Premium Made in China

Xi Jinping chega a Lisboa com um encantamento generalizado sobre a benevolência da China na política internacional. Portugal, uma vez mais, despreza o debate estratégico e oscila entre o que melhor sabe: a euforia e o espírito acrítico. Não haverá meio-termo?

Numa semana, Lisboa recebeu o presidente de Angola e o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, este último na véspera do Conselho Europeu que aprovou, pela primeira vez na história da União Europeia, um acordo de retirada de um Estado membro, por sinal aquele com quem temos a aliança bilateral formal mais antiga. Neste apressado (e sujeito a erros políticos) xadrez no preenchimento de vazios, chega depois de amanhã a Lisboa o presidente da China, após paragem em Madrid. Uns dirão que tudo isto faz parte de um roteiro de afirmação do nosso país na política internacional, num diálogo estratégico e necessário com potências fora da União Europeia, capaz de diversificar fontes de investimento estrangeiro, elevar o nosso poder nos equilíbrios europeus, garantindo para as nossas empresas uma reciprocidade comercial à prova de bala nesses mercados. Se assim for seguido à risca, tiro o chapéu aos nossos grandes estrategas políticos.

Há, no entanto, outros um pouco mais desconfiados dessa defesa acérrima do interesse nacional quando são já vários os setores estratégicos dependentes de uma só fonte de investimento estrangeiro, no caso chinês, numa soma que em poucos anos atingiu os 12 mil milhões de euros; ou numa dependência petrolífera que pela primeira vez na nossa democracia tem a Rússia, a Arábia Saudita, o Azerbaijão e o Cazaquistão como principais fontes, ou 60% do total das importações portuguesas. Devo dizer, para que fique claro, que não acho possível nem desejável que democracias só se relacionem com democracias, nem que o melhor investimento estrangeiro seja exclusivo de uma qualquer "fonte pura" com origem nas nossas alianças ocidentais.

Como é fácil perceber pelos mais de mil artigos que venho trabalhando nestes oito anos de Diário de Notícias, também defendo que só se transformam ditaduras e demais autocracias se as expusermos às relações internacionais, abrindo-as e trazendo-as às dinâmicas comerciais e políticas que nos definem no Ocidente. Mas para que isso aconteça é preciso que do lado de lá haja vontade para essa transformação e, sobretudo, que a passada do lado de cá não seja tendencialmente monopolista nem condicionadora das nossas opções estratégicas. É preciso estabelecer limites à ação autocrática. Um deles é que não controle os nossos decisores políticos, económicos e militares, de forma a deslaçar a nossa democracia e o espaço comunitário que a vem acomodando, num tempo em que assistimos na União Europeia a uma dinâmica desintegradora sem precedentes.

Não se faz escrutínio à decisão política se os media não cumprirem os mínimos olímpicos.

Xi Jinping chega a Lisboa com o propósito que o levou a Madrid: envolver oficialmente Portugal e Espanha na Belt and Road Initiative (BRI), a única grande estratégia em curso por uma potência com interesses globais. Pedro Sánchez, tal como Theresa May, Macron e Merkel, recusou oficializar a inclusão do seu país, o que deixa Portugal, com Sines como joia da coroa, numa posição difícil: ou integra oficialmente a BRI, esperando maximizar os proveitos, ao arrepio do centro político da UE, ou diverge e assume a singularidade. Até o poderá fazer, mas precisa de encarar todos os prós e contras dessa decisão. Infelizmente, tivemos mais debate sobre touradas e dirigismo desportivo do que sobre as grandes questões estruturais com impacto no nosso país por longo prazo. Não se faz escrutínio à decisão política se os media não cumprirem os mínimos olímpicos.

A BRI pressupõe a criação de uma ordem económica onde a cadeia de valor é moldada pela China desde a origem até ao consumidor, criando as raízes necessárias para uma influência política que acomode uma ordem internacional à imagem da natureza política do seu regime. Para a atingir são precisos dois condimentos: muito dinheiro e uma política externa que assente, nas palavras do presidente Xi Jinping, "numa diplomacia socialista com características chinesas". No primeiro caso, foram criados o Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco Asiático para o Investimento e Infraestruturas e o Fundo para a Rota da Seda, todos para operacionalizar uma rede de afirmação comercial e política que liga o mar da China do Sul, o Índico, o Mediterrâneo, a Europa do Sul e o Atlântico Sul, através de investimentos em grandes infraestruturas. No segundo caso, através de um roadshow de charme presidencial em defesa do liberalismo económico e do multilateralismo, que começou em Davos (2017), continua nas constantes visitas de Estado, e tem encantado (enganado?) meio mundo. Se isto não tem um propósito geopolítico, como Pequim oficialmente descarta, então não sei o que poderá ter.

Esta grande estratégia chinesa é tão-somente o programa geopolítico com mais impacto nas próximas décadas à escala global. As capitais europeias não precisam de ver este grande xadrez como um desafio de soma nula, mas serão obrigadas a fazer opções. Politicamente estão próximas do Atlântico, mas a Casa Branca não transmite confiança. Financeiramente, a oportunidade pode pender para a Eurásia. No meio das duas, a vaga nacionalista que nos atravessa pode resultar em proveito de Moscovo. É tempo de definições. Tudo o que Portugal não costuma fazer.

Investigador universitário

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nuno camarneiro

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"Neste país todos querem ser Camões mas ninguém quer ser zarolho", a frase é do Raul Solnado e vem a propósito do despedimento de José Mourinho. Durante os anos de glória todos queriam ser o Mourinho de qualquer coisa, numa busca rápida encontro o "Mourinho da dança", o "Mourinho da política", o "Mourinho da ciência" e até o "Mourinho do curling". Os líderes queriam ter a sua assertividade, os homens a sexyness grisalha e muitas mulheres queriam ter o Mourinho mesmo.