Alunos de Letras estão a ter aulas online nas escadas e corredores

O regime de horário misto da Faculdade de Letras, em Lisboa, obriga os alunos a correr entre as aulas presenciais e à distância, a que assistem sentados no chão. O diretor da faculdade diz que "é a menos má das soluções".

Na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa não parece haver horas mortas, sempre com jovens a circular de um lado para o outro, maioritariamente mulheres. O que é diferente dos anos letivos sem pandemia é que muitos estão com os computadores, tablets e, até, telemóveis, a assistir às aulas por Zoom sentados no chão.

O sistema de aulas é misto e têm aulas presenciais, seguidas de aulas à distância e vice-versa. Sem tempo de tolerância para trocarem de aula quanto mais para se deslocaram para as suas casas. Os alunos criticam a direção da faculdade, argumentando que têm amigos em outros estabelecimentos do ensino superior onde um aluno não tem aulas presenciais e à distância no mesmo dia. Onde a gestão do horário misto é feita à semana, à quinzena e, até, diária, nunca no mesmo dia.

Beatriz e Rita são alunos do 1.º ano da faculdade, em cursos diferentes, mas com disciplinas em comum. Também têm em comum o facto de viverem em Almada, o que significa apanhar mais do que um transporte e levarem 40 minutos no mínimo para chegar a casa.

Sentadas no chão na entrada principal da faculdade, uma assiste à aula por Zoom; a outra faz tempo para ter uma aula na presença do professor.

Beatriz Salsinha tem 18 anos, está no 1.º ano do curso de Tradução. Nesta quarta-feira, chegou à faculdade às 09.30, para ter Inglês. Seguiu-se um furo no horário e uma aula presencial às 12.30. Pausa para almoço antes de assistir, às 14.30, à disciplina de Análise Textual online. Acaba às 15.30, à mesma hora que inicia uma aula presencial.

A solução para Beatriz é sentar-se no chão e no sítio mais perto da sala onde terá a aula presencial. "Poderia ir para a "sala do silêncio" mas muitas vezes está cheia, além de que não se pode falar, Não podemos participar nas aulas", justifica. Desloca-se à faculdade quatro vezes por semana, sempre com o computador atrás.

A seu lado está Rita Costa, 18 anos, do 1.º ano do Curso de Línguas, Literaturas e Culturas. Começou com Inglês, às 09.30, teve um furo de hora e meia depois, Estudo da Literatura via Zoom às 12.30, para voltar a ter um furo, antes de nova aula presencial. "Moro em Almada, mas mesmo que morasse mais perto não dava para ir a casa entre uma aula e outra. Venho à faculdade às segundas, terças e quartas", diz.

Cristina Costa, 23 anos, está 2.º ano do mesmo curso. Encostada a um pilar, procurou as escadas para assistir a Estudo da Língua Humana online, das 15.30 às 17.00. Atenta ao tablet e tomando notas num caderno, material que terá de arrumar à pressa para se deslocar à sala onde terá uma aula presencial. Começou às 08.00.

"Não temos tempo entre as aulas. Houve colegas que falaram com a associação e tentaram falar com o diretor da escola para que acabassem as aulas por Zoom entre as aulas presenciais. Também falámos com os professores, que até se mostraram disponíveis, mas dizem que não podem tomar essa decisão sozinhos, tem de ser a direção. Pelo menos, que dividissem os dias das aulas presenciais e à distância, já não digo por semanas como acontece em outras faculdades", argumenta a Cristina.

Não tem nenhum dia só com aulas presenciais ou à distância, o que a obriga a ir os cinco dias da semana à faculdade, com aulas entre as 08.00 e 18.30.

O diretor da Faculdade de Letras, Miguel Tamen, disse ao DN que "o horário misto é a menos má das soluções". Justifica: "O horário misto é a melhor de todas as soluções possíveis para os cursos da Faculdade de Letras. As pessoas podem escolher milhares de cadeiras, o horário misto é a menos má das soluções."

Indica que a faculdade tem 17 cursos, para um total de 4500 alunos, sendo difícil gerir os horários de forma a separar os dias consoante o regime de aulas. "As faculdades que dividem os alunos por semanas têm estruturas mais simples, esse regime não é possível aqui."

Diminuíram a carga letiva em 25%, o que significa que as aulas eram de duas horas e passaram a hora e meia, e metade do currículo é administrado à distância. Acredita que essas medidas fizeram que se reduzisse para 37,5% a presença de estudantes no estabelecimento de ensino comparativamente ao período antes da pandemia.

Nuno Tibiriçá, 21 anos, estudou e fazia jornalismo em São Paulo, está a acabar o curso de Cultura e Comunicação. Faz parte da direção da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (AEFLUL).

