Adeus, princesa

Quem passou férias no Algarve a seguir à revolução de Abril lembra-se bem das filas intermináveis, a perder de vista. Enchente de veraneantes, ruptura de abastecimentos, filas para tudo, para o pão, para o leite, para a água, horas passadas naquilo, naquilo a que então chamavam "bichas", termo que mais tarde viria a ganhar outros usos, mais desprezados e desprezíveis. Filas tremendas, quase tão gigantescas como as que, no dia 25 de Abril de 1975, nas primeiras eleições livres da nossa história, riscaram o país de cima a baixo, de norte a sul, fazendo desse sufrágio, convém lembrá-lo, o mais participado em décadas de democracia: 91,66% de votantes, número não mais repetido.

Ordeiras e silenciosas, sumamente democráticas, plenamente igualitárias, as filas são também uma instituição britânica e, como é evidente, irromperam em dimensão quilométrica logo após a morte de Diana, princesa de Gales. A comoção gerada deu azo a muita e muita coisa, incluindo estudos académicos e análises profundas sobre aqueles dias de luto. Houve mesmo quem falasse em "dianalogia", tantas e tão variadas foram as abordagens da ciência ao fim trágico de Diana Frances Spencer, nascida em Sandringham a 1 de Julho de 1961, falecida num acidente de viação em Paris, a 31 de Agosto de 1997, quando o automóvel em que se dirigia, um Mercedes-Benz S 280, embateu violentamente, a 110 quilómetros à hora, contra o 13.º pilar do túnel da Pont d'Alma.

The Mourning for Diana, uma obra colectiva coordenada pelo sociólogo Tony Walter, da Universidade de Reading, é só mais um exemplo, entre tantos, da febre da "dianologia" (há, aliás, outro livro do mesmo teor e com o mesmo título), disciplina em que muitos se aplicaram com fervor insano e, o que é mais curioso, nas horas imediatamente a seguir ao acidente de Paris, mostrando que a avidez dos paparazzi também se transmitiu à academia e às altas manobras do intelecto. Entre os milhares que fizeram fila para homenagear Diana, encontravam-se, em pesquisa no terreno e trabalho de campo, antropólogos, politólogos, sociólogos, etnólogos e outros cientistas sociais, como Bethan Jones, uma jovem doutoranda da Universidade de Reading que dedicou o seu talento a analisar os livros de condolências da princesa e as mensagens de pêsames enviadas através da internet, chegando a conclusões variadas, algumas surpreendentes: nas assinaturas dos livros de condolências predominaram esmagadoramente as mulheres (72%); 46% das mensagens referiam-se a uma vida após a morte, de natureza antropocêntrica ou religiosa; só 1% das mensagens nos livros de condolências criticavam a família real (percentagem que aumentou para 12% nas mensagens na internet); não foram significativas as mensagens que falaram do trabalho caritativo e humanitário da princesa (16% nos livros de condolências, 29% na internet); muito poucos mencionaram o namorado, Dodi Al-Fayed, também falecido (11% nos livros de condolências, 6% na internet); por fim, mas não por último, foram também pouco expressivas as mensagens que aludiam aos príncipes William e Henry - só 10% das mensagens os referiam e apenas 4% lhes foram directamente dirigidas.

As mensagens eram, de um modo geral, estereotipadas e vulgares, convencionais - "meus sentidos pêsames", "estarás sempre nos nossos corações", etc. -, sendo frequente a reprodução, com variações mínimas, de escritos anteriores, que os que pegavam nos livros para assinar tinham o cuidado de ler, por vezes demorada e atentamente (até por simples e mórbida curiosidade). A comoção do momento, a pressão para escrever à pressa e dar lugar ao próximo na fila, a insegurança pessoal e até social ante a gravidade da ocasião e a ligação à realeza foram elementos que contribuíram indubitavelmente para que quase todos os que assinaram os livros de condolências seguissem um "modelo" mais ou menos banal, pouco ou nada personalizado.

O facto é tanto mais paradoxal quanto aquele era, ou deveria ser, um momento intensamente subjectivo, pessoalíssimo, fortemente emocional e até, num certo sentido, de grande intimidade com a princesa morta. Mas o que ocorreu não só não foi um exclusivo do funeral de Diana (todos nós escrevemos mensagens estereotipadas nos livros de condolências) como se trata de uma atitude mais do que explicável pela forma como a perda é vivenciada e experienciada no nosso tempo, em que até se fala de uma "privatização da morte", da sua circunscrição a um círculo restrito de familiares e amigos, do mesmo passo que a dor e o luto têm uma exteriorização emocional cada vez menor, sendo os gestos mais dramáticos considerados incorrectos do ponto de vista das regras e das práticas sociais dominantes: chorar ou gritar num velório é coisa de alguém pouco educado e instruído, um descontrolo típico dos pobres e das classes baixas ou de gente de outras etnias, sintoma de atraso cultural e mental. As sociedades ocidentais contemporâneas perderam os códigos e as referências de outrora para lidar com a morte, a morte própria e a alheia; para preencher esse vazio, as pessoas seguem, e bem, o que os outros fazem, dizem e escrevem naquelas alturas amargas - por isso, e como fonte de inspiração ou modelo estilístico, lemos sempre as palavras que outros deixaram nos livros de condolências.

