Cordão sanitário já

Por estes dias, Roma dedica a Antonio Canova, o grande escultor italiano de gosto clássico, uma exposição com nome certo: Canova. Eterna Beleza. No Palácio Braschi é possível ver, até março, entre tantas esculturas maravilhosas, a Dançarina de Mãos nas Ancas (1811). Com o tamanho de uma mulher, um esplendor roda sobre a sua base. Não é um nu, é muito mais sensual, o tecido diáfano feito de mármore mostra o corpo inteiro da dançarina, também em mármore de Carrara... A escultura veio da russa São Petersburgo, e para lá regressará. Nem todas as obras de arte viajam sem pecado.

A Dançarina de Mãos nas Ancas está no Hermitage desde 1815, quando foi adquirida à coleção de Josefina de Beauharnais, a ex-esposa de Napoleão que acabara de falecer e inspirou a escultura. É uma obra de arte sem cadastro, ao contrário de outras que, vamos ver, Canova já há mais de dois séculos resgatava. Obras que foram roubadas, com toda a "legalidade" que guerras, colonialismos e ocupações permitem, e foram levadas para os países invasores.

Na sua primeira campanha em Itália (1793-1797), Napoleão quis fazer de Paris a herdeira natural de Atenas e Roma. Impôs ao Papa Pio VI um tratado que lhe permitia levar para França as obras que queria. Na exposição do Palácio Braschi há gravuras da época que relatam esse esbulho. Por exemplo, em Veneza, cavalos de bronze a serem levados da Praça de São Marcos rumo a Paris ou monumentos a césares em carros de bois a atravessar os Alpes. E, sobretudo, houve letras célebres de denúncia. O francês Quatremère de Quincy já em 1796 escreveu um apaixonado panfleto.

O título oficial é Cartas sobre o projeto de tirar os monumentos a Itália. Para Quincy, a obra só tem pleno sentido no contexto em que é criada: "dividir é destruir", Roma é "um grande livro" e "Itália é um museu", escreveu ele para se opor ao roubo que a visão imperial das invasões francesas impôs. Quincy influenciou Canova (então, 1800, o artista mais famoso da Europa) sobre a defesa nacional do património. O italiano viria a ser nomeado ispettore delle Belle Arti, isto é, caçador das obras artísticas espoliadas do seu país.

Esteticamente dois académicos conservadores e, no entanto, precursores revolucionários de uma ideia que chegou necessária e provocadora ao século XXI... E ideia também contraditória: no fim da sua vida, Canova mostrou-se maravilhado pela oportunidade de ter podido ver os frisos e as estátuas do Pártenon. E não, não foi em Atenas que os viu, mas em Londres, para onde Lord Elgin, embaixador britânico em Constantinopla (que, então, ocupava a Grécia), os levou para o British Museum: "My Lord, permita-me dizer-lhe a bênção que me foi dada por ter visto, em Londres, os mármores gregos" (carta de Antonio Canova a Elgin, 10 de novembro, de 1815).

Nesta semana a deputada Joacine Katar Moreira apresentou uma proposta no Parlamento para que o património cultural das ex-colónias, para cá vindo, possa (no sentido de hipótese) ser restituído aos países de origem. Eis um assunto para estudar, para perceber, para hesitar, para acordar, aqui, para recusar, ali, para falar com quem de direito... Foi um passo em frente, nesta semana: sobre o mundo visto como um mundo - que, aliás, ajudámos a ser mundo -, ficámos tão modernos como um antigo artista de há dois séculos.

Agora, outro assunto ligado, como um piolho a uma escola. A deputada tendo dito o que disse, o deputado André Ventura respondeu, no Facebook: "Eu proponho que a própria deputada Joacine seja devolvida ao seu país de origem." É uma declaração política sobre a menoridade que traz a um português (no caso, uma portuguesa) ter outro país de origem: por o ter, pode ser proposto(a) à expulsão. Joacine Katar Moreira - disse-o André Ventura com todas as letras - é inferior, nos seus direitos de portuguesa, a todos os demais portugueses que não têm outro país de origem. E dizer isso é intolerável.

Aproveitemos André Ventura ser um canalha naquilo que ele diz, porque ele pertence ao tipo de político canalha moderno que diz o que é. Infelizmente não nos faltará a ocasião de o ouvir dizer, e também com todas as letras, que aquele negro deve ter menos direitos porque é negro. Mas o que me indigna em Ventura não é o que vai ser. Vai ser, mas indigna-me já o que é.

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