O biógrafo e o biografado

Quando se leva muito tempo pesquisando a vida de alguém, é como conviver com um cadáver que passou da hora de ser enterrado.

Admirada, amada ou odiada, a americana Clare Boothe Luce foi uma mulher extraordinária. Em 84 anos de vida (1903-1987), fez de tudo e, em tudo o que fez, fez barulho. Ainda muito jovem, em 1923, casou-se com um milionário que, 23 anos mais velho, bebia e a espancava; seis anos depois, divorciou-se dele e ganhou uma pensão que a dispensaria de trabalhar pelo resto da vida. Mas ela não se contentou com isso. Em 1930, tornou-se jornalista, em revistas como a Vogue e a Vanity Fair, narrando as peripécias dos fúteis e elegantes de Nova Iorque - não por acaso, os mesmos que frequentavam os salões de seu andar de cobertura na Quinta Avenida, defronte ao Central Park. Um deles, Bernard Baruch, especulador de Wall Street, ainda mais rico e mais velho, com quem manteve um longo romance - naturalmente, não exclusivo.

Clare interessou-se por teatro. Começou a escrever peças e, em 1936, produziu uma grande comédia, The Women, um sucesso retumbante. Pouco antes, conheceu o homem que a pediria em casamento e com quem ficaria casada pelo resto da vida dele: Henry Luce, um dos jornalistas mais poderosos da América. Luce era proprietário da Time, revista semanal de informação, séria e sisuda, dirigida a um público maciçamente masculino. Clare sugeriu-lhe criar outra revista, também semanal, mas mundana, charmosa, em grande formato, com fotos sensacionais, para o público em geral. Nasceu a Life e, com ela, Luce tornou-se "o" jornalista mais poderoso da América.

O resto é história. O facto de ser casada com uma potência como Luce não impediu que Clare, bonita, brilhante e atrevida, mantivesse uma agitada vida amorosa fora do casamento. Sua coleção, capturada em inúmeras temporadas na Europa, inclusive como correspondente de guerra, incluiu ricos herdeiros, chefes da inteligência de vários países, políticos influentes, escritores e até Randolph, filho de Winston Churchill.

Em 1943, já fixada em seu país, Clare filiou-se ao Partido Republicano, passou a exercer uma feroz agenda anticomunista - ela, que, como muitos, flirtara com o comunismo nos anos 30 - e elegeu-se para a Câmara dos Representantes. Em 1952, o presidente Dwight Eisenhower nomeou-a embaixadora na Itália. Foi uma das primeiras mulheres nos Estados Unidos a chegar tão alto na diplomacia e uma de suas façanhas em Roma consistiu em intermediar a disputa pela posse de Trieste, região contestada pela Itália e pela Jugoslávia - a Itália ganhou. Em compensação, Clare ameaçou cortar a ajuda americana à ainda frágil indústria italiana se seus sindicatos fossem dominados pelos comunistas. Em 1959, Eisenhower nomeou-a embaixadora no Brasil, mas a gritaria contra ela no Senado americano foi tão grande que Henry Luce aconselhou-a a recusar a indicação. Clare concordou, e, assim, só podemos imaginar como teria sido sua temporada no Rio, em meio ao Carnaval, à descontração e à bagunça brasileira.

Com a morte de Luce em 1967, Clare retirou-se da vida pública. Mudou-se para o Havai, onde se dedicou a mergulhar, pintar mosaicos e fazer tricô. Voltou para os Estados Unidos em 1983 e, para que não se diga que agora se limitava a fritar bolinhos, foi por algum tempo conselheira internacional do presidente Ronald Reagan. E, então, em 1984, morreu, e os biógrafos americanos lançaram-se imediatamente à sua vida.

E, sem dúvida, que vida! Mas quantas biografias rende uma vida? E de quais dimensões? A principal biógrafa de Clare Boothe Luce, Sylvia Jukes Morris, morreu há algumas semanas e também aos 84 anos. Sua biografia de Clare ocupou dois alentados volumes: Rage for Fame, lançado em 1997, com 562 páginas, The Honorable Clare Boothe Luce, em 2014, com 734 - um total de 1296 páginas! E, para isso, ela dedicou nada menos que 33 anos de sua vida à sua biografada.

Na condição de também biógrafo (de brasileiros como Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda), acho que entendo um pouco do assunto. O livro sobre Nelson, O Anjo Pornográfico, de 1992, saiu com 458 páginas e me tomou dois anos. O sobre Garrincha, Estrela Solitária, de 1995, com 520 e me tomou três anos. O sobre Carmen, Carmen - Uma Biografia, de 2005, com 598 e me tomou cinco anos. Todos esses anos foram de dedicação absoluta, com frequentes jornadas de 18 horas, cerca de mil entrevistas com duzentas fontes diferentes para cada livro e em vários países, e a leitura de milhares de documentos, recortes de jornais e livros em bibliotecas, arquivos públicos e coleções particulares.

Biografar uma pessoa é como se casar com ela. Durante o tempo do trabalho, o biógrafo troca a sua própria vida pela do biografado. E não apenas passa o dia em função dele - ao dormir, sonha com ele. Mas, por mais fascinante que seja o trabalho, a ponto de tudo o mais parecer desinteressante ou inútil, o biógrafo tem de ficar alerta. Em algum momento, a apuração e a escrita precisarão ter fim - o qual, para mim, acontece quando, um dia, tento fazer uma pergunta tão difícil sobre o biografado que nem eu mesmo consiga responder. Se essa pergunta não existir, o trabalho estará pronto. A história, completa.

Trinta e três anos dedicados a um único biografado? É caso para psiquiatra. O biógrafo perde a noção do que é importante e do que o leitor precisa saber. E, sem que ele perceba, de repente o biografado começará a azedar - como um cadáver que custe demais a ser enterrado. Sylvia Jukes Morris, a biógrafa de Clare Boothe Luce, deve ter azedado junto com sua biografada.

A biografia é um ofício extenuante, mas maravilhoso - eu não o trocaria por nada neste mundo. Mas é obrigatório que o biógrafo e o biografado cheguem vivos, frescos e cheirosos ao livro que o leitor tem nas mãos.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, Estrela Solitária - Um Brasileiro chamado Garrincha (Tinta-da-China).

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