Sporting. Quantos treinadores já passaram em Alvalade desde a conquista do último campeonato?

José Peseiro foi a última vítima, não resistindo à derrota com o Estoril na Taça da Liga. A dança de treinadores em Alvalade tem sido uma constante desde 2001-02, com técnicos que muitas vezes nem cumpriram uma época inteira. As raras exceções foram Paulo Bento e Jorge Jesus.

O reinado de José Peseiro em Alvalade durou 131 dias. Anunciado como treinador no dia 1 de julho, depois de ter sido escolhido por Sousa Cintra, então presidente da SAD durante o exercício da Comissão de Gestão, o técnico natural de Coruche foi demitido pelo presidente Frederico Varandas na madrugada desta quinta-feira, não resistindo à derrota caseira com o Estoril (1-2) na Taça da Liga.

Repete-se assim o cenário que tem sido uma constante desde que o Sporting foi pela última vez campeão nacional (2001-02), com o clube a não aguentar o mesmo treinador uma época inteira. Desde o último título de campeão, sob a orientação do romeno Laszlo Bölöni, já passaram por Alvalade 18 (!) treinadores, incluindo interinos que orientaram a equipa pelo menos um jogo, as duas passagens de Peseiro e a segunda temporada de Bölöni. Mais do que qualquer um dos rivais (Benfica e FC Porto) em idêntico período. A diferença para o Benfica é enorme (o clube da Luz teve nove desde a época 2002-03), mas para os dragões não é assim tão grande (foram 15).

Esta dança de treinadores começou em Alvalade logo na época 2002-03, quando, depois de ter sido campeão na temporada anterior, Bölöni deixou o clube no verão de 2003, rumando ao Rennes. Para o seu lugar, em 2003-04, foi contratado Fernando Santos. Mas o agora selecionador nacional durou apenas um ano em Alvalade, terminando o campeonato no terceiro lugar, sem troféus.

Chegou depois a Alvalade José Peseiro, em 2004-05, após uma experiência como adjunto de Carlos Queiroz no Real Madrid. Foi nesta temporada que o técnico ribatejano ganhou a alcunha de "treinador do quase", depois de uma época em que viu o título fugir-lhe na penúltima jornada, após uma derrota com o Benfica, e a Taça UEFA, na final em Alvalade com o CSKA Moscovo. A SAD do Sporting da altura, mesmo assim, decidiu manter Peseiro como treinador na época seguinte. Mas o técnico acabou por sair pouco depois de a temporada 2005-06 ter início. E em outubro foi substituído por Paulo Bento.

Paulo Bento, uma exceção à regra

O antigo jogador do Benfica e do Sporting treinava os juniores dos leões e foi promovido. Mas acabou por ser uma exceção à regra na dança de treinadores em Alvalade, permanecendo no clube quatro temporadas e meia. Realizou um total de 194 jogos oficiais, com 117 vitórias. Apesar de não ter conseguido conquistar o campeonato (ficou sempre no segundo lugar, atrás do FC Porto), ganhou duas Taças de Portugal e duas Supertaças. Acabou por sair na época 2009-10, durante o mês de novembro, demitindo-se na altura por considerar "não estarem reunidas as condições para se manter no comando técnico da equipa".

A partir de novembro de 2009 e até ao final da época, o Sporting teve mais dois treinadores. Leonel Pontes, que era adjunto de Paulo Bento e orientou a equipa num jogo do campeonato diante do Rio Ave, e imediatamente a seguir chegou Carlos Carvalhal. Os leões terminaram a temporada no quarto posto e sem títulos. E por isso Carvalhal não ficou.

Seguiu-se então uma nova época, com um novo treinador. Na realidade, na temporada 2010-11 passaram três por Alvalade. Paulo Sérgio começou a temporada (contratado depois de um bom trabalho no V. Guimarães), mas só durou até final de fevereiro, deixando o clube no terceiro lugar, a 15 pontos do Benfica e a 23 do líder FC Porto. Os leões anunciaram imediatamente que José Couceiro (que ocupava o cargo de diretor-geral do clube) seria o sucessor, mas Alberto Cabral, adjunto de Paulo Sérgio, ainda orientou a equipa num jogo do campeonato, numa derrota com o Nacional.

Mais uma nova temporada (2011-12), mais um novo treinador em Alvalade. Em maio de 2011, Domingos Paciência é o escolhido de Godinho Lopes para render Couceiro. Mas, no seguimento dos seus antecessores, não aguentou a época inteira. E em fevereiro deixou o clube. "Entendeu a administração da Sporting Clube de Portugal - Futebol, SAD rescindir contrato com o seu treinador Domingos Paciência, por entender que quer a eliminação da fase de grupos da Taça da Liga quer o 5.º lugar atual na Liga Zon/Sagres não correspondem aos objetivos propostos para este primeiro ano de mandato", justificou na altura o Sporting, elegendo Ricardo Sá Pinto para o cargo. Os leões terminaram o campeonato no quarto lugar, outra vez sem títulos conquistados, depois de serem derrotados pela Académica na final da Taça.

