Plastificados

Ainda antes da queda do Muro de Berlim, conheci um revisor que estudara em Moscovo com uma bolsa da União de Estudantes Comunistas. Confessou-me que deixara de praticar a doutrina logo no primeiro ano, mas nada dissera para poder terminar em paz a licenciatura; e que, quando vinha de férias a Portugal - atravessando a Europa de comboio porque então não havia voos low-cost -, o que mais o impressionava era a mudança radical de cores de uma Alemanha para a outra, como se viajasse da tristeza para a alegria.

O seu deslumbramento à vista dos amarelos, verdes e azuis do Ocidente deve ter sido igual ao meu entusiasmo quando entrei em criança na recém-aberta Casa dos Plásticos e vi, como num arco-íris, um mundo doméstico sete vezes repetido: caixas, baldes, alguidares, tigelas, caixotes de lixo, funis, escorredores de loiça... Enfim, quando nas cozinhas portuguesas a dominante era o cinzento-alumínio (como na Alemanha de Leste), entrar nessa loja dava vontade de comprar tudo - a única dificuldade era escolher a cor.

Foi, porém, num virote que os objectos de plástico se tornaram banais - quer em Lisboa, quer para lá do desmantelado Muro de Berlim; mas em nenhum lugar tínhamos consciência dos danos que esse material viria a causar, especialmente aos oceanos, nos quais existem hoje manchas de plástico do tamanho de três Franças. Já foram encontradas microfibras plásticas em amostras de chuva no Colorado, bem como nas neves do Árctico, onde não vive ninguém, provavelmente arrastadas até lá pelos ventos. O maior problema é serem ingeridas por animais (sobretudo aves, moluscos e peixes) e, através deles, entrarem na cadeia alimentar dos seres humanos.

Li no jornal que se tornou finalmente eficaz uma máquina que os cientistas acreditam poder limpar cerca de 40 mil toneladas de detritos plásticos dos oceanos em apenas cinco anos. Já está, de resto, em funcionamento. Mas bastará?

A filha de uma amiga que estuda zootecnia fez uma visita de estudo a uma fábrica de rações para animais. Ao que parece, algumas marcas de arroz, milho e outros cereais oferecem produtos em fim de validade para serem adicionados às rações. Quando, porém, o processo foi mostrado, os estudantes indignaram-se porque estes eram moídos com a embalagem de plástico e tudo. Responderam-lhes que, de outro modo, seria preciso contratar pessoal e nem valeria a pena aceitar a oferta; e que não se chocassem, todas as fábricas faziam o mesmo. Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia