Hiperativo, com défice de atenção, deprimido: a paixão pelos rótulos

Psicóloga e pedopsiquiatra dizem que a atribuição de etiquetas às crianças serve para tranquilizar os adultos. É resultado da sociedade em que vivemos, mas pode ter consequências nefastas no desenvolvimento das crianças.

Se a criança é muito agitada, é hiperativa; se está sempre com a cabeça na lua, tem défice de atenção; se passa muito tempo quieta e não se envolve, está deprimida. Os autores do livro Niñ@s hiper: Infâncias H iperactivas, Hipersexualizadas, Hiperconectadas dizem que estamos perante um fenómeno de naming na infância. "A paixão de querer rotular tudo. Precisamos de dar um nome a tudo, de maneira a compreender e poder atuar de acordo", dizem, citados pelo El País.

Ramón Ubieto, psicanalista e professor na Universidade Aberta da Catalunha, e Marino Pérez Álvarez, professor catedrático de Psicologia na Universidade de Oviedo, consideram que os pais estão a acelerar a infância das crianças, fazendo que esta tente corresponder aos seus próprios ideais. Ubieto diz que os pais pretendem que as crianças atuem como os adultos: empreendedores, com uma identidade sexual clara, que dominem vários idiomas, criativos.

Neste contexto, um dos principais problemas da infância é, no entender dos autores, a vontade de rotular tudo, o que condiciona a forma como as crianças aprendem e se desenvolvem. Muitas vezes, é dado um diagnóstico a uma situação que faz parte do desenvolvimento da criança, sem que exista, de facto, um problema. Mas porque será que existe essa necessidade de etiquetar as crianças?

"Dar um nome organiza as pessoas, particularmente quando damos um nome ao que que foge à norma. Nas questões de saúde e de desenvolvimento, é organizador para os pais atribuir um nome. De um modo geral, os adultos fazem-no porque isso os tranquiliza", diz a psicóloga Inês Afonso Marques.

A responsável pela área de saúde mental infantojuvenil da Oficina de Psicologia conta que lhe chegam ao consultório "crianças com diagnósticos já feitos pelos pais, pelos professores, pelo que alguém leu na internet". Fala-nos de hiperatividade, défice de atenção, depressão. "Há um crescendo facilitismo na atribuição de rótulos, tal como existe um sobrediagnóstico", critica.

Inês Afonso Marques prefere fugir aos rótulos. "É importante respeitar a individualidade e as características idiossincráticas de cada um. Mesmo quando a situação foge um pouco à norma, mais importante do que dar um nome é caracterizar as facilidades, as dificuldades, os pontos fracos e os pontos fortes. Desta forma, é possível intervir, sem que seja necessário dar um nome."

Quando existe uma situação de aflição, há a tendência "para a classificar muito rapidamente, até para nos tranquilizarmos", considera a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos. Ao dar significado a algo, "parece que deixa de fazer mal à pessoa, porque já não coloca dúvidas". Na opinião da especialista, isto está relacionado "com o facto de haver muita rapidez na vida das pessoas, muita coisa para fazer, uma necessidade rápida de acabar com as dúvidas". Muitas vezes, prossegue, não é porque os adultos "queiram fazê-lo de forma refletida, mas porque o ritmo de vida o impõe".

Aos conceitos "hiper" introduzidos pelos autores espanhóis, Ana Vasconcelos acrescenta as infâncias "hiperagitadas, hiperintelectualizadas". Tudo isto relacionado com a "síndrome do pensamento acelerado". Há, segundo a pedopsiquiatra, "a necessidade de fazer tudo muito rápido, sem haver tempo de reflexão. Arrumar situações, pôr rapidamente um rótulo".

Quanto a esta necessidade de colocar etiquetas, Ana Vasconcelos diz que ocorre "por parte dos pais e dos técnicos, que querem fazer logo um diagnóstico para dar medicação". "Quando a sociedade não está bem, com níveis de ansiedade muito grandes, há uma hiperaceleração", explica. Desta forma, "os adultos não permitem dar o seu tempo de adultos às crianças, fazem que cresçam a um ritmo acelerado, com os ponteiros do relógio a ir mais depressa".

Sentir que é diferente

Ao ser atribuído um rótulo à criança, seja ele qual for, a pedopsiquiatra diz que esta vai sentir que é diferente. "E ninguém se sente bem com isso", alerta. Por outro lado, a diferença acaba, muitas vezes, "por se transformar em gozo". O problema não é tanto o rótulo em si, mas "a consequência, porque a diferença começa a lesar a pessoa".

Na opinião da psicóloga Inês Afonso Marques, as consequências vão sempre depender da criança. "Para algumas o rótulo pode deixá-las mais tranquilas, porque percebem o que se passa, mas outras sentem-se mais à margem, podem sentir-se criticadas, diferentes."

Uma das etiquetas muitas vezes mal usada é a da hiperatividade com défice de atenção, que se estima ter uma prevalência entre 5% e 7% em Portugal. "Efetivamente, existem crianças hiperativas, mas muitas vezes temos crianças naturalmente agitadas, às quais alguém colocou o rótulo da hiperatividade. Por vezes, é atribuído pelo professor e por pessoas sem competência para fazer o diagnóstico", critica Inês Afonso Marques.

Por cá, onde se calcula que 23 mil crianças estejam medicadas para a hiperatividade com défice de atenção, existiu uma proposta do partido PAN para proibir a prescrição de medicamentos para a hiperatividade e défice de atenção até aos 6 anos, mas foi chumbada pela maioria dos deputados, no dia 24 de outubro, por considerarem que o Parlamento não pode interferir num ato médico.

Outro rótulo mal atribuído é o da depressão. "Se a criança está muito quieta e não se envolve nas coisas, dizem que está deprimida. Mas a depressão numa criança tende a manifestar-se em agitação psicomotora, irrequietude, o que não cola com o diagnóstico do adulto. Até pode ter alguma sintomatologia depressiva e não estarmos perante depressão", sublinha a psicóloga.

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