Este tempo não é para estátuas

Uma boa parte de nós ainda vê a situação atual como algo de temporário, que a investigação científica, os subsídios anunciados e o tempo acabarão por resolver. Penso que é uma visão ligeira da pandemia e das suas consequências. Não tem em conta as lições aprendidas com as crises precedentes, que levaram anos a ser ultrapassadas, apesar de não terem sido tão graves como a de agora.

Para além do impacto económico e social, poderão surgir fraturas políticas de grande envergadura. A confusão, a incerteza e os medos são terrenos férteis de onde costumam brotar políticos autoritários, com pinta de messias megalómanos e ideias ultranacionalistas, populistas e bizarramente perigosas. O espaço democrático encontra-se ameaçado. Começam a aparecer cópias em miniatura de Donald Trump e companhia. Gente que, vinda de fora da prática política e sem a experiência do funcionamento das instituições, pensa ter a solução simples e pronta a cozinhar que irá solucionar todos os males de hoje. Mas, na realidade, os populistas mais argutos estão à espera da oportunidade, que surgirá, no seu entender, com o esgotamento da capacidade de resposta dos sistemas sociais.

Num contexto destes, precisamos de líderes esclarecidos, corajosos e capazes de dar sentido às transformações que aí vêm. Acontece que as pessoas olham à sua volta e não veem esse tipo de líderes. Não se descortina um novo Nelson Mandela, um Kofi Annan de agora ou uma versão moderna de Jacques Delors. O imediatismo e o materialismo substituíram a luta pelos valores humanos. A liderança moral, que o Papa Francisco, o secretário-geral da ONU e outros poderiam exercer, está apagada. Deixaram de aparecer ou, quando o fazem, falam tarde e de coisas vagas. Ninguém toma nota.

Dir-se-ia que só é ouvido quem exagera. Creio que não será bem assim. A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Arden, é uma dirigente moderada que todos admiram. Não tem mais projeção internacional porque está muito focalizada nas questões do seu país. Mesmo assim é frequentemente citada. Greta Thunberg e Malala Yousafzai podem ser mencionadas como outros exemplos de liderança internacional. São vozes respeitadas, que marcam a agenda global. A razão, diria de modo simplificado, é porque vão diretas ao assunto, sem diplomacias nem receios ou ambições pessoais. São vistas como genuínas e combativas. E com ideias claras. É isso que se espera de quem lidera.

Do outro lado da moeda, veja-se o caso das Nações Unidas. Os últimos dez anos foram um desastre para a sua credibilidade. A falta de autoridade ao nível global agravou-se a partir da crise da Líbia em 2011 e conheceu vários momentos de deterioração, nos anos seguintes. A invasão da Crimeia em 2014 e o conflito na Ucrânia, tudo feito com impunidade, o impasse na Síria, com vetos repetidos, o silêncio e a inação face às migrações em massa de 2015, a eleição de Donald Trump em 2016, um político que não aceita os valores da cooperação internacional, a falta de resposta política ao genocídio dos rohingyas em 2017, a exclusão do Conselho de Segurança das questões relativas à Palestina, os ataques contra a UNESCO e a OMS, são alguns dos marcos no processo de marginalização da ONU. Outros mais poderiam ser referidos, numa lista que nos lembra que é preciso repensar o quadro institucional global. Acrescento, apenas, que não há maior frustração na vida internacional do que estar à frente de uma instituição que praticamente ninguém ouve.

Nestas coisas, gosto de sugerir que se siga o exemplo daquele santo homem, descrito num famoso sermão a pregar aos peixes, porque as pessoas não o queriam escutar. Ou seja, este não é, de modo algum, o momento para ficar calado, sem tirar as lições que a crise nos põe à frente dos olhos. Um líder silencioso é apenas uma estátua, o que nestes dias é um perigo, pois as estátuas estão a ser derrubadas.

Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-representante especial da ONU

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