"Também quereis ir embora?"

O escândalo de abusos sexuais a menores na Igreja Católica nunca mais acaba. Após denúncias nos anos 1990, no Canadá, EUA, Austrália e Irlanda, o tema rebentou em 2002, sobretudo nas reportagens do The Boston Globe, dramatizados em Spotlight (2015), o galardoado filme de Tom McCarthy. Inusitadamente, após mais de 15 anos, o assunto volta a dominar as páginas dos jornais. Que significa isto?

Em primeiro lugar, acima de tudo, há que pensar nas vítimas e no seu horrível sofrimento. A pedofilia é sempre um crime infame e nojento, pior se é homossexual e muito pior praticada em abuso de autoridade. Quando essa autoridade tem origem religiosa e sagrada, a perversão torna-se propriamente demoníaca. Perante o impensável, a prioridade absoluta é, como diz o Papa na Carta ao Povo de Deus de 20 de Agosto: "Olhando para o passado, nunca será suficiente o que se faça para pedir perdão e procurar reparar o dano causado. Olhando para o futuro, nunca será pouco tudo o que for feito para gerar uma cultura capaz de evitar que essas situações não só aconteçam, mas encontrem espaços para serem ocultadas e perpetuadas." Este é o drama, e os factos são demasiado graves para ficarem submersos em assuntos laterais que, infelizmente, acabam a dominar a discussão.

O aspecto mais ocioso, mas também mais comum, são as teorias da conspiração. Existe um lobbygay na hierarquia católica? Há uma trama dos inimigos da Igreja para aproveitar e empolar estes temas? Que adiantam tais especulações para nós, que nunca poderemos determinar sequer a sua plausibilidade, quanto mais lidar com elas? Verdadeiras ou falsas, absurdas ou razoáveis, teses destas só deveriam interessar às autoridades competentes, religiosas ou civis, que os têm de investigar, resolver e sancionar.

Pelo contrário, os fiéis devem estar gratos pelo alvoroço à volta do caso, que foi e é decisivo para a sua erradicação. Felizmente, a notoriedade da Igreja Católica permitiu denunciar e extirpar este mal horrível. A ignomínia da pedofilia acontece em muitos ambientes e instituições, e os estudos sérios mostram que os da Igreja são ínfima minoria. Mas esses, ao menos, estão denunciados e punidos, graças à cobertura jornalística. Além disso, o facto de a generalidade dos casos referidos ser antiga, anterior à prescrição, manifesta o sucesso da denúncia e fortes medidas que a hierarquia tomou desde os primeiros alarmes. Com tanto alarido, dificilmente a ausência de queixas recentes resulta de ocultação. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer de tantas outras organizações, menos escrutinadas.

"A ignomínia da pedofilia acontece em muitos ambientes e instituições, e os estudos sérios mostram que os da Igreja são ínfima minoria"

Claro que deduzir destes crimes horrendos uma acusação à totalidade dos fiéis e hierarquia é um preconceito tão tonto como desprezar todo um povo por alguns casos de corrupção. Esta extrapolação, também muito frequente, é sempre abusiva e inválida, mas particularmente desadequada no caso da Igreja, que tem características únicas. Todas as instituições humanas são compostas por aqueles que, por alguma razão, lhes querem ou têm de pertencer. A Igreja é a única em que os membros o são devido exclusivamente a uma relação pessoal e comunitária com o fundador, Jesus Cristo, que morreu mas ressuscitou e está vivo e presente na vida dos seus discípulos, vida essa que constitui propriamente a Igreja. Mesmo quem acha esta convicção uma tolice pode compreender a diferença face a uma classe, associação ou clube. Por isso a Igreja é chamada Corpo de Cristo, Povo de Deus e Templo do Espírito Santo.

Além disso, esta instituição única é também única na sua vastidão e duração. Presente há dois mil anos e espalhada pelo mundo, sobrevive recorrentemente a inúmeros e graves dramas, escândalos e ataques. Por ser o que é, sempre atraiu sobre si os poderes do mal, dentro ou fora, como Jesus tinha avisado. Ao longo dos séculos múltiplas forças perversas a perseguem como Pilatos, ou seduzem como Herodes, e muitas vezes aconteceu que "por alguma fresta o fumo de Satanás entrou no templo de Deus", como disse o beato Paulo VI na homilia do 9.º aniversário da coroação, 29 de Junho de 1972. O escândalo actual representa a expulsão final do fumo então denunciado, mas já na Escritura, em particular nos Actos dos Apóstolos e Epístolas, vemos relatos paralelos. Em todos estes casos existe só uma questão relevante, colocada logo no início.

Após a multiplicação dos pães a popularidade de Jesus atingiu, naturalmente, a apoteose. Quando os discípulos o reencontram, o Mestre, em vez de capitalizar a dinâmica, fala em comer a Sua carne e beber o Seu sangue, irritando grande parte dos recém-convertidos pela abundância; "desde então, muitos dos discípulos se retiraram e já não o seguiam. Jesus perguntou então aos Doze: 'Também vós quereis ir embora?'" (Jo 6, 66-67). A resposta de Simão Pedro manifesta que ele está tão perplexo quanto os demais, tão perplexo como nós hoje ao ouvir contar horrores de prelados. Mas Pedro esquece o acessório e agarra-se ao essencial: "Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna" (Jo 6, 68).

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