Premium A maldição da reforma

A nossa sociedade criou vários conceitos e modelos sociais originais. Um dos mais nocivos é a noção de reformado. Todos estamos tão familiarizados com a ideia que nos parece normal e recomendável, sem questionarmos o vício que encerra.

Em primeiro lugar, ser reformado é uma forma de discriminação, pois lida, não com estados, mas condições. Não se trata de um regime para pessoas que não podem trabalhar, mas para aquelas que atingem certa idade, independentemente da sua situação física e psicológica. Assim, constitui uma forma de "racismo etário": quem ultrapasse certa longevidade é obrigado a passar à situação de reformado. A razão por que toleramos tal modelo é por parecer uma discriminação positiva: o reformado é alegadamente beneficiado pela pensão (aliás, tem mesmo oficialmente o nome de "beneficiário"). Esta é a ilusão que distorce a lógica. Os idosos são tratados como obsoletos e ociosos, mas isso é suposto ser vantagem.

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Henrique Burnay

A ameaça dos campeões europeus

No dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.

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Anselmo Borges

Islamofobia e cristianofobia

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

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Adriano Moreira

Uma ameaça à cidadania

A conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.