Os porta-vozes sub-reptícios ficam gulosos 

O jornal satírico francês Le Canard Enchaîné tem uma célebre segunda página em que conta o que se diz nas reuniões semanais do governo. E publica entre aspas o que se diz. Por exemplo, o ministro das Finanças disse que "assim não dá", ao que o primeiro-ministro contrapôs "ai aguenta, aguenta" e o Presidente bateu com o punho na mesa e disse "é assim, ou vai ou racha!"... O exemplo que dou é inventado, mas ilustra bem uma típica notícia do Canard. Geralmente meia dúzia de linhas, seguida de uma dezena de outras pequenas notícias similares, com citações aspeadas, isto é, atribuídas sem dúvida a alguém. Há décadas que o jornal faz isso, com raríssimos desmentidos.

Como as testemunhas diretas de tais frases são geralmente uma multidão - um Conselho de Ministro é coisa para uma dúzia de assistentes -, o compromisso público do jornal é arriscado. Afinal, um governo costuma ter uma identidade forte e poderia acontecer um desmentido unânime de todos os participantes na tal reunião, deixando o jornal embaraçado. O facto, porém, é que isso quase nunca aconteceu. Porquê? Por trabalho, por respeito pelos leitores e por uma certa e determinada prudência que só referirei no fim desta crónica. Le Canard Enchaîné construiu com a classe política uma relação extensa, pelo número de informadores, e responsável - ai do ministro que minta sobre o que aconteceu na reunião, colocando o jornal em falso.

Admite-se, claro - é um dos pressupostos do acordo -, que o informador só passe a dica que lhe convém. Ou que prejudique um concorrente que lhe faz sombra (deve acontecer com os secretários de Estado em relação ao ministro que lhes tapa a ascensão). Por isso o jornal alarga as fontes onde bebe, de forma a que os factos - no caso, a reunião governamental - não sejam apresentados de viés. A insistência do anonimato das fontes fica assim justificada, como mal menor, pelo bem maior que fornece ao público uma informação que de outro modo não teria. Depois do acordo e a prática conseguidos pelo Le Canard Enchaîné é com os informadores (de esquerda e direita, de sucessivos governos), o jornal estendeu esse método às informações internas sobre os vários partidos, embora com menos sucesso, porque o interesse do leitor também é menor.

Esse salutar serviço prestado pelo jornal satírico francês tem uma versão portuguesa que não é satírica (irónica, maliciosa, mordaz) mas, isso sim, é de sátiro. É a nossa mania do "segundo uma fonte que preferiu não dizer o nome, mas que garante que Fulano pensa que". Isso acontecer uma vez é próprio do jornalismo, duas vezes é próprio do jornalismo, três vezes é próprio do jornalismo... Afinal, há coisas que por vezes só podem ser tornadas públicas se forem dadas, depois de devidamente confirmadas por outras fontes, sem um testemunho público.

O problema é quando essa anomalia legítima da informação - publicar, apesar de não haver testemunhas identificáveis - passa a ser o inevitável e único costume. Mais interessante ainda, quando o jornalista, ou o comentador, transmite sistematicamente as vontades e pensamentos deste ou daquele político, sem o citar mas dando a entender que é mesmo dele, acrescentado o truque de que a informação lhe chegou "de fonte autorizada".

Tal como acontece com o que faz o Canard com a sua página 2, há um acordo com os informadores. Claro que a "fonte autorizada" é o próprio político, que adianta uma hipótese do que pensa ou do que vai fazer, para testar as reações do público, dos adversários políticos e até dos correligionários. Mas, lá está, no caso do jornal francês, os informadores são múltiplos e o jornal não está ao serviço deles. Entre nós, a prática deste tipo de informação torna-se um abuso cometido aos leitores ou aos telespectadores, num conúbio secreto entre o político e o jornalista ou o comentador. Afinal, o tal político talvez não pense assim, nem talvez já tenha decidido fazer aquilo, pelo menos por enquanto, só quis saber como ia ser recebida a "notícia"...

Se as reações forem más, o político sempre pode dizer "eu nunca disse isso". E o jornalista, ou o comentador, sempre pode confiar no esquecimento coletivo sobre quem lançou o rumor. Ou no caso de haver gente com boa memória, esperar que quem a tem também é cínico e há de supor que foi o político que, entretanto, mudou de opinião. Em todo o caso, essa prática, tão difundida entre nós, confunde, perturba, faz descrer.

A única vantagem desta especificidade portuguesa é a suprema ironia que ela pode proporcionar. O político poderoso, que permitiu uma nebulosa à volta da sua relação com quem o invoca sem o nomear de forma clara, um dia, lê ou ouve o jornalista ou o comentador a citá-lo naquilo que ele nunca lhe disse. Como o apetite aumenta com o comer, aos porta-vozes sub-reptícios crescem-lhes as asas...

Um dia, é um supor, o poderoso político fica a saber que ele vai, sei lá, reconduzir alguém num cargo importante, quando, afinal, ele ainda anda a falar com tanta gente, a ver se toma uma decisão. Com essa gente ouvida, ele ora diz que está por isto, ora pelo contrário e, de repente, a voz que habitualmente lhe porta as intenções ganha autonomia e di-lo decidido e resoluto. A questão é, como é que se diz a uma fonte autorizada que ela não é tão autorizada quanto ela supunha? Ambíguo e perigoso compadrio...

Em tempo: Le Canard Enchaîné, além de todos os cuidados, aqui já contados, com que compõe a sua página 2, tem um outro cuidado na sua primeira página. Logo abaixo do título, o Canard escreve sempre: "Jornal satírico". Satírico é uma intenção assumida e publicitada. Ficamos logo a saber que a sua maneira de dizer é uma certa forma de dizer. É um certo estilo que não dá em certas funções.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.