A necessidade de encontrar um bode expiatório tornou a imprensa o alvo de todos os ataques

Curiosamente, a investigação de Bethan Jones detectou que as mensagens electrónicas eram bastante mais reflectidas e originais, seja porque havia mais tempo e distância para escolher as palavras adequadas ao que cada qual queria exprimir, seja porque na internet é, porventura, menos frequente a leitura das mensagens alheias como fonte inspiradora.

A internet constitui, para mais, um domínio privilegiado de autoexpressão do "eu" (basta ver o requinte dos insultos nas caixas de comentários...), um espaço de extrema personalização, e também isso explica que as mensagens electrónicas para Diana tenham sido, paradoxalmente, mais amadurecidas e individualizadas - e mais críticas da família real - do que as escritas nos livros de condolências disponíveis nos mais variados pontos de um reino então unido. Desconhece-se, aliás, quantos livros foram abertos (decerto, milhares) e, na maioria dos casos, qual o seu destino após as exéquias fúnebres, sabendo-se apenas que muitos deles foram entregues à família Spencer e ao Princess of Wales Memorial Fund, constituído logo após a morte da princesa com 34 milhões de libras provenientes dos donativos então feitos por particulares e empresas, a que se juntaram 38 milhões de libras do produto da venda do disco de Elton John Candle in the Wind 97, o segundo single mais vendido de todos os tempos (o Memorial Fund de Diana, após diversas polémicas, foi encerrado em finais de 2012).

Alguns factores circunstanciais contribuíram para o impacto avassalador do desaparecimento de Lady Diana Spencer e dos seus funerais. Diana morreu de hemorragia pulmonar às quatro horas da madrugada de 31 de Agosto, um domingo, o que possibilitou que milhões de pessoas pudessem acompanhar ao longo desse dia as transmissões televisivas e seguir, com uma atenção inusitada, impossível num dia de semana, todos os momentos subsequentes à morte da princesa. Se, por um lado, isto permitiu a alguns evidenciarem-se e destacarem-se naquele orvalho de lágrimas, como sucedeu com o primeiro-ministro Tony Blair (há quem diga que a morte de Diana foi para Blair o que a guerra das Falklands tinha sido para Thatcher), por outro lado tornou mais patente a paralisia e o silêncio ensurdecedor da realeza e, em especial, de Isabel II e do príncipe Carlos, sendo este criticado ora por expor os seus filhos ao espectáculo negro das cerimónias fúnebres, ora por os resguardar em excesso da multidão e dos holofotes, impedindo-os de contactar o "povo", de que a mãe era a princesa.

Além da morte ao domingo, outro factor fortuito contribui para a comoção planetária: a 5 de Setembro, nas vésperas do funeral de Diana, morreu Madre Teresa de Calcutá, e as analogias entre ambas foram exploradas avidamente por uma imprensa desejosa de se agarrar a tudo o que pudesse fazer esquecer o papel que essa mesma imprensa tivera na morte trágica e na vida não menos trágica da filha mais nova do 8.º conde de Spencer. Após o desastre em Paris, a reacção imediata - e óbvia - foi atribuir a morte da princesa à ganância dos paparazzi e dos tablóides, a que se juntou um juízo culpabilizador mais amplo sobre a forma como a existência efémera de Diana de Gales tinha sido devassada e escrutinada aos mais ínfimos e íntimos pormenores.

No entanto, em Inglaterra e no resto do mundo, poucos se interrogaram sobre qual tinha sido o seu próprio papel, enquanto consumidores de revistas cor-de-rosa e de noticiários mundanos, na morte daquela mulher de 36 anos. É sintomático, aliás, que os jornais sensacionalistas distribuídos na manhã fatídica ainda fizessem parangonas com revelações do romance tórrido entre Diana e Dodi, como é sintomático que, segundo se diz, Diana tenha gemido "leave me alone" quando alguns fotógrafos se aproximaram dela para a socorrer, enquanto outros continuaram a captar imagens do Mercedes destruído e da princesa em sangue (um deles seria espancado pelos populares que afluíram ao local). Se muitos, com destaque para o irmão de Diana e para Robin Cook, secretário dos Negócios Estrangeiros, atribuíram o desastre à cupidez dos paparazzi, um inquérito aprofundado das autoridades judiciais francesas concluiu, ao fim de 18 meses de investigação, que o acidente fora causado pelo motorista, Henri Paul, que conduzia a altas velocidades sob o efeito de álcool e de antidepressivos.