Defende que fosse alargado o período de tempo do semestre de forma a espalhar mais as aulas e para garantir as condições de segurança face à pandemia. O semestre começou no dia 30 de setembro e vai acabar a 18 de dezembro, dois meses e 18 dias de aulas.

"Na maior parte das aulas, consegue-se o distanciamento social, mas isso não acontece no 'pavilhão novo'. As pessoas são obrigadas a assistir às aulas nas escadas e nos corredores, faltam salas. A associação transformou o bar em sala de estudo e de refeições, mas não é suficiente", denuncia o dirigente estudantil.

Aulas gravadas

Explica Nuno Tibiriçá: "A associação defende o ensino presencial mas, em tempos de pandemia, o problema são as condições de segurança, nomeadamente o distanciamento entre as pessoas. Os alunos de grupos de risco, que vivam com pessoas desses grupos ou que precisem de apanhar vários meios de transporte, poderiam assistir às aulas à distância. Conhecemos faculdades que têm esse sistema, os professores gravam as aulas e disponibilizam-nas para quem não puder vir à faculdade. É falta de organização para que isso não aconteça aqui."

Israel Miguel, 22 anos, 3.º ano de Arqueologia, também prefere as aulas presenciais. "O método de estudo é muito diferente e falta o contacto físico, o calor humano", argumenta. Mas, uma vez que a covid-19 não o permite, defende que o regime misto deveria ser por dias.

Vai à faculdade às segundas, quartas e quintas, tenta arranjar um lugar na biblioteca para seguir o ensino à distância. Há dias, como acontece à quinta-feira, em que a primeira aula, às 11.00, é à distância mas não pode ficar em casa para chegar a tempo das aulas presenciais. "Tenho de ir mais cedo porque às 12.30 preciso de estar na faculdade para assistir a uma aula. Às quartas, tenho uma aula por Zoom às 09.30 e depois um furo, o que permite assistir em casa, mas tenho de garantir que chego à faculdade em hora e meia. Tenho aulas presenciais às 12.30 e às 17.00. Vivo em Almada e levo cerca de hora e meia nos transportes."

A solução poderia passar, também, por aulas gravadas, como defende a associação de estudantes, até porque, dizem, há professores que estariam disponíveis para o fazer.

Miguel Tamen contrapõe: "As aulas gravadas põem o problema da segurança dos dados e da privacidade. Os professores que quiserem podem fazê-lo mas não seremos nós a substituir-nos aos direitos dos professores, nomeadamente o direito à imagem."

Mariana Brito, 19 anos, 1.º ano do curso de Línguas, Literaturas e Culturas. Nesta quarta-feira entrou na faculdade às 09.30 para terminar às 20:00. "Tenho a última aula por Zoom mas tenho de ficar na faculdade, a não ser que assistisse às aulas nos transportes", justifica. Mora em Mem Martins, apanha comboio e metro, leva uma hora a chegar a casa. Só às quintas-feiras não tem aulas presenciais.

Ratos e baratas

Um outro problema da Faculdade de Letras é o mau estado das instalações. "São vários os problemas de falta de condições", diz Cristina Costa, destacando o "pavilhão novo", que nada tem de novo, uma vez que foi construído nos anos 1970, já nessa altura como instalações provisórias. "Chove lá dentro, há ratazanas e baratas, nada tem sido arranjado", especifica a aluna.

Nuno Tibiriçá entende que a falta de meios é extensível a outras instituições. "O problema principal é a falta de financiamento, faz que não tenhamos as condições, e esse é um problema geral a todo o ensino superior. Na semana passada fizemos uma ação de protesto junto da Assembleia da República."

Cristina acrescenta que nem sempre as verbas são canalizadas para onde deveriam: Exemplifica: "A meio do semestre passado, colocaram fechaduras nas salas, o que terá sido uma grande despesa, em vez de arranjar o que está deteriorado. Agora, as fechaduras automáticas até são um problema porque faz que os alunos se juntem à porta à espera do professor para entrarem. Os professores têm de abrir com um cartão e, por vezes, não conseguem. Têm de pedir a um funcionário."

Miguel Tamen dá uma boa notícia aos alunos: "Queixam-se das condições do pavilhão e com razão. Este é o último ano em que estará a funcionar, esperamos que a demolição comece no ano civil de 2021. Está a decorrer um concurso para fazer a adjudicação da obra."

Já quanto a alteração no regime misto de lecionarem as aulas irá manter-se no segundo semestre, com início em finais de janeiro. Sublinha o diretor da faculdade: "Vai continuar a menos que a situação melhore ou piore."

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