Premium João Proença: "Quadros para médicos foram fechados para pôr tudo ao serviço do privado"

No segundo dia da greve convocada pela FNAM, o presidente João Proença fala num protesto contra o estado do SNS, que resulta de uma política de gestão danosa de longa da data e de um sistema pouco transparente e democrático.

No ano passado os médicos convocaram uma greve. Há dois anos, duas. O que vos leva a continuar a aposta nas paralisações?
A situação grave e insustentável que se passa no serviço público de saúde, com a carreira médica, com a gestão desorganizada, programada através da gestão empresarial e dos contratos individuais de trabalho que destroem completamente o espírito de equipa. Para trabalho igual, salário desigual. Os quadros foram fechados para que tudo estivesse ao serviço de um mercado de serviços privados. Até a lei que diz que se as pessoas ao fim de três meses não tiverem consultas ou cirurgias têm um cheque e vão onde querem. Isto é claramente tirar o dinheiro do Estado e dar aos privados.

Mas os vales-cirurgias não são positivos para a redução do tempo de espera dos utentes?
Não reduz nada, porque qualquer pessoa normal e literata não aceita ser operada por um cirurgião ortopedista ou vascular qualquer numa clínica qualquer para não ficar à espera seis meses. Isso acontece porque os quadros dos hospitais não foram preenchidos com o dinheiro que se gasta com as empresas de trabalho temporário, que custam neste momento 199 milhões. Dava para pôr mais dois ou três mil médicos no quadro por concurso, por mérito. Dava para formar as pessoas que estão neste momento numa situação indiferenciada, que servem para tudo e integram equipas que nunca se viram.

Conhece hospitais onde as equipas de trabalho sejam constituídas exclusivamente por tarefeiros?
O Algarve é sinónimo da desgraça nacional. As equipas de cirurgia, de ortopedia ou de ginecologia são constituídas por pessoas que nunca se viram, que se encontram no dia da urgência, sem ninguém do quadro. Acontece noutros hospitais, como por exemplo no Amadora-Sintra, onde não há anestesistas e não há obstetras, porque nunca se preocuparam com isso, convencidos de que o mercado ia resolver.

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