A comida faz parte da nossa História. Mas conhecemos a sua evolução ao longo do tempo? Qual a sua importância nos eventos históricos? Numa tertúlia descontraída, organizada por Luís Machado e realizada no Clube Militar Naval, em Lisboa, foi possível constatar que, na verdade, não sabemos assim tanto sobre a história da gastronomia. Na verdade, o que chegou até aos nossos dias foi uma ínfima parte do que realmente existiu. Basta pensar, por exemplo, que os relatos existentes referem-se apenas à gastronomia da corte e, nomeadamente, às ementas realizadas em grandes banquetes. E, isso, só a partir de determinada altura. Porque, como lembrou o professor e gastrónomo Virgílio Gomes, foi no século XVIII que se criaram, em França, as grandes bases dos livros de gastronomia..Mas o peso (ou a revolução) da gastronomia "real" ocorreu mais cedo, no século XVII, quando foi criada a chamada "comida de exibição". Diga-se, quando os banquetes passaram eles próprios a ser parte do espetáculo. É inegável o peso da gastronomia francesa quando se fala de "comida". Mas isso não significa que tenha sido a única. Virgílio Gomes lembra que, por volta de 1611 foi publicado um livro - não se sabe o nome do cozinheiro - de cozinha barroca espanhola, que tinha cinco receitas à portuguesa (por exemplo o famoso Cozido à Portuguesa, embora identificado com outro nome)..Essa pode ter sido uma das primeiras identificações de receitas portuguesas (ou à portuguesa), mas não a única. O professor lembrou que, por exemplo, Carlos V permitiu que a esposa tivesse ao seu serviço uma equipa exclusivamente portuguesa. O que permitiu a partilha de receitas e costumes..A influência portuguesa refletiu-se noutros eventos importantes. Em 1867, Napoleão III serviu uma refeição, conhecida por Jantar dos Três Imperadores - além de Napoleão III estavam presentes o Imperador Russo Alexandre II e o Imperador Alemão Guilherme I - onde Portugal aparece três vezes no menu, onde se incluiu o Poulet à la Portugaise e em que o primeiro vinho servido foi um Madeira, que tinha feito uma viagem até à Índia..Bruno Moreira Leite, investigador brasileiro, revelou que só no século XIX, com a sintetização da cozinha francesa é que esta, efetivamente, começou a influenciar o mundo. A chamada Nouvelle Cuisine inicialmente procurava ter uma visão simples da gastronomia, mas começou a degenerar e, na década de 1930, "já havia alguns cozinheiros que começavam a questionar a forma como se cozinhava", afirma, acrescentando que enceta a entrada em decadência quando se dá início à apresentação de porções diminutas..Mais tarde dá-se o avant-garde da gastronomia espanhola e surge o conceito de cozinha de autor. Outro movimento que aparece é o da cozinha molecular que, sublinha, mais não é que a ciência que visa estudar a transformação que ocorre nos alimentos quando se cozinha..Virgílio Gomes aponta que, infelizmente, só conhecemos as refeições dos reis. Não se sabe o que a "plebe" comia. Porque não há qualquer registo disso. Só no século XIX foi publicado um livro que, no meio das receitas tinha soluções para a casa..A isto a chef Marlene Vieira acrescenta que as grandes casas senhoriais, os grandes restaurantes sempre foram dominados por homens. Porque esse espaço era interdito às mulheres. Estas eram responsáveis pela cozinha doméstica e pelas tarefas consideradas "menores". Algo que tem vindo a ser alterado. "Agora já há espaço para que as mulheres sintam que podem fazer da cozinha a sua profissão", constata..dnot@dn.pt