O Santo António é um clube lisboeta e o único que nasceu no Casal Ventoso que tem ainda um plantel ativo.

20 anos sem Casal Ventoso

Os clubes que salvavam vidas ruíram com o bairro

Pouco sobra dos seis clubes de futebol que existiam no Casal Ventoso. As boias de salvação dos miúdos não resistiram ao realojamento. Nas ruínas da encosta, perdeu-se a identidade de um bairro. Segundo capítulo de uma série de três reportagens.

"Aquilo era a cidade do futebol", lembra António Santos, 53 anos, nascido e crescido no Casal Ventoso, agora residente no Ceuta Sul, um dos três bairros que acolheu os antigos moradores do conhecido "hipermercado da droga".

Quase todos os domingos, a terra batida do "campo da lixívia", como apelidavam, era palco de um jogo de rivais. Uma bola, sete ou onze jogadores de cada lado e o bairro inteiro a olhá-los a céu aberto, mesmo sem bancada. Era como jogar ou assistir a um dérbi.

Todos os clubes, inscritos na associação de futebol distrital, jogavam neste mesmo campo. Águias Recreativo Clube, União, Casalense Futebol Clube, Lisboa Futebol Clube, Unidos ou Clube Desportivo de Santo António. O Casal Ventoso era um só bairro, mas albergava seis clubes diferentes da cidade.

Serviram a comunidade a vários níveis, não só através do futebol e das outras modalidades (como ténis de mesa e andebol), muitas vezes dando aos jovens a oportunidade de terem uma distração do perigo que circulava nas ruas, a droga.

Hoje, só um destes clubes tem um plantel ativo.

Anos depois de futebol profissional, Dário voltou a casa

"Foi aqui que me fiz homem", conta Dário.

Era difícil qualquer jovem residente na encosta fugir de uma carreira amadora no futebol do Casal, onde nasceu. Com apenas sete anos, Dário Ramos, agora com 38, integrava pela primeira vez uma equipa e tornava-se médio no Clube de Santo António de Lisboa, o mais recente do bairro, criado em 1986, pela mão de cerca de cinco antigos diretores do rival Águias Recreativo Clube.

Num pequeno espaço arrendado no n.º 129 do Casal Ventoso de baixo, quando o sol se punha, os seus sócios e atletas juntavam-se à volta de uma mesa com baralhos de cartas ou a jogar snooker. De dia, desciam até ao "campo da lixívia" para jogar futebol.

Mas o agora presidente e jogador do clube iria além de uma carreira como amador. "Vivi do futebol profissional durante 12 anos".

Passou pelo Covilhã, Freamunde, Marítimo, Pico (Açores), entre outros. "Corri o meu mundo". A viagem lá fora começaria logo aos 12, pouco tempo depois de dar entrada no plantel do Santo António. Mas nunca perdeu o clube de vista. Nas folgas ou quando estava lesionado e não podia jogar pela sua equipa, Dário ia ver o Santo António defrontar outras.

Sempre disse: "quando arrumar as botas (a vida profissional), se for para jogar no (campeonato) distrital, só jogo aqui".

E assim foi. Aos 35 anos, regressou.

Fizeram dele presidente do clube, mas não quis abdicar das chuteiras e do equipamento amarelo e azul. É capitão do único clube do Casal Ventoso que ainda tem um plantel ativo. Duas vezes por mês, juntam-se para jogar. Sem campo próprio, fazem do relvado do Águias da Boavista (um outro clube lisboeta) a sua casa. Dos 31 jogadores disponíveis na equipa sénior, 26 são portugueses. Depois há cabo-verdianos, um brasileiro e outro natural da Guiné-Bissau.

"Com a demolição, alguns clubes históricos perderam-se e não quiseram criar sede nos novos bairros. Ou porque os seus diretores já estavam muito velhos ou porque os filhos não quiseram ficar com eles", lamenta. Mas o Santo António resistiu e foi realojado na Quinta do Cabrinha, sempre com a modalidade de futebol, com escalões desde os nove anos.

Hoje, "os outros clubes não têm nada" além de uma sede. Ainda assim, Dário diz que não faz sentido que não continuem a existir. "É importante para a comunidade. Os mais idosos vão lá tomar café, jogar às cartas. Não têm futebol nem outras modalidades, mas têm a sede aberta. É o que importa", desabafa.

Desde sempre, os clubes tiveram uma força social inquestionável junto dos moradores. Dário diz até que foram fundamentais para muitos jovens da sua geração "que se safaram da droga". Funcionava como distração e dava objetivos de vida aos muitos que se apaixonavam por um plantel e que fizeram parte dele, em campo ou na bancada.

O amor também nasce entre um campo e uma bancada

Ivone e José, 82 e 86 anos, os primeiros a serem realojados após as demolições do Casal Ventoso, começaram a sua história de amor num campo de futebol do Águias Recreativo Clube, em frente ao qual viriam mais tarde a construir a sua própria casa e família.

José foi, durante anos, tesoureiro e presidente do clube. Já o filho António cedo embarcou como jogador de um clube fora de casa, o Desportivo Domingos Sávio, em Campo de Ourique, uns metros acima do Águias. Mas por ter crescido numa casa vizinha à sede do clube à responsabilidade do pai, diz ter torcido sempre por aquele plantel. E sabe bem o que o Águias significava para os seus adeptos.

"As pessoas, para verem televisão, iam à coletividade, porque não tinham uma em casa", lembra. Escolher um clube era escolher uma segunda casa, fazer dela até o local para um duche, pois metade das casas do Casal Ventoso, segundo os relatórios do extinto Gabinete de Reconversão do bairro, não dispunham sequer de casa de banho. "Muitas vezes, estava a jantar e ouvia baterem à porta a pedir aos meus pais para abrirem a porta da coletividade para irem tomar banho nos balneários.

Anos antes, bem antes de António sequer existir, Ivone e José conheciam-se. Ele como defesa esquerdo do Águias, a fintar os adversários em campo, ela nas bancadas, de fato vermelho e branco acetinado, ao qual José não ficou indiferente. Ivone fazia parte da claque feminina que seguia os jogadores para todo o lado.

O amor nasceria ali, algures entre os jogos semanais do Águias e as idas à sede.

Com o desmantelamento do Casal Ventoso, tudo mudou. A idade pesou e, já como habitante do Cabrinha, José passou a pasta do clube a outros. Mas ainda hoje o primeiro passo que dá depois de iniciar uma conversa com alguém à sua porta é caminhar até às suas gavetas de casa, onde guarda as medalhas e as fotografias a preto e branco em que surge a agarrar taças em nome do clube.

O Águias é hoje apenas uma porta aberta no rés-do-chão do Cabrinha.

Um clube alimentado a memória

Entre os clubes que ainda se mantêm vivos, mesmo que só fisicamente numa qualquer esquina dos novos bairros, o Casalense Futebol Clube é o mais antigo. Nasceria em 1922 no Casal Ventoso de baixo.

Hoje, é Gabriela Miranda, 63, quem abre as portas da sede, todos os sábados. Agora sem equipa, sem adeptos e sem campo de futebol, garante a sobrevivência do Casalense apenas à base de memórias.

Mas o clube já foi muito mais do que é. À semelhança dos muitos que existiam no bairro, foi o alento para muitas das famílias pobres que ali moravam.

Todos os anos, entre as décadas de 1930 e 1940, no dia de aniversário do clube, celebrava-se o que todos conheciam como "boda dos pobres". Uma larga mesa enchia-se de comida e, com a ajuda de donativos de alguns sócios solidários, saciava muita da pobreza que morava no bairro - ser pobre era a regra no Casal.Na cerimónia, as famílias mais necessitadas recebiam um cabaz de alimentos e ainda roupa para crianças no valor de 100 escudos, uma pequena fortuna para a época.

E foi a pensar nos mais novos que o clube fez nascer, mais tarde, um grupo de teatro. Jovens de todo o bairro fizeram das personagens que representavam em palco o seu projeto de vida. E foi lá que, pequenina, Gabriela começou a cantar - fado vadio. Jorge Fernandes, célebre fadista português, começaria ali também. Aliás, "foi no palco do Casalense que se estreou", conta Gabriela.

De vez em quando, ainda sobe a palco para cantar. Mas não é a única debaixo dos holofotes. A cantar ou não, uma vez por outra, alguns jovens que também vieram do Casal representam histórias do dia-a-dia no velho bairro: da rivalidade entre clubes (e a amizade, na mesma medida, entre eles) até ao mito de que as mulheres que lá moravam não tinham problema algum em roubar os maridos das outras.

Tudo sempre feito a pensar no que lá vai e para obrigar a cabeça a não esquecê-lo.

Gabriela abre o clube uma vez por semana para abrigar quem ainda acredita nele. Mesmo sem plantel de futebol, fado ou teatro. Sentada numa cadeira à porta ou a servir um café no balcão da sede, não desiste. Enquanto houver um espaço na Quinta do Loureiro para o Casalense, garante jamais fechar as portas.

O rebelde de Lisboa

Também no Loureiro há um clube que resiste à passagem do tempo. Mesmo já sem jogos ao domingo, o Lisboa Futebol Clube abre portas a dias em torno de mesas onde os mais antigos jogam às cartas ou tomam o seu café.

Lá dentro, Manuel Cardoso vai recebendo todos com a boa disposição que o caracteriza e pela qual já há muito é conhecido. Aos 78 anos, é o sócio n.º1 do clube, depois de tantos outros terem abandonado o quadro, por óbito ou afastamento do próprio bairro. É também o atual presidente.

Atrás da cadeira onde se senta e nos recebe, guarda o espólio do Lisboa. Nas paredes, estão expostas fotografias emolduradas que contam os tempos de glória - numa delas, como Manuel faz questão de gabar, está o retrato de um jogo que disputaram no Jamor. Do outro lado, estão umas vitrinas através das quais podemos ver dezenas de taças de todos os tamanhos e feitios. O seu presidente diz que este é "o clube com mais títulos de amador a nível nacional". Mas o Lisboa não nasceria apenas para as medalhas.

Na verdade, nasceu como um rebelde. "O Lisboa surgiu numa barbearia", em 1934. Portugal vivia o seu segundo ano ao abrigo do regime do Estado Novo, sob a alçada do então chefe de Estado António de Oliveira Salazar. Na altura, ter ideias era ter medo de as falar, por isso, sempre que eram debatidas, tal acontecia apenas debaixo de um teto de confiança. No Casal Ventoso, que não fugiu ao painel político da época, este teto era o das barbearias.

"Sentiu-se a necessidade de criar grupos, nos quais nos sentíssemos à vontade para falar" sobre política ou não. O Lisboa seria, então, criado como desculpa para conversas mais inquietas, assumindo a forma de um clube de futebol, a primeira de várias modalidades - entre elas, o futsal, a última a desaparecer.

A primeira vez que Manuel vestiu a camisola do Lisboa, aos 16 anos, agarrou o número 9 para nunca mais o largar, salvo raras exceções. Era o ponta de lança da equipa, mas também ajudou como guarda-redes e até nesta posição viu o clube ser campeão amador. Treinou as defesas "na oficina do senhor José", um antigo estabelecimento do Casal Ventoso, entretanto desaparecido com o desmantelamento do bairro. Jogaria pelo Lisboa até ao 40 anos.

Lamenta que com a mudança para a Quinta do Loureiro muitos sócios se tenham perdido do clube. Começou com cerca de 50 ou 60, "agora chega aos 300", mas muitos são sócios-fantasma. "Era o clube que levava mais adeptos", diz.

Fiel à casa e presença habitual nela mantém-se não só Manuel, mas também Mário Carvalho, roupeiro da equipa desde a sua adolescência e agora vice-presidente, bem como Goreti Rodrigues, antiga moradora do bairro, ex-presidente do Lisboa e filha de um dos falecidos fundadores do clube.

"Dentro do campo, era só insultos de todo o tipo que há", mas "cá fora, éramos todos grandes amigos". É assim que Manuel recorda os tempos antigos, onde tantos clubes num só bairro competiam entre si. Era "uma rivalidade saudável", garante. Goreti e Mário confirmam e não guardam a gargalhada para si - quase podemos imaginar as memórias que lhes passam pela cabeça.

As portas do Santo António e do Águias, do Casalense e do Lisboa são passaporte para uma memória que vai sobrevivendo. São o que sobra do Casal Ventoso. O que nenhum bulldozer conseguiu apagar.

Leia o próximo capítulo da série "20 anos sem Casal Ventoso": "Não basta deitar um bairro abaixo para a droga desaparecer".

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