Lisboa. E depois da pandemia?

Aguentar embate dos próximos meses à espera de que a Páscoa e o verão tragam uma retoma é a esperança dos agentes económicos. Medina fala num "momento de fazer as coisas de forma diferente".

Menos 40 mil postos de trabalho, uma queda de 50% no volume de negócios feitos na cidade, uma quebra de mais de 200 milhões de euros nas receitas da autarquia, um aumento da despesa em cerca de 28 milhões, um decréscimo de 67% nas chegadas ao aeroporto, uma queda de proveitos no alojamento turístico a rondar os 80%. Em 2020 a pandemia atingiu em cheio o coração da prosperidade de Lisboa. Não se sabe quando será o regresso à normalidade, mas que cidade será esta quando se dissiparem os efeitos da covid-19?

Ao longo dos últimos meses, o presidente da autarquia, Fernando Medina, tem repetido que é chegado o "momento de fazer as coisas de forma diferente". Admitindo o "preço social" do boom turístico dos últimos anos, o autarca socialista tem insistido que é preciso fazer cidade para quem nela vive - a começar por isso mesmo, criar condições para que se viva em Lisboa, sobretudo a classe média e os jovens, cada vez mais afastados pelos preços proibitivos da habitação. As respostas municipais passam em grande medida pelo programa Renda Acessível e pelo Renda Segura. Mas este último, o principal instrumento público para converter as casas do alojamento local (AL) para o arrendamento habitacional, e que se vai prolongar por 2021, tem demonstrado que só uma pequeníssima parte do setor mostra interesse em fazer essa conversão. No primeiro concurso do programa, só cerca de 25% das casas vinham do AL (45 num total de 177) e no segundo a percentagem subiu para os 37%, mas caiu em números absolutos (foram angariadas 107 casas, 40 provenientes do AL).

Eduardo Miranda, presidente da Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP), não tem dúvidas de que foi em Lisboa que mais se sentiu o impacto da crise neste setor, e aponta para quebras da ordem dos "85% a 90%", superiores à média nacional. Mas o que explica então a resistência à migração para o Renda Segura? "As pessoas têm receio da instabilidade legislativa e fiscal e de se comprometerem a médio e longo prazo", diz ao DN, mas sublinhando que também houve transferência do AL para o arrendamento no mercado privado. Não há números oficiais, mas o líder da ALEP aponta para uma estimativa global "de 10% a 15%" - "ainda é um volume grande". O registo nacional de alojamento local contabiliza 19 360 registos de Alojamento Local em Lisboa, mas o número pode não corresponder à realidade tendo em conta que muitos proprietários não dão baixa do negócio.

Alojamento Local na expectativa

Eduardo Miranda não espera melhoras no imediato: "Aquilo que é expectável é que os primeiros meses de 2021 ainda sejam muito duros. É previsível que comece a sentir-se alguma melhoria em abril ou maio, e a nossa expectativa é que no verão já haja sinais de retoma, a um ritmo brando. O grande desafio é conseguir chegar até lá."

Luís Lima, presidente da Associação de Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), também defende que os operadores do AL estão na expectativa de retornar à atividade turística logo que possível. E o imobiliário, que apesar de alguma desaceleração que já se registava antes da pandemia, é a outra galinha dos ovos de ouro das finanças da cidade? "É só esperar. Daqui a um ou dois anos os preços vão subir outra vez", antecipa, acrescentando que os investidores "estão ávidos para recuperar este ano perdido". Uma vez que a questão da pandemia se resolva "haverá muitos estrangeiros a querer vir para Portugal", vaticina o líder da APEMIP. E Lisboa está incluída neste roteiro? "Será a primeira a recuperar."

Paulo Ferrero, um dos fundadores do blogue Cidadania LX e há anos uma das vozes da sociedade civil mais intervenientes na vida da cidade, não tem muitas dúvidas de que, uma vez ultrapassada a pandemia, Lisboa voltará a encher-se de turistas, retomando a normalidade no mesmo ponto que a covid deixou em suspenso: "Não vejo nenhuma razão para que não seja assim, não vejo mudanças de fundo no próximo ano." Questão diferente é se quem visita a capital portuguesa - e quem nela vive - encontrará a mesma cidade. A principal preocupação vai para as lojas históricas, que Paulo Ferrero teme que não aguentem o embate destes longos meses. "Se estivessem a desaparecer as más, as lojas de bugigangas... mas não é isso que está a acontecer", lamenta.

Algumas mudanças na cidade

Manuel Lopes, presidente da Associação de Dinamização da Baixa Pombalina, vaticina que os primeiros meses de 2021 vão "ser terríveis" num contexto em que a zona comercial mais emblemática da cidade já viu fechar - provisória ou definitivamente - cerca de 115 espaços comerciais. Passado o período natalício, os olhos estão agora postos na Páscoa: "Se formos capazes de ultrapassar janeiro e fevereiro sem a canoa ir ao fundo, acho que a primavera nos dará um outro alento, como agora deu o Natal." Mas o futuro é "uma incógnita", condicionada por uma palavra-chave, "confiança".

O que vai mudar na face de Lisboa em 2021? Previsivelmente nada de revolucionário, que o tempo de uma cidade é lento. Para o primeiro trimestre do ano está prevista a abertura do Parque Urbano da Praça de Espanha. A requalificação da frente ribeirinha também deverá ficar concluída, prosseguindo o programa Uma Praça em Cada Bairro, que tem uma dotação de 13 milhões de euros para o próximo ano - uma peça essencial do conceito da "cidade de bairros" que o atual executivo camarário defende para a capital.

O ano que se avizinha - de eleições autárquicas, em outubro - será também o do arranque do sistema de transportes à escala metropolitana, com a Autoridade Metropolitana de Lisboa a assumir o comando da rede transportes (com exceção do Metropolitano, da Transtejo e da Soflusa, que continuam sob alçada ministerial). E esta é uma área, adverte Paulo Ferrero, em que a pandemia pode deixar efeitos duradouros - e nocivos: "Temo que as pessoas se tenham voltado a habituar a trazer o carro para a cidade, é preciso prosseguir a política do primado do peão sobre o automóvel."

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