Sá Pinto ainda iniciou a temporada 2012-13, mas deixou o comando da equipa logo no mês de novembro, não resistindo a uma derrota difícil de digerir com o Videoton, da Hungria, por 3-0. O filme já visto muitas vezes em épocas anteriores repetia-se e Oceano Cruz, que era adjunto de Sá Pinto, pegou na equipa interinamente. Mas, nos quatro jogos em que liderou o Sporting, nem uma vitória. A SAD, entretanto, já tinha anunciado o novo treinador, o antigo internacional belga Franky Vercauteren, que se estreou a 4 de novembro com uma derrota no Bonfim com V. Setúbal.

O belga tinha assinado contrato até ao final da temporada, com mais uma de opção, mas o Sporting não esperou sequer pelo final da época para o despedir. A 7 de janeiro o belga foi demitido, depois de ter apenas ganho dois jogos em 11 disputados. Nessa mesma noite, a SAD leonina anunciou a contratação de Jesualdo Ferreira, que acumulou as funções de treinador com as de manager.

Jesualdo, que se tornou um dos poucos treinadores portugueses a orientar os três grandes, terminou a temporada no sétimo lugar, sem títulos para mostrar. E por isso deixou o clube por sua iniciativa no final da época, já então o Sporting era presidido por Bruno de Carvalho. "Foi um dos momentos mais difíceis da minha carreira, e da minha vida pessoal, dizer ao presidente Bruno de Carvalho que não ia continuar no Sporting. Não é difícil perceber que o processo não foi fácil, nem para a direção que chegou nem para o treinador", afirmou na altura o treinador.

Jardim, Marco Silva e o trunfo Jesus

A época 2013-14 marcou um novo ciclo em Alvalade. Leonardo Jardim foi escolhido por Bruno de Carvalho para reerguer o Sporting, depois de na temporada anterior ter sido estranhamente despedido do Olympiacos quando tinha a equipa no primeiro lugar e a uma distância considerável dos rivais diretos. A equipa do Sporting praticou um futebol que agradou aos adeptos, terminou o campeonato no segundo lugar... mas Jardim recebeu um convite milionário para treinar o Mónaco. Apesar de ter contrato com o Sporting, o técnico madeirense tinha uma cláusula que lhe permitia deixar Alvalade se um clube estrangeiro pagasse aos leões três milhões de euros. O clube do principado bateu a cláusula, e o Sporting e Bruno de Carvalho foram obrigados a procurar um novo treinador.

A 21 de maio de 2014, um dia depois de Jardim deixar o clube, Marco Silva foi anunciado para a temporada 2014-15, ele que tinha feito três temporadas de grande nível no Estoril, conseguindo as melhores classificações da história do clube - quinto lugar em 2012-13 e o quarto em 2013-14, levando o clube às competições europeias.

O então técnico de 36 anos terminou a época no terceiro lugar, mas após vários anos de jejum conseguiu dar um título ao clube, no caso a Taça de Portugal. O problema é que as relações entre presidente e treinador estavam completamente deterioradas e no dia 4 de junho de 2016 rebentou a bomba, com o Sporting a anunciar que tinha despedido Marco Silva invocando justa causa. O caso acabou por ser resolvido cerca de um mês depois, sem recurso a tribunal, com as partes a chegarem a um acordo.

Nesse mês com o Sporting sem treinador, Bruno de Carvalho desdobrou-se em contactos para garantir um grande nome. E para surpresa de todos o eleito foi... Jorge Jesus, uma notícia dada em primeira mão pelo DN, uma verdadeira bomba. Afinal, o Sporting acabara de garantir a contratação do treinador bicampeão pelo Benfica, oferecendo-lhe na altura um contrato milionário de seis milhões de euros brutos por temporada e um vínculo de três anos.

Seguiram-se três temporadas com Jorge Jesus no comando. Em 2015-16, o Sporting inicia a temporada a conquistar a Supertaça e termina o campeonato no segundo lugar. Na segunda temporada (2016-17), os leões acabam no terceiro lugar sem qualquer troféu. E na época passada venceram a Taça da Liga, perderam a final da Taça de Portugal e voltaram a concluir o campeonato na terceira posição. Antes da final da Taça de Portugal perdida para o Aves, acontecem os tristes acontecimentos do ataque de Alcochete que precipitaram uma série de acontecimentos no clube. Jogadores a avançarem com pedidos de rescisão, Jesus a deixar o Sporting depois de chegar a acordo com Bruno de Carvalho, e o presidente a cair em desgraça, com guerras e processos internos que levaram mais tarde à sua saída.

