"O principal problema é que as pessoas que estão a lançar uma espécie de invasão ao nosso país estão a ser tratadas da mesma forma do que os alemães e isso é uma injustiça." A frase, citada pela AFP, é do talhante Olaf Quinger, de 62 anos, um dos muitos alemães que a reportagem desta agência noticiosa internacional encontrou na campanha do Alternativa para a Alemanha (AfD) em Chemnitz, na Saxónia, um dos dois estados federados alemães que este domingo realizam eleições regionais. O outro é o de Brandemburgo..Quinger é um dos potenciais eleitores deste partido de extrema-direita, que já está presente no Bundestag e nos parlamentos dos 16 estados federados alemães. No entanto, segundo indicam as sondagens, esta é a primeira vez que a formação política tem a possibilidade de ficar em primeiro lugar..Na Saxónia, a AfD está em segundo nas intenções de voto com 24,9%, atrás da CDU da chanceler alemã Angela Merkel. O partido atualmente liderado pela sua ministra da Defesa Annegret Kramp-Karrenbauer (AKK) surge creditado com 29%. Na terceira posição está o Die Linke (15%), na quarta os Verdes (10,9%) e só na quinta aparecem Os sociais-democratas do SPD (8,9%)..Em Brandemburgo a AfD surge empatada com o SPD com 20,3% das intenções de voto. Em terceiro surge a CDU de Merkel, com 17,9% das intenções de voto. Na quarta posição, com 15,5%, está o Die Linke, que apesar de tudo ainda se mantém bastante forte na antiga Alemanha de Leste. Paradoxalmente, é na ex-RDA que a AfD mais cresce..Apesar de os alarmes soarem, mesmo que a AfD ganhe isso não significa que vá conseguir governar nenhum destes estados, pois os outros partidos logo formarão coligações para a excluírem. Mas significa que, 80 anos após o início da Segunda Guerra Mundial, parte dos alemães continua a virar-se para a extrema-direita quando estão descontentes. E que, 30 anos após a queda do Muro de Berlim, a Alemanha continua dividida..Muitos alemães de Leste continuam a queixar-se de tratamento desigual e da arrogância dos alemães ocidentais. Após a reunificação houve uma perda de empregos e uma fuga de população na ex-RDA. E muitos sentem que nunca foram compensados. Na Alemanha de Leste o rendimento médio mensal é 533 euros, inferior ao rendimento da Alemanha Ocidental.."Há muita pobreza entre os pensionistas", diz Heide Haenig, uma química reformada, de 70 anos, apontando para um parque, onde se encontram alguns imigrantes. "Eles agem como se fossem donos da Alemanha. Nem sequer pagam renda de casa. E recebem 200 euros por cada filho que têm... e depois têm sete filhos!", afirma, numa altura em que os economistas começaram a avisar que a Alemanha pode entrar em recessão. E em que o nível de confiança dos empresários e dos consumidores tem vindo a cair..No comício que fez em Chemnitz, o colíder da AfD, Alexander Gauland, afirmou que a Saxónia, tal como a Polónia e a Hungria, são "o coração da resistência e da liberdade". Tanto agora como no tempo da URSS. Gauland e a AfD, cujo slogan é "Nós Somos o Povo", sabem bem o que estão a fazer.."A AfD está a oferecer uma coisa às pessoas da Saxónia e no Leste que toda a gente em geral está a sentir falta: um sentimento de pertencer a algo e um sentido de rebelião", declarou à agência noticiosa AP o cientista político Johannes Staemmler, que pertence ao Instituto de Estudos de Desenvolvimento Avançado em Potsdam..O misto de descontentamento em relação ao governo da chanceler Angela Merkel e às suas políticas sociais, de fadiga em relação às suas grandes coligações, de protesto contra a sua política de portas abertas que, em 2015, permitiu que 1,5 milhões de migrantes e refugiados entrassem na Alemanha, arrastam pessoas descontentes para a AfD. E não porque são todas forçosamente de extrema-direita, neonazis, racistas ou xenófobas.."Muitos eleitores da AfD não têm uma visão de extrema-direita do mundo mas são atraídos por promessas eleitorais específicas, incluindo as que vão contra o sistema", refere à AFP o sociólogo David Begrich. "O ressentimento contra 'esses', as elites, agrada às pessoas aqui no Leste", prossegue, sublinhando que na antiga Alemanha de Leste, "muitos se veem como cidadãos de segunda classe"..Em Heinersbrück, Brandemburgo, "não temos estrangeiros nem problemas de racismo", assegura Horst Nattke, presidente da Câmara que é um antigo trabalhador de uma central a carvão local. Ali, a escola, o supermercado, o museu de história e as consultas para ir ao médico desapareceram. E o encerramento da central gera receios de que o desemprego possa subir. "O que é que nos vai ser oferecido em vez disso", pergunta Nattke, citado pela reportagem da AFP.."Estamos a morrer aqui e ninguém nos ouve. Estão a desenvolver o 5G. E nós nem sequer conseguimos ter rede. Conduzem e-scooters e nós carros a diesel. Mas sem carro como vamos nós fazer? Não vemos alternativa e dizemos a nós próprios que temos então de experimentar algo diferente", desabafa Heidemarie Liebo, uma pensionista daquele município atingido pelo despovoamento e pelo desespero dos que ficaram..O resultado que este descontentamento nos estados da ex-RDA pode dar à AfD poderá fragilizar - ainda mais - a grande coligação de Merkel entre CDU/CSU e SPD. A chanceler alemã tem um problema de sucessão. Annegret Kramp-Karrenbauer, que nasceu e fez carreira da Alemanha Ocidental, sucedeu-lhe na liderança da CDU em 2018. Mas muitos especulam que não tem perfil e carisma para lhe suceder no governo. Merkel nomeou-a agora para ministra da Defesa (com a saída de Ursula von der Leyen para a presidência da Comissão Europeia), dando-lhe mais uma oportunidade de mostrar aquilo que realmente vale..Nos últimos meses, AKK, como é conhecida nos media alemães e europeus, acumulou vários tipos de polémicas (desde gozar com a ideia das casas de banho mistas, até sugerir censurar youtubers, considerando-os ameaça à democracia). E viu a sua popularidade cair a pique..O SPD, por seu lado, não está melhor. Após a derrota histórica nas eleições de maio no estado federado de Bremen, Andrea Nahles demitiu-se de líder e o partido é agora chefiado por uma liderança tripartida interina. Humilhação histórica é a que pode sofrer também nas eleições de domingo no estado de Brandemburgo, que sempre tem sido um bastião social-democrata. A Saxónia, por seu lado, é governada pela CDU desde a reunificação alemã..Os Verdes, em sentido inverso, têm subido nas sondagens e, nas europeias, foram o segundo partido mais votado no país. Tanto que chegou a especular-se numa nova coligação entre CDU/CSU de Merkel e Os Verdes, para contornar legislativas antecipadas. Estas só estão previstas para 2021, ano em que a chanceler prometeu deixar o poder. Mas se fossem mais cedo quem as ganharia?