Ainda assim, o facto é que, em parte por vontade própria, Diana era presença assídua nos jornais, nas revistas e nas televisões de todo o mundo, e o seu nome ainda hoje é citado cerca de oito mil vezes por ano na imprensa britânica. A necessidade de encontrar um bode expiatório tornou a imprensa o alvo de todos os ataques, numa reacção emocional que se começou a desenvolver logo às primeiras horas da manhã de 31 de Agosto e preencheu as transmissões televisivas desse dia.

A princesa foi morta com a cumplicidade de todos os que presenciaram as suas exéquias

Acossados, os media responderam com as suas armas, começando a propagar uma mensagem que santificava Diana e a apresentava como vítima indefesa da crueldade gélida dos Windsor, que se mantinham silenciosos e impassíveis, indiferentes às dores da nação e até às dores dos pequenos príncipes. Na linha de uma entrevista que a própria Diana concedera à BBC em Novembro de 1995, Carlos foi figurado como um monstro insensível e, provavelmente, foi aí que perdeu as chances de um dia ascender ao trono. Com a cumplicidade oportunista de Tony Blair, acabado de chegar a Downing Street e sedento de se afirmar, a tese da "princesa do povo" serviu na perfeição para que os media invertessem a onda que os responsabilizava pela tragédia de Paris. E, como notam as análises da imprensa desses dias, a partir de segunda-feira e em especial de terça, dia 2 de Setembro, os media conseguiram o que queriam: todas as atenções estavam agora voltadas para os preparativos do funeral e para o comportamento indigno da família real, já pouco ou nada se falava do acidente de viação e, menos ainda, da alucinante perseguição dos paparazzi ao automóvel em que seguiam Diana e Dodi.

No filme A Rainha, realizado por Stephen Frears em 2006, Isabel II é apresentada como uma mulher atormentada, sofredora e perdida, que só reencontra o rumo graças ao apoio do seu primeiro-ministro, o que, sendo em parte verdade, talvez seja um retrato excessivo, que subestima o poder da coroa britânica, uma máquina de marketing oleada por séculos de experiência, e as intuições de uma monarca que, ao longo de um reinado de décadas, teve de gerir crises tremendas e foi obrigada a conviver com as idiossincrasias de sucessivos chefes de governo.

O controlo de danos do Palácio de Buckingham foi proporcional à vastidão dos estragos e Isabel II reagiu a um cenário inusitado, totalmente imprevisto, com gestos também eles inusitados, demonstrativos da gravidade daquela hora e, acima de tudo, demonstrativos de que, fosse qual fosse a opinião que tivesse da ex-nora, a rainha sabia interpretar e era sensível ao sofrimento do seu povo, mesmo que toda aquela encenação de dor lhe pudesse parecer excessiva ou meramente ditada pelas circunstâncias. Aquilo que aparentou ser um overreacting da Casa Real, com a bandeira de Buckingham a meia haste e a monarca a falar ao país pela televisão, foi muito mais do que um emendar de mão ou uma tentativa tardia e atabalhoada para reparar danos. Foi, sem exagero, a expressão mais autêntica, e mais extraordinária, do sentido de serviço de Isabel II, que se submeteu aos desígnios nacionais mesmo quando estes provavelmente lhe pareceram insensatos ou motivados pela histeria dos media, e mesmo quando estes visaram a sacralização laica de uma mulher com quem a rainha tivera de negociar na praça pública um divórcio milionário e pela qual não nutria decerto especial afecto.

Surgiu a dúvida sobre se Diana teria direito a um funeral de Estado, já que se divorciara de Carlos em 1996 e, por conseguinte, deixara de ser membro da família real, ainda que tudo o que então se passou, antes e depois das exéquias, tenha mostrado que, apesar do divórcio e mesmo contra sua vontade, a princesa continuava manifestamente a ser "realeza", não "povo". O serviço fúnebre realizou-se na Abadia de Westminster e estima-se que três milhões de pessoas tenham-se aglomerado nas ruas de Londres para acompanhar de perto as cerimónias. O irmão de Diana discursou na igreja, aproveitando a ocasião solene para disparar contra tudo e todos, com farpas letais à imprensa e aos Windsor, Tony Blair leu Coríntios, 1,13, Elton John cantou um êxito pop que compusera para Marilyn Monroe. A televisão transmitiu o funeral para 200 países, em 44 línguas, com uma audiência estimada de 2,5 biliões de seres humanos.

À parte as teorias da conspiração que sempre florescem nestas ocasiões, e que juraram que ela estava grávida de Dodi e que tudo não passou de uma operação sinistra dos serviços secretos ingleses, houve muito de shakespeariano naqueles alvores de Setembro. A princesa foi morta com a cumplicidade de todos os que presenciaram as suas exéquias, desde a família real à sua família e à família do seu amante, passando pela imprensa que lhe devassara a vida para gáudio do povo que agora a chorava. Assassinos, fomos todos. Mas Diana Frances Spencer foi também obreira e cúmplice da sua própria morte - e o acidente de Paris um suicídio há muito anunciado nas estrelas.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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