Mihajlovic não conheceu cantos à casa e Cintra elegeu Peseiro

Mesmo no meio de todo este clima de guerrilha, Bruno de Carvalho ainda avançou para a contratação de um treinador. E o eleito foi o sérvio Sinisa Mihajlovic, que tinha passado por clubes como Bolonha, Catânia, Fiorentina, seleção da Sérvia, Sampdoria, AC Milan e Torino. Chegou a ser oficializado, mas nem conheceu os cantos à casa, pois, com a saída de Bruno de Carvalho da presidência e a entrada em funções da Comissão de Gestão e da SAD presidida por Sousa Cintra, uma das primeiras medidas foi rescindir imediatamente o contrato com Mihajlovic.

Como estávamos no final da época, e as eleições só foram marcadas para setembro, uma das prioridades de Sousa Cintra era escolher um treinador. E, depois de falhado o regresso de Jorge Jesus e mais uns quantos nomes, Cintra elegeu José Peseiro, uma escolha que logo na altura não foi muito consensual.

Com a equipa abalada pelos acontecimentos ocorridos no verão, e já sem jogadores nucleares como Rui Patrício, William Carvalho e Gelson Martins, Peseiro até começou bem a época, apesar da desconfiança dos adeptos. Mas a derrota em Portimão por 4-2, na sétima jornada, não foi bem digerida pelos dirigentes leoninos, agravada pela exibição medíocre diante do Loures, que o triunfo por 2-1 não disfarçou. O triunfo e a exibição da equipa diante do Boavista (3-0) atenuaram a contestação, mas Peseiro não se livrou do despedimento com a derrota de quarta-feira, em pleno Estádio José Alvalade, diante do Estoril, para a Taça da Liga.

Agora, Tiago Fernandes, filho de Manuel Fernandes, que fazia parte da equipa técnica de Peseiro, vai orientar provisoriamente os leões até que seja anunciado o novo técnico. E muito provavelmente será ele o 19.º treinador do clube desde que o Sporting foi campeão, pois tudo indica que irá orientar a equipa neste domingo, nos Açores, diante do Santa Clara, podendo até estar no banco na quinta-feira, dia 8, quando o Sporting se deslocar a Londres para defrontar o Arsenal na Liga Europa, já que o processo de escolha do novo treinador pode arrastar-se por alguns dias.

Nomes como Paulo Sousa, Leonardo Jardim e até Jorge Jesus foram apontados como possíveis sucessores, mas o DN sabe que pelo menos os dois últimos estão fora de hipótese. Miguel Cardoso, ex-Rio Ave e atualmente sem clube depois de ter deixado o Nantes, é também um alvo a ter em conta. A SAD do Sporting não coloca de lado a possibilidade de o treinador ser estrangeiro, até porque se trata de um mercado onde existem mais opções. O espanhol Aitor Karanka, ex-adjunto de José Mourinho no Real Madrid que agora treina o Nottingham Forest, da II Liga inglesa, foi apontado pela imprensa italiana.

Quem foram, o que fizeram e quanto duraram os treinadores em Alvalade desde o último título.

2002-03
Laszlo Bölöni - 43J 21V, sem títulos

2003-04
Fernando Santos - 40J, 26V, sem títulos

2004-05
José Peseiro - 63J, 34V, sem títulos

2005-09
Paulo Bento - 194J, 117V, 2 Taças de Portugal e 2 Supertaças

2009
Leonel Pontes - 1J, 0V, sem títulos

2009-10
Carlos Carvalhal - 33J, 16V, sem títulos

2010-11
Paulo Sérgio - 38J, 20V, sem títulos

2011
Alberto Cabral - 1J, OV, sem títulos

2011
José Couceiro - 10J, 4V, sem títulos

2011-12
Domingos Paciência - 35J, 19V, sem títulos

2012
Sá Pinto - 30J, 15V, sem títulos

2012
Oceano Cruz, 4J, 0V, sem títulos

2012-13
Franky Vercauteren, 11J, 2V, sem títulos

2013
Jesualdo Ferreira, 18J, 10V, sem títulos

2013-14
Leonardo Jardim, 35J, 23V, sem títulos

2014-15
Marco Silva, 53J, 31V, 1 Taça de Portugal

2015-18
Jorge Jesus, 154J, 98V, 1 Supertaça e 1 Taça da Liga

2018-19
José Peseiro (2018/19), 14J, 9V, sem títulos

Exclusivos

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.