Esquerda, esquerda, volver

Renacionalizar os correios, as águas, os caminhos-de-ferro e a energia, obrigar a que um terço dos conselhos de administração das empresas sejam compostos por representantes dos trabalhadores e expropriar 10% das ações das empresas com mais de 250 trabalhadores para as entregar a fundos geridos por ou a benefício dos empregados. Todas estas ideias, que causaram algum entusiasmo ao Dr. Francisco Louçã, são o essencial do programa de grandes reformas económicas do Labour, anunciado na sua conferência da semana passada. É isto o programa de um partido que era a direita dos socialistas europeus até há poucos anos.

Enquanto que à direita se tem assistido, pela Europa fora, à emergência de partidos de extrema-direita o processo do outro lado parece ser diferente. Para travara a extrema-esquerda, alguma esquerda moderada mimetiza-a.

À direita, os partidos clássicos mantêm-se de direita, mas não se radicalizaram. Nem no Reino Unido, nem em França, na Alemanha, em Portugal, na Grécia ou na Suécia, para dar alguns exemplos. Com a exceção óbvia da Hungria e da Áustria (e, neste caso, com reservas), e o caso americano, a extrema-direita cresce sem que a direita tradicional tenha mudado radicalmente. Pelo contrário, à esquerda está a acontecer outra coisa.

Em tempos, havia normalmente tantos governos europeus socialistas como de partidos filiados no PPE, e uns quantos, poucos, desalinhados e distribuídos entre os conservadores e os liberais. Hoje, na Europa da União Europeia há oito chefes de Estado ou de governo do PPE, sete liberais (não contando com Macron, que passa por independente) e apenas cinco socialistas (Eslovénia, Espanha, Malta, Portugal e Suécia (para já).

Ao contrário do que poderia ser de esperar - ou não, se reconhecermos que os populistas de direita estão a cativar os eleitores que muitas vezes seriam de esquerda - à saída da grande crise dos último anos, foi o centro esquerda moderado que foi o perdedor e não os partidos vistos como pró-mercado, pró-capitalistas e economicamente liberais. Nalguns casos, como o do Labour, a resposta está a ser virar completa e radicalmente à esquerda.

De cada vez que a extrema-direita cresce, é frequente haver quem, à direita, queira que os partidos tradicionais acompanhem o discurso. Se uns falam de emigração, os outros também têm de falar; se uns são contra Bruxelas, os outros também têm de ser, e por aí fora. A tese é que é preferível integrar os descontentes nos partidos tradicionais e democráticos, a deixá-los fugir para a extrema. Esse problema, que era um problema da direita, agora coloca-se à esquerda. No Reino Unido, o novo Labour está mais perto do Bloco de Esquerda do que do Partido Socialista; em Itália, o centro Esquerda, desapareceu, e em França também. E nos Estados Unidos, há cada vez mais réplicas de Bernie Sanders a ganharem eleições primárias entre os democratas.

Se a radicalização à direita é um problema óbvio e grave, o mesmo processo à esquerda não deveria ser considerado menos. Para além do que a história já devia ter ensinado sobre as economias nacionalizadas, a ilimitada intervenção do Estado e por aí fora, entre radicais não se fazem consensos. E a Europa precisa de gente capaz de consensualizar. Coisa que, segundo consta, levou horas para sequer definir o que era, na conferência do Labour na semana passada.

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