Premium Tarrafal. O campo da morte lenta

Em 2021 o governo de Cabo Verde apresentará à UNESCO a candidatura da colónia penal do Tarrafal a Património da Humanidade. Para tal, contará com a cooperação de Portugal. O acordo entre os dois países é assinado hoje, 1 de maio, na data em que passam 46 anos sobre a libertação dos últimos presos políticos

Estava-se em pleno Mundial de Futebol de Estocolmo (1958) quando a morte inesperada de Cândido de Oliveira chocou o país. Antigo selecionador de futebol, treinador de alguns dos principais clubes, fazia para A Bola (jornal de que foi co-fundador) a reportagem do acontecimento. Mas não chegou a ver o Brasil sagrar-se campeão já que uma pneumonia o matou em poucos dias. Quem o conhecia dizia que nunca recuperara inteiramente a saúde desde que, em plena Segunda Guerra Mundial, a colaboração ativa com os serviços secretos ingleses o atirara para o Tarrafal. Aí permaneceu durante 18 meses, durante os quais testemunhou, por exemplo, a morte do líder comunista Bento Gonçalves, como escreve no livro Tarrafal, Pântano da Morte, que só seria publicado após o 25 de Abril (com uma nota prévia do advogado anti-fascista e, acrescente-se porque isso diz bem das afinidades entre ambos, primeiro diretor do jornal do Benfica, José Magalhães Godinho).

Nesse livro, que acabaria por ser póstumo, escreve: "Dentro do Campo não se vive! Aguarda-se a morte! É a morte lenta, mas certa. Apenas uma questão de tempo (...). Uma visita ao Campo confrange. Não se esquece mais. Perdurará na memória como visão horrível - da horrível existência de seres humanos expiando o crime político."

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