desporto junto das crianças, medicina (investigação sobre o cancro), educação e serviços sociais na região de Kraichgau, no sudoeste da Alemanha, onde nasceu e ainda reside atualmente. Aliás, chegou mesmo a investir 800 milhões de euros em biotecnologia para encontrar formas de combate ao ébola e ao Alzheimer.

Investimento de 350 milhões de euros

O seu envolvimento na gestão do Hoffenheim deu-se em 1989, quando doou dez mil marcos (cerca de cinco mil euros) para que fossem compradas bolas e equipamentos. "O objetivo era fazer que o Hoffenheim [estava no oitavo escalão do futebol alemão] fosse subindo de divisão, mas chegar à Bundesliga não era o meu principal objetivo naquele momento", explicou no livro. Foi apenas em 2005 que começou a injetar dinheiro para contratar jogadores, com a ajuda do treinador Ralf Rangnick, agora diretor desportivo da Red Bull. Além disso, construiu um estádio e um moderno centro de treinos para a equipa, investindo um total de 350 milhões de euros.

A forma como utilizou o seu dinheiro para comprar sucesso desportivo num clube de uma pequena cidade de pouco mais de três mil habitantes é o principal motivo da ira dos adeptos de outros clubes alemães, que consideram que Dietmar Hopp personifica a comercialização do futebol.

"Sentem inveja da minha vida no futebol. As pessoas, que não me conhecem, chamam-me de filho da puta. Se o Hoffenheim não tivesse sucesso, eu não seria insultado por tantas pessoas. O futebol não é a minha vida, apenas uma parte dela", disse no livro de Ronny Blaschke, no qual deixou algumas garantias: "Eu sigo seriamente as regras financeiras do futebol. O Hoffenheim pode continuar sem a minha ajuda, desde 2016 que tornámos o clube independente. Não quero deixar uma onda de prejuízos ao meu filho. É lógico que gostaria de ganhar a Champions, mas isso é irreal. Por exemplo, não podemos competir com o Bayern."

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG