Extrema-direita cresce no leste da Alemanha mas não chega ao poder

CDU e SPD perderam votos mas garantiram vitórias na Saxónia e em Brandemburgo. A AfD triplicou a sua votação, com muitos abstencionistas a confiarem agora neste partido anti-imigração e anti-UE. Partido de extrema-direita conquistou os mais jovens na Saxónia, mas não em Brandemburgo.

No dia em que o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, assinalava na Polónia os 80 anos do início da II Guerra Mundial e pedia perdão pelo erro histórico alemão de invadir o território polaco, em duas regiões do leste da Alemanha um número muito significativo de eleitores entregou o seu voto à extrema-direita da AfD (Alternativa para a Alemanha).

Apesar de não ganhar nem na Saxónia nem em Brandemburgo, o partido anti-imigração ficou em segundo lugar nos dois estados, roubando votos à CDU, ao SPD e, sobretudo, convencendo muitos dos habituais abstencionistas a confiarem nas suas propostas. E muitos jovens (especialmente na Saxónia), tendo sido os eleitores com mais de 60 anos (e especialmente os mais de 70 anos) a garantir a vitória dos partidos tradicionais.

As sondagens já indicavam e os resultados eleitorais confirmam: a extrema-direita alemã conseguiu um forte crescimento nas regiões da Saxónia e de Brandemburgo, ambas no leste da Alemanha, tendo ficado em segundo lugar nos dois casos. Mas temia-se ainda pior e o partido AfD até aspirava a conquistar Brandemburgo, onde se situa a capital, Berlim, mas não chegou a tal. O SPD venceu neste estado, enquanto a CDU de Merkel manteve o poder na Saxónia.

A novidade é, sem dúvida, a enorme conquista de votos na AfD. De acordo com os resultados preliminares, na Saxónia, uma região com 3,5 milhões de habitantes, na fronteira com a República Checa e a Polónia, o partido de direita radical obteve 27,5% dos votos, o que significa que triplicou a votação em relação às últimas eleições, de 2014. Apesar de ter perdido muitos votos, a CDU foi o partido mais votado e obteve cerca de 32,1% (há cinco anos teve 39,4%). Pode assim manter o governo regional mas terá de fazer coligação, que não será nunca concretizada com a AfD.

Nesta região, o SPD teve um péssimo resultado, ficando em quinto lugar, com apenas 7,7% dos votos. O Die Linke, terceira força mais votada, também saiu derrotada, já que baixou para 10,4%, o que traduz uma perda de mais de 8% em relação às últimas eleições. Os Verdes subiram para 8,7%.

Segundo as sondagens, citadas pela Der Spiegel, a AfD foi o partido mais votado entre os eleitores mais jovens na Saxónia, conquistando 21% dos votos dos que têm entre 18 e 24 anos, frente aos 20% dos Verdes. Mas não só os jovens votam na extrema-direita. De facto, a AfD foi o partido mais votado também nas faixas etárias seguintes -- dos 25 aos 34 anos (26%), dos 35 aos 44 anos (29%), dos 45 aos 59 anos (33%). A partir dessa faixa etária, o mais votado foi a CDU, garantindo 45% dos votos dos eleitores com mais de 70 anos.

Brandemburgo

Na região de Brandemburgo, com uma população de 2,5 milhões, numa área sobretudo rural à volta de Berlim, o SPD conservou o primeiro lugar, o que tem acontecido desde a reunificação alemã. Contudo, os sociais-democratas perderam muitos votos. Alcançaram 26,2%, abaixo dos 31,9% de 2014, o que lhes irá valer 25 mandatos, menos cinco do que em 2014.

Era em Brandemburgo que a AfD reunia mais esperanças de poder chegar ao poder. Não aconteceu mas o partido anti-imigração e crítico da UE praticamente duplicou a votação, obtendo agora 23,5% dos votos, contra os 12,2% de 2014. Ganharam 23 mandatos, subindo 12. E terá sido sobretudo à custa da CDU, com o partido de Merkel a obter neste domingo 15,6% dos votos, quando há cinco anos rondou os 23%. Fica com 15 mandatos (menos seis). Também nesta região, já governada em coligação com CDU, o SPD terá de fazer acordos para continuar a governar - a maioria parlamentar é conseguida com 56 mandatos.

Além de roubar muitos votos à CDU e ao SPD, a AfD conseguiu convencer muitos habituais abstencionistas, de acordo com estudos feitos com base em sondagens à boca das urnas, o que significa que existe um grupo do eleitorado descontente com o atual rumo político que decidiu ir votar, preferindo a extrema-direita.

Em Brandemburgo, a maioria dos eleitores entre 16 e 24 anos votaram nos Verdes (27%), seguido da Afd com 18%. Mas a extrema-direita vou a mais votada nas faixas etárias entre os 25 e os 34 anos (30%), entre os 35 e os 44 anos (30%) e entre os 45 e os 59 anos (27%). Só os mais velhos votaram maioritariamente no SPD, que conquistaram 30% dos eleitores entre 60 e 69 anos e 42% dos votos dos mais de 70 anos (destes só 13% votaram AfD).

Sem hipótese de integrar governos

"Estamos satisfeitos em Brandemburgo e na Saxónia", disse Alexander Gauland, um dos líderes da AfD, acrescentando que o seu partido "puniu" sobretudo os conservadores de Merkel.

Apesar da boa performance da AfD, a extrema-direita não tem grandes hipóteses de integrar nenhum dos governos estaduais, já que todos os outros partidos descartaram entrar numa coligação. No entanto, os resultados realçam a profunda frustração no leste da Alemanha com a "grande coligação" de Merkel entre a CDU e o SPD, o que pode ser entendido com uma alteração no cenário político do país.

Mas não foi só a extrema-direita a subir. Os Verdes registaram grandes ganhos, com 10% em Brandemburgo, acima de 6,2% de 2014, e 9% na Saxónia, em comparação com 5,7%. Apesar do sucesso, os resultados ficaram aquém do que as sondagens indicavam.

A extrema-esquerda do Die Linke, tradicionalmente forte no leste, sofreu grandes perdas nos dois estados. Caiu para 11% em Brandemburgo (tinha 18,6%), e na Saxónia terminou com 10,5% (18,9% na última eleição).

(Notícia atualizada às 